A linearidade (ou não) da escrita

Por Amilcar Bettega
NO TERRA MAGAZINE

De Lisboa

O leitor que me segue já deve ter percebido que nas últimas semanas tenho andado à volta destes assuntos ligados à escrita – e consequentemente à leitura, visto que sem uma não há a outra. Como um cachorro buscando abocanhar o rabo. Mas é assim mesmo: este é um tema que só permite aproximações, volteios, nunca nada é científico e bem determinado.

Leitura, escrita. As duas andam juntas, acabei de dizer. Mas a perspectiva nem sempre é a mesma.

Se quem lê uma história pode muito bem, e até com frequência, se colocar na pele do ou dos personagens, é bem mais raro que este mesmo leitor vá adotar a posição do escritor e ver as coisas a partir deste ângulo.

Lê-se (um romance, um conto) de maneira linear, em geral. Claro que há quem não se aguente e pule as páginas e leia o final antes de fazer todo o caminho. Além disso, há também aqueles livros, digamos, menos conservadores, que propõem eles mesmos uma ordem de leitura quebrada (o romance O Jogo da amarelinha, de Cortázar, por exemplo, que, para quem não conhece, é composto de uma série de capítulos que podem ser lidos na ordem em que estão dispostos, como em qualquer livro aliás, ou em uma outra ordem sugerida como segunda opção, uma ordem salteada, ou ainda, como nos informa o autor, na ordem mais aleatória que quisermos). Também há as obras claramente fragmentadas, onde se pode começar e terminar em qualquer lugar sem que isso tire a força do texto. Mas em geral, para uma boa fruição de uma narrativa, recomenda-se começar a ler pela primeira página e terminar na última. E neste sentido, o escritor… Aliás, isto até vale um parágrafo novo – e talvez um parêntese.

(Pronto. Eu dizia então que, nessa questão da linearidade da leitura, a literatura é uma arte bastante autoritária na medida em que, por seu caráter discursivo, o autor acaba impondo a ordem através da qual o leitor vai apreender (ler) a obra. Ao dispor o texto, os parágrafos, as frases, as palavras, em uma determinada sequência, o escritor está mostrando ao leitor a ordem em que esta obra deve ser lida. Sim, vão me dizer que estamos tratando de narrativas e que elas funcionam assim. Ok, mas um quadro, a pintura, pode ser narrativa também, ou a fotografia. E elas deixam ao receptor uma liberdade maior na maneira como abarcar a obra. Há uma simultaneidade na percepão de um quadro ou de uma fotografia que não existe na literatura. Uma sincronia de impressões, onde tudo é dado ao mesmo tempo e sob um mesmo olhar. Uma paisagem, um rosto, um corpo, cores, sombras, vazios, todos estes elementos coabitantes de uma mesma tela agem em conjunto sobre o observador. Ou não, se este mesmo observador decidir se concentrar sobre um detalhe específico. Mas de todas as maneiras, penso, o observador, o “leitor” da obra neste caso está mais livre na forma como ele vai ler esta obra. Não estou falando em interpretação, mas na maneira como a obra chega no leitor/observador, em como ela lhe é dada.)

Mas voltando à leitura de um romance ou de um conto – de uma narrativa literária, enfim -, acho que dá para afirmar que ela é linear, quase sempre. E do ponto de vista da escrita? Aí eu peço desculpa para fazer apelo à minha experiência – como já disse outro dia, é a única coisa que tenho e, como a escrita não é igual para todo mundo, não sei como se passa com os outros.

Não sei bem, mas acho que até hoje escrevi perto de uma centena de contos ou textos curtos de ficção, e o que posso afirmar é que todos eles, sem exceção, foram escritos na mesma sequência com que se apresentam ao leitor. Isto é, comecei escrevendo-os pela primeira linha e terminei na última. Jamais me ocorreu, por exemplo, escrever o final de um conto antes de ter escrito tudo o que me levava até ele. Claro que isto não impede que durante a escrita, ou mesmo antes, o final do conto seja elaborado mentalmente.

(Aliás – e prometo que este é o último parêntese -, há toda uma teoria, inicialmente lançada pelo exímio contista Edgar Allan Poe no século XIX, da qual deriva boa parte das tentativas de criar uma poética do conto, baseada na ideia de que o conto deve ser construído de maneira que tudo nele convirja para o seu final. Ou seja, ele é concebido a partir do final, que seria a primeira coisa a ser criada. Uma concepção do fim para o início, digamos. Só com o final concebido (ainda que não necessariamente escrito) o escritor escreveria a primeira frase.)

Mas no romance a coisa não é assim. Com uma estrutura mais horizontal, espraiada, e uma arquitetura bem mais complexa, com vários núcleos paralelos, com mais personagens em geral do que o conto, o romance tem várias “frentes”. Parece-me quase impossível escrever um romance à maneira de um conto, começando na primeira linha e terminado na última. Obrigatoriamente na escrita de um romance há os saltos, para frente e para trás, ou para os lados, o que torna a linearidade uma quase abstração – que pode ser realizada na leitura, mas nunca na escrita.

A visada do escritor no momento de compor um romance é totalmente diferente daquela usada na elaboração de um conto. De um lado é preciso uma visão periférica, abrangente, de outro uma mais focada, pontual.

O romance se desenvolve através de uma série de acréscimos: à medida que avanço, retorno às páginas anteriores, acrescento. Ele cresce, se alarga, corre para os lados como a mancha do líquido que se derrama sobre o tecido, não avança em uma só direção como o conto.

Assim, há uma (quase sempre) linearidade na escrita de um conto que não existe (nunca) na escrita de um romance. Embora eu nunca tenha feito assim, acredito que haja contos cujos parágrafos finais tenham sido escritos antes dos primeiros, mas duvido que alguém tenha escrito um romance do início ao fim assim mesmo, começando no início e terminando no fim.

Que me provem.

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005).

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