A lógica de consumo nos perfis sociais

Por Túlio Madson
NA CARTA POTIGUAR

A dinâmica das redes sociais transforma os vínculos de amizade em relações de consumo, a busca por seguidores torna-se logo uma busca por consumidores. Um perfil de rede social é a transformação do nosso ideal em produto. Nele vendemos nossa imagem para tentar nos convencer de que realmente somos aquela projeção, a foto escolhida, as informações contidas – e principalmente as omitidas, os links, tudo que é publicado faz parte de uma estratégia de marketing pessoal, são avaliadores de tendências, como são atualmente as pesquisas mercadológicas.

Esse é o desejo oculto que motiva as pessoas a se exporem cada vez mais nas redes sociais, elas querem saber o que pensam o outros sobre sua imagem, de modo que as redes sociais tornaram-se a materialização do “espelho, espelho meu” do conto de fada. Entretanto é um espelho distorcido, uma vez que a relação se dá em um nível de consumo, é um espelho narcisista, ele comenta apenas para ficar em evidência.

Muitas vezes o interesse por algo publicado pelo outro é uma estratégia de marketing, uma campanha para angariar consumidores. Ao invés de se ater no conteúdo exposto por outra pessoa, geralmente nos aproveitamos das publicações alheias para conseguir de algum modo mais publicidade para nós; comentários engraçados, inteligentes, sarcásticos, são todas formas de fazer publicidade no espaço do concorrente. Geralmente nos atemos a uma pessoa no convívio pessoal, ali, longe dos holofotes das redes sociais, podemos ser mais sinceros. Mas quando nossos comentários são expostos para inúmeras pessoas, não temos apenas que oferecer respostas, temos que ser “o” amigo, exemplo puro e sincero de altruísmo, ou ainda, um milenar sábio chinês, de incontestável sabedoria, sempre com uma citação certa no bolso.

Sem falar também em relacionamentos que se tornam produtos a serem exibidos na rede – amores cinematográficos que duram uma estação. Fazendo assim uma novela digital do casal, com capítulos contados através de fotos e comentários, desse modo, também os relacionamentos tornam-se um objeto de consumo. Nós compramos nossos parceiras – que são sempre a última tendência do mercado – e precisamos exibi-las. Já elas, devem demonstrar o quanto são boas moças, sexy´s – ultimo modelo do ano, o quanto são alegres, felizes, sorridentes, de bem com a vida, que amam os bichinhos e a natureza, e que por isso, merecem seus príncipes-namorados, de corpos esbeltos – último lançamento, bem-sucedido, feliz, alegre, sorridente, que sabe tudo de luta-livre, carro e futebol, um verdadeiro catedrático quando o assunto é entretenimento, ou objetos de consumo que potencializem sua imagem de macho-alfa .

Nessa competição por amigos-consumidores, todos se tornam produtos da estação: escutam tal música, frequentam tais eventos, assistem tais seriados, namoram tais tipos. Quanto mais se está afinado com a tendência dominante, mais se ganha consumidores. Quanto mais se ganha seguidores, mais cresce a ânsia por estar sempre afinado com o modelo vigente no momento. Isso implica em consumir tais produtos, de tais empresas, etc, perpetuando o modelo em um circulo vicioso.

É uma falsa individualidade, as pessoas são levadas a crer que estão manifestando sua personalidade através de perfis sociais, quando na verdade estão apenas repetindo padrões. Dessa forma moldamos àquilo que somos em função do outro, tendo sempre que ser “aceitáveis” e “interessantes” para chamar a atenção alheia, fazemos isso até quando adotamos o discurso contrário, de independência perante esse sistema, mas até isso é um padrão, está dentro de um grupo de pessoas que compartilham dessa crítica, e desse modo temos um grupo que consuma nossos perfis, um mercado a ser explorado. Assim, em uma cultura onde todos são os melhores, onde todos tem a obrigação do corpo perfeito, do estilo apurado, de dar sempre conta do recado, as redes sociais são apenas um reflexo dessa realidade. Nosso perfil é um currículo pessoal, nele corroboramos o quanto somos vencedores, bem-sucedidos, melhores. Disso depende nossa popularidade e a consequente inclusão em diversos grupos sociais, o perfil é uma credencial para se interagir socialmente, coitado daquele que não tiver um.

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. Nina Rizzi 20 de outubro de 2011 9:08

    além de nada de novo. projeção nós fazemos na “vida real” real também. ou será que ele se mostra aos amigos como aos chefes, às mulheres?

  2. Alex de Souza 19 de outubro de 2011 19:07

    Queria saber quais são essas redes sociais aí do artigo pr’eu passar longe delas.

  3. Tácito Costa 19 de outubro de 2011 16:53

    Carlão tem razão, tem verdades prontas demais nesse texto, que peca pela generalização e maniqueismo. O tema é bem mais complexo e o artigo não deu conta disso.

  4. Agemiro Soares 19 de outubro de 2011 13:15

    Eu também li uns três ou quatro livros e me sinto um Diogo Mainardi com raiva de esquerda e pobre, minha Veneza infelizmente fica entre Rocas e Quintas. Lembro os versos da canção antiga: Ó deus, como eu sou infeliz!

  5. Carlos de Souza 19 de outubro de 2011 12:11

    será que é isso mesmo, camarada? não tem verdade pronta demais aí, não?

  6. João da Mata 19 de outubro de 2011 11:53

    Não sei de que esquerda tua falas, Fábio
    A esquerda 64 são muitos. Faço parte dela e
    não me considero um “intectual de shopping”.
    Não entro nessa do consumismo do qual Jobs foi um grande protagonista.
    Não entro nessa de um consumo que nos aprisiona e rouba o que temos de mais precioso: O TEMPO
    Vivemos em tempos de revolução.
    Os quadros mentais pelos quais lutamos ainda permanecem.

  7. Fábio Faras 19 de outubro de 2011 11:42

    Essa esquerda 1964 me incomoda muito.

    O mundo mudou, negada e a esquerda e o pensamento progressista tem que se adaptar a isso, não lutar contra.

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