A lição do mestre Mário para Nava

Por Euler França
Revista Bula

As cartas de Mário de Andrade (Arte: Lasar Segall) são uma espécie de educação sentimental da elite cultural brasileira. Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Pedro Nava e, entre outros, Fernando Sabino cartearam com Mário e, seguramente, foram beneficiados pela ampla e vigorosa cultura do prosador e poeta paulista.

O livro “Correspondente Contumaz” (Nova Fronteira, 129 páginas), com 12 cartas de Mário Andrade ao médico, escritor e desenhista Pedro Nava, é divertido e inteligente. Mário puxa as orelhas de Nava carinhosamente, enquanto o orienta a respeito de poemas e desenhos.

O autor do romance “Macunaíma” era um descobridor de talentos. Tinha um olhar perspicaz para a qualidade da literatura de autores novos. Em 10 de abril 1927, numa carta para Nava, então com quase 24 anos, Mário comenta, com interesse, dois poemas do amigo mineiro, “A educação sentimental” e “Prelúdio nº 1”. O primeiro “é uma gostosura”; o segundo, “bonitíssimo”.

Depois do elogio, a crítica corrosiva: “Respingos: ‘tinidos de pios e chilros pipocando pingos dos papos estufados’ positivamente não gosto mais dessas brincadeiras sem valor lírico nenhum e cujo valor artístico como onomatopeia é mais do que duvidoso e muito sabido e muito fácil. Positivamente não carece a gente chamar Pedro Nava pra fazer essas coisas. Martins Fontes também faz e franqueza: faz muito milhor [Mário não escreve “melhor”] que você, Guilherme [de Almeida] e Ronald [de Carvalho] misturados”.

Em seguida ao reparo, Mário escreve: “Aliás logo adiante em efeito sonoro e não onomatopáico lindíssimo vem o verso ‘Zumbaia de papagaios com as garras azedas de agarrarem uvaias ácidas’”. De novo, uma ressalva: “… eu aconselharia a retirada imediata do absolutamente inútil ‘ácidas’ se-compreendido na imagem de uvaia que a gente traz em si, e já indicado no poema pelas ‘garras azedas’”. Sem o apêndice, insiste Mário, o verso “fica muito mais ondulante”.

Mário continua citando o poema: “… piriquitos num faniquito e curiangos e urutaus e graúnas…”. Sua crítica: “Você está é verdade que evocando e não descrevendo porém essa mistura de passarinhos noturnos e diurnos me desagrada. Cheguei a esta conclusão incrível: a gente carece de ajudar o mais possível o leitor porque o leitor mais inteligente deste mundo, no momento da leitura, é absolutamente passivo, isto é, a inteligência dele não reage, recebe”.

A implicância de Mário não perdoa nem filigranas: “Adiante vem um ‘O pranto deságua’ bem acentuado. Ora é desagúa que se fala e não deságua. Não venha me dizer que você não escreve portuga porém brasileiro e que fala assim. Não basta. (…) Às vezes em certos abrasileiramentos de linguagem que você pratica sou tentado a achar que você vai um pouco longe por demais e está fazendo uma criação pessoal por demais”.

Feita a refrega, o apoio: “E franqueza Nava: de todos os que se puseram a abrasileirar a própria fala palavra de honra que acho você o mais pessoal e interessante nesse ponto e o que se parece apenas consigo mesmo e não que esteja influenciado por alguém”. Mário nota na poesia de Nava o que mais tarde, bem mais tarde, seria percebido em sua prosa proustiana: “… você conserva uma suntuosidade artística na dicção que é eminentemente literária e não oral. (…) … a independência verdadeira está justamente em construir uma linguagem literária peculiarmente da gente, baseada na e distinta porém da fala oral”.

Autor célebre, já em 1927, Mário conta que, endividado, não tem dinheiro para bancar a publicação de “Clan do Jaboti” (o poeta-crítico escreve “clan”), livro de poemas. “Só depois de pagas as dívidas lá por janeiro talvez do ano que vem é que terei dinheiro suficiente pra publicação, uma merda”, escreve.

No final da carta, alfineta Oswald de Andrade, o pior dos Andrades: “Mandei pro [Carlos] Drummmond [de Andrade] um artigo em que o Osvaldo [ele não escrevia Oswald] fala do ‘Amar Verbo Intransitivo’ falando que não gostou. É verdade que espirrou besteira pra burro, me chamou de fazendo Max Jacob [escritor francês], pedi que provasse e embatucou, etc.” E diz que compra ‘“O Jornal’ todos domingos por causa da crítica do Rodrigo de Mello Franco”.

Há outras cartas muito divertidas, inteligentes, delicadas e sinceras de Mário para o discípulo Pedro Nava. As cartas são verdadeiras críticas literárias, repletas de insights brilhantes.

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