A Lei de Gerson não nos serve

Por Cinara Nahra
NO BLOG FALA RIO GRANDE

Com este título, publiquei há aproximadamente 20 anos atrás (talvez 18 ou 19, me perdoem porque ja não tenho a memória de dantes) artigo no jornal zero hora (um jornal com o qual todos nós gauchos temos uma curiosíssima relação de amor e ódio). Dizia então meu eu ainda jovem no acima referido, que era preciso dar um basta a cultura do “levar vantagem em tudo” que havia se implantado no Brasil, aliada a corrupção e ao escancaramento da roubalheira. Estávamos entao em plena era Collor e , ironicamente, o verde e amarelo de nossa bandeira transformara-se em cinza. E cinzas…

Ontem, na minha aula de ética para os alunos de filosofia da UFRN mencionei a referida “lei” e para minha surpresa e a de todos os alunos mais (digamos) “experientes” , a garotada dos 25 para baixo não tardou a perguntar: “Professora,mas quem é Gerson”? Rimos muito (nós sempre nos divertimos muito nestas aulas de ética) , eu e todos os alunos “experientes”, e antes que tocasse o sinal (na UFRN, seguindo a boa tradição , ainda toca uma campainha anunciando a hora de acabar a aula) ainda deu tempo de explicar que Gerson foi o meio campista daqueeeeela selecao brasileira da copa de 70 (a melhor de todos os tempos) , que Gerson fez uma propaganda de uma marca de cigarros, que Gerson na propaganda anunciou que fumava a marca porque “gostava de levar vantagem em tudo” , e que a expressão “gosto de levar vantagem em tudo” foi cunhada na cultura popular da época como “A lei de Gerson”(embora a pessoa do Gerson nao tenha absolutamente nada a ver com o espirito desta “lei”).

Por que relato aqui o episódio? Bem.. primeiramente porque este foi um daqueles momentos (quase gestalticos eu diria) em que algo se revela e a compreensão do revelado produz em voce uma inesperada satisfação. Naquele momento eu “senti” que o tempo havia passado (impecável tempo que, como diz Agostinho, se ninguém me pergunta eu sei o que é, mas se quiser explicar já não mais sei). Os jovens de hoje ja não mais sabem quem foi Gerson ,não porque o tenham esquecido,mas porque nunca o conheceram. Naquele momento eu compreendi que uma geração inteira ja nao podia mais compartilhar das memórias de uma época que, para aqueles “do nosso tempo” eram mais que memórias, eram acontecimentos que pareciam ter ocorrido ainda ontem. E eu tive então uma imensa alegria em relatar aos meus jovens alunos coisas da historia do Brasil que ,para mim, fizeram parte da, e se misturaram com, a minha própria vida.

Mas há um segundo e provavelmente mais importante motivo pelo qual conto a voces este episódio. É para dizer que , embora nunca tivessem ouvido falar da lei de Gerson, quando expliquei a meus jovens alunos que ela não significava nada mais do que “querer levar vantagem em tudo”, eles não mais se espantaram. Apenas reconheceram o sentido da frase, e compreenderam. E sorriram. Sorriram aquele sorriso que se sorri quando nos sentimos meio que tristes , meio que resignados, um pouco impotentes, um pouco desesperançados.

O tempo passou ,minha (nossa) geração envelheceu e o Brasil mudou muito, e para melhor. Todos nós sabemos agora que a História acabou sendo gentil conosco, este curioso povo, os brasileiros. Saiu Collor e o Brasil foi pouco a pouco retomando o seu colorido. Entrou Itamar (ih ta marl!!) mas foi melhorando. Caímos na real e entramos na era do real. Nos anos FHC a inflação foi controlada (todos aqueles do nosso tempo lembram os dias em que o preço do pãozinho subia todo dia) e chega então Lula a presidencia. Nos anos Lula o milagre prometido desde Juscelino finalmente se realizou. Milhões subiram ao menos um degrau na escala social, a miséria e a pobreza diminuiram a olhos vistos e o verde da esperança e o amarelo do ouro voltaram a resplandecer. Conta-se tambem que durante seu reinado ( como um presente enviado pelos deuses para aqueles a quem estes escolhem e agraciam) sob o azul das nossas águas foi descoberto o tesouro negro prometido que garantirá o futuro de muitas outras gerações de brasileiros.

E chegou então, para construir a história que ainda virá, a companheira Dilma, amazona corajosa e guerreira, que se puder ver mais longe será (também) porque esteve nos ombros de um gigante. Na linha do tempo parece (parece) que a profecia de tornar-mo-nos mais do que o país do futuro, o país do presente, está se cumprindo.

A história, e a estória, teriam ja tido então um final feliz se não fosse pela ausência de uma pergunta. Podemos nos tornar uma potência economica, podemos erradicar a fome e a miséria, podemos até um dia ser o país mais rico do mundo mas não cumpriremos o destino traçado pela nossa natureza, de nos tornar um Brasil não apenas grande , mas grandioso, até que chegue o dia em que todos os nossos jovens tenham perguntado a nós , os mais velhos:

– O que signfica querer levar vantagem em tudo?”

E nós possamos responder, com aquela pitada de orgulho e até uma certa superioridade que os mais velhos sempre tem ao contar aos mais jovens coisas que eles não sabem e não viveram :

– “Ah, meu querido (a) .. Isso não é coisa do teu tempo”

A moral desta fábula humana é a seguinte: somente quando cair no esquecimento não Gerson, mas o que significa agir de acordo com “ a lei de Gerson”; somente quando a miséria moral se tornar coisa do passado , realizaremos plenamente nosso destino de ser o país do futuro e do presente.

Voltarei a este tema inúmeras vezes.

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