A literatura está em perigo?

 

Por Marcel Lúcio 

Na obra A literatura em perigo (2007), o crítico literário Tzvetan Todorov aponta a necessidade de redescobrirmos o prazer de ler literatura sem os limites impostos por teorias e metodologias de interpretação do objeto literário.

 Antes do método, antes da teoria, antes do parecer crítico da autoridade, antes de tudo, deveríamos ler o texto literário. Todavia, na escola e na universidade, chegamos ao texto literário após um longo caminho por manuais e resenhas críticas. Estamos fazendo o percurso às avessas, do final para o início, pois toda a metalinguagem posterior se deriva do texto literário, que funciona como uma espécie de ponte entre o estético e a realidade. Assim, Todorov entende que devemos alterar o foco da disciplina literatura, devemos optar pelo “estudo do objeto” e não pelo “estudo da teorização acerca do objeto”.

Para Todorov, a forma de se estudar literatura na atualidade é um reflexo direto do que ocorreu com os estudos literários nos anos 60 e 70 do século passado, ou seja, a forte influência do pensamento estruturalista, que “reduzia” a obra literária aos aspectos estético e formal. Por isso, hoje prevalecem as abordagens internas e as categorias da teoria literária. Todorov entende que, para superarmos essa restrição, devemos equilibrar a análise dos elementos internos com a observação dos fatores externos, sempre lembrando que o objetivo primeiro é o sentido da obra.

A literatura não deve ser apenas reduzida ao plano de expressão, pois, de acordo com Todorov, “A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver”. Por isso, devemos observá-la em seu sentido amplo e não na concepção reduzida.

Caso continuemos a observar a literatura como um mero objeto formal submisso a interpretações teóricas redutoras e metodologias autoritárias de leitura, corremos um sério risco de perdemos a essência humanista e formadora do texto literário, e isso, em nosso mundo é algo extremante perigoso para nós e para a literatura.

Porém, se percebermos e sentirmos a literatura como uma comunicação inesgotável, capaz de dialogar com a realidade atual, com outros momentos históricos e com a nossa experiência individual, estaremos a colocando no seu devido lugar, com o seu adequado e inesgotável poder. E, desse modo, a literatura não será reduzida, mas sim acrescida de muitos outros significados.

Esta é a luta travada por Todorov, esta é briga que devemos comprar!

 

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Câmpus Natal Cidade Alta

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