A Livraria do Luiz

Bem, agora que todos já sabem a verdade. Luiz foi aposentado da Cooperativa Cultural da UFRN e não pode ficar longe dos livros e dos amigos. Torcemos para que o amigo Luiz Damasceno retorne imediatamente para junto de nós. Na Revista Palumbo Nº 03 saiu uma entrevista com ele.

Eleição:

Dia 30 de março, terça feira próxima pela manhã, tem eleição para o conselho administrativo da cooperativa. Estão concorrendo duas chapas encabeçadas pelos professores José Willington Germano e Pedro Lima (atual presidente). Faço parte da chapa do prof. Willington e convido a todos os sócios da Cooperativa para votar. A eleição acontecerá durante a assembléia no auditório da Biblioteca Zila Mamede e dura até às 13h.

A Livraria

Era assim que era conhecida por muitos a Cooperativa Cultural da UFRN. Uma das mais importantes livrarias de Natal está completando 32 anos de existência. Livraria que é o coração da UFRN e ajudou a formar muitas bibliotecas de seus alunos, funcionários e professores. Um dos vendedores dessa livraria era o meu amigo Luiz Damasceno. Muito mais de um vendedor Luiz era um agitador cultural. Falava muito e por isso angariou alguns desafetos. Sabia de muita coisa depois de mais de quarenta anos vendendo livros. Sabia de cor muitos títulos e autores. Sugeria livros e dava sugestões. Muitos de nós somos agradecidos pelas sugestões valiosas de Luiz. Leitor voraz quase sempre mostrava grifado o que estava lendo. Um dos seus livros preferidos é “Os Cus de Judas”, do Antonio Lobo Antunes

Antes da Cooperativa Cultural Luiz foi funcionário da famosa Livraria Universitária ali no centro da cidade alta. Foi nessa livraria que um dia ele foi preso durante o regime militar. Sua querida esposa foi uma militante do movimento estudantil.
Ultimamente Luiz andava meio cabisbaixo. Dorminhoco e soturno. Todos nós estávamos preocupados com o seu estado de saúde. A livraria sem Luiz era diferente. Com quem conversar e fofocar por entre brochuras, fólios e orelhas de livros. Passar na livraria e não encontrar Luiz era uma tristeza. Muitos só compravam se fosse a ele. Afinal, a cooperativa era conhecida como a Livraria do Luiz. Quantas dicas literárias não recebemos do Luiz. Livros que não estava pensando em comprar: comprei. Minha biblioteca tem muitos livros comprados a Luiz. Ele conhecia todo mundo. Fez o curso de direito, mas não exerceu a profissão. Como conselheiro administrativo que fui da cooperativa – algumas vezes, queria dar uma bronca no Luiz pelo não comprimento das promessas de livros que o Luiz dizia solicitar. Tinha que dar um desconto pela sua bonita história. Ele que foi um dos maiores livreiros de Natal.

Quando pensávamos promover algum evento e precisava falar com alguém da sociedade potiguar, o Luiz era a senha e intermediário qualificado. Depois do almoço no centro de convivência o cafezinho regado com as novidades de Luiz. Para saber das ultimas novidades e fofocas. Daquele escritor que havia cometido um erro grave de português. Ou mesmo um erro conceitual. As más línguas diziam que ele foi um grande leitor de orelhas de livros. Outros diziam que o seu caixão só caberia sua língua ferina.

No final do ano passado Luiz surpreendeu a todos quando disse que desejava se aposentar. E aí, o que fazer como administrador da cooperativa? Sugerimos que ele ficasse com um regime de trabalho de meio expediente. A cooperativa não podia ficar sem Luiz. Estávamos muito preocupados com o que ele iria fazer da vida. Ele que passou a maior parte da sua vida dentro de uma livraria. Lendo e opinando. Os amigos não entenderam aquela decisão brusca e definitiva. Nenhum argumento Luiz aceitava para o demover daquela decisão. Alguma coisa séria estava acontecendo com a insônia/ sonolência do Luiz. Algum problema de saúde, talvez? Alguns diziam que os novos vendedores não entediam Luiz e suas manias. Brincava sério algumas vezes. Ou seria brincadeira de mal-gosto.
Luiz nos deixou e ficamos órfãos de suas conversas e brincadeiras. A cooperativa renovou seus funcionários e tem um excelente quadro de profissionais. Mas, para mim, não é mais a mesma. Ficou aquele vazio. Ficou aquele silencio. Não sei mais a quem pedir sugestão de livros. A cooperativa não é mais de Luiz.

Fica a lembrança de grandes momentos vividos na sua companhia de alguém que amava os livros. Luiz tem uma excelente coleção de livros. Livros autografados por Henfil e outros grandes escritores. Colocar um sebo foi uma sugestão que lhe dei. Não, não sei o que Luiz vai fazer da vida. E não sei o que será de mim sem a sua companhia de grande amante dos livros. O conhaque que tanto ele gostava talvez aqueça esses momentos da sua solidão.

Ate breve meu amigo,

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