A lógica do sensível

Por Luiz Costa Lima
REVISTA CULT

Antropólogo francês criou um molde alternativo à tendência generalizante e catastrófica da ciência contemporânea

Quem assina estas páginas não é um antropólogo.

Talvez o convite me tenha sido feito pela curiosidade de notar como reage à obra de Lévi-Strauss alguém que, dedicando-se ao estudo da literatura, saiba que o antropólogo francês foi acusado por um de seus pares de ser pouco afeito à pesquisa de campo, de ter um certo pendor filosófico e muita imaginação.

Em poucas palavras, de não caber no clichê do que se entende como cientista.

Ao escrever a última frase, lembrei-me de imediato da acusação oposta: de sua parte, Deleuze declarava que Lévi-Strauss era o mais “positivista”, ou seja, o mais apegado à ciência, de sua geração. Não estou seguro se as palavras eram bem essas, mas estou certo de seu sentido. Como então conciliar os ataques feitos por Clifford Geertz [antropólogo norte-americano] e pelo filósofo francês?

Eles não chegam a ser infundados, senão que expressam meias verdades. Lévi-Strauss pensava e escrevia extraordinariamente, sem em instante algum deixar de acentuar seu propósito de fazer ciência.

Não poderíamos então somar as duas meias verdades? Mas tais metades não se somam. Ou, ao fazê-lo, deparamos com um monstrengo.

Em vez, portanto, de acrescentar mais um a nosso cotidiano, procuro o caminho oposto. Esquematicamente, ele assim se formulará: as acusações que tinham Lévi-Strauss como alvo decorriam de ter sido ele o primeiro especialista da segunda metade do século 20 a combater a trilha percorrida pelos que consideram a ciência a atividade suprema, talvez mesmo a única digna, a que o homem pode se dedicar.

Nem sequer se cogita que ele fosse contra a ciência ou que deixasse de se comprometer em contribuir para o tratamento científico das questões em que antropologicamente mais se empenhava: a questão da interdição do incesto, a lógica subjacente aos mais intrincados sistemas de parentesco e das transformações a que os mitos estão submetidos.

Para justificar minha tese, espero que seja suficiente fundar-me em uma conhecida passagem de O Pensamento Selvagem (1962). Refiro-me à oposição entre o engenheiro e o bricoleur, aquele tomado como protótipo do cientista e este do praticante do “pensamento selvagem”, como o que faz/opera com mitos.

O engenheiro

A atividade do engenheiro é caracterizada pelo cumprimento de quatro metas: (a) o projeto, definido como utilização e coordenação de elementos com vistas a um resultado preciso; (b) o método, entendido como adoção de procedimentos que conduzam, mediante o menor custo possível, ao resultado proposto; (c) os elementos, objetos materiais específicos ou ferramentas visando a um efeito preciso; e (d) os resultados, que se limitam ao propósito visado, ainda que sejam reprodutíveis quanto a fins semelhantes.

É nesse sentido que, sem nenhuma ironia, João Cabral de Melo Neto dizia que “o engenheiro sonha coisas claras”.

O bricoleur

As operações – apenas resumo o que O Pensamento Selvagem já indicava – supõem o desdobramento do princípio do cogito cartesiano, isto é, a separação absoluta entre o uso da razão, considerada nossa ferramenta lógica por excelência, e os dados da sensibilidade, desprezados como insuficientes e inconfiáveis (remeter a prática científica usual ao princípio orientador do racionalismo moderno não deixa de ser demasiado restritivo pois a oposição entre razão, como valor positivo, e os dados da sensibilidade, como negativos, já era acentuada entre os pré-socráticos).

Em contraposição à figura do engenheiro, o bricoleur encarnava o agente por excelência do “pensamento selvagem” – não só o pensamento do chamado “selvagem” como o pensamento em estado pleno, puro, não domesticado. Definir-se em oposição ao engenheiro significava: (a) que o bricoleur não parte de um projeto coerente e predefinido, senão que age por intervenção pontual; (b) que não tem nenhum método específico; (c) nem possui elementos adequados, destinados a certo efeito; e (d) muito menos que os resultados alcançados são os previstos ou que fossem potencialmente reprodutíveis.

Postos lado a lado, os traços de um e outro parecem falar em favor do engenheiro. Seu procedimento é econômico, seguro, preciso e não enseja extrapolações filosóficas ou poéticas.

Não duvido que Lévi-Strauss levasse em conta essas vantagens.

Mas há o outro lado da questão: a atuação do bricoleur – e cada um de nós pode sê-lo; assim, diante do computador que, de repente, se apaga, desligo o aparelho, esperando que, ao religá-lo, tudo volte ao normal – é pontual, seu resultado incerto e não, em princípio, reprodutível, porque ele atua com uma faixa da linguagem que nomeia o singular, o particularizado, o não passível de generalização, o signo, e ignora a faixa generalizadora da linguagem, o conceito.

(Embora a oposição entre signo e conceito seja corrente, recordo que, a propósito do par engenheiro e bricoleur, ela já foi usada por Marcel Hénaff.)

Por que a operação a + b = c não ajudaria em nada o bricoleur? Porque é uma operação apenas lógica e que desconsidera os dados da sensibilidade – a lógica não sabe do cheiro, da audição, do tato, da visão.

Em suma, o que as duas meias verdades não conseguiam perceber em Lévi-Strauss era sua procura para concretizar uma lógica do sensível. Isto é, praticar uma ciência que não fosse um exercício de abstração; algo que, para apreender leis gerais, despreza as particularidades do fenômeno.

Não se tratava de ou pensar cientificamente ou promover o “pensamento selvagem”, senão de verificar que a hierarquia adotada pela modernidade corriqueira em favor da cientificidade é um caminho parcial, dotado de uma abertura para o catastrófico que talvez só agora, quando Lévi-Strauss já está morto, começamos a perceber claramente.

No seu apego à ciência, Lévi-Strauss não a identificava com o catastrófico, senão que procurava constituir um molde alternativo a seu perfil abstrato, genérico e normativo.

É pensando nestes termos que recordo a caracterização que dele fazia Merleau-Ponty, em Signos (1960): “A etnologia (…) é uma maneira de pensar, aquela que se impõe quando o objeto é ‘outro’ e exige que nós mesmos nos transformemos”.

Luiz Costa Lima é professor de teoria literária na Uerj e na PUC-Rio

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