A louca família do doido

Por Márcio de Lima Dantas (*)

Uma enfermeira que trabalha há quase trinta anos numa das mais conhecidas clínicas da cidade para doentes com transtornos mentais e desintoxicação química disse-me que o problema maior não está no paciente, mas na família que o interna, pois o apelidado louco, fica quieto com seus necessários medicamentos; agora a família, é uma complicação só. Tem cabimento uma coisa dessas? Tem sim, quem sabe haja algo que se vela no entorno de uma pessoa acometida de qualquer enfermidade, mesmo as de natureza puramente física.

Há um lugar social detectado e descrito pelo antropólogo francês Gilbert Durand, nominado “a louca da casa” (la fole du logis). Claro que ele está se referindo ao Imaginário e sua importância nos mecanismos de funcionamento do jeito de ser do humano, essa instância mental, que se contrapõe aos processos apolíneos e do status quo, pautados nas leis, na razão e na vigilância de punir os trânsfugas da DOXA (boa via, direta, direita, verdade óbvia, evidência natural), que vigoram desde sempre ao longo da História. Ora, todo mundo sabe de cor e salteado que o desmantelo nos bastidores é grande, pois cada pessoa age de acordo com seus interesses, deitando e rolando na surdina. Com ou sem censura e patrulhamento, a festa acontece, o desmantelo é grande.

Agora vou trazer para a gente, pois a doida da casa também pode ser compreendida como uma figura de linguagem, uma metáfora, vamos dizer assim: um lugar, um espaço mental, uma necessidade da cabeça do povo para funcionar de acordo com o que foi estabelecido e é tido como saudável e certo (para a maioria, claro!). Quem é que não sabe que toda família, pobre, média ou rica, tem sempre – precisa ter – uma pessoa que fuja do padrão, que destoa dos demais, que haja de maneira diferente, seja lá no que for, só sei que nem é tão difícil de perceber, pois se estiverem todos juntos, emerge logo aquele que vai se destacar: ou pelo excessivo e lesado silêncio ou pela vontade de se mostrar o tempo inteiro, vindo a comprovar de maneira notável que existe mesmo esse personagem. Não brinque não, menino, que todos sabem do que estou falando. Bem claro que é justo ele, a exceção, talvez, que vai confirmar a regra.

Ora, quando há alguém enfermo na família, o chamado “doente dos nervos”, é o momento ideal para vir à tona o que o tempo espanando o cotidiano foi deixando nas frestas plenas de não-ditos, de silêncios plenos de locas e furnas. Se de um lado cada um prova o que é por meio do seu comportamento, quer seja responsável, quer seja para espalhar brasas e piorar a situação, todos sabem tacitamente que é uma boa hora para o acerto de contas de dívidas com camadas de ferrugem, de azinhavre; uns, por ter guardado ressentimentos de irmãos, pai, mãe ou parentes durante um longo tempo; outros, por verem uma oportunidade de atenuarem suas próprias misérias, passando o enfermo a ser uma espécie de contraponto para uma oportuna comparação.

De toda maneira, dificílimo é encontrar solidariedade autêntica, – via de regra marcam suas presenças providas de interesses os mais esquisitos – ou detectar a compaixão pelo doente ou pela situação da família. Quero insistir nesse aspecto. Todo mundo dá pitaco sobre o doente e a doença, arvora-se a ser médico, querem resolver situações complexas por telefone, alterar prescrições médicas, introduzir medicamentos. Em suma, a doida da casa acaba por catalizar toda uma sorte de problemas que orbitam a comarca do núcleo familiar, respingando até na parentalha distante.

Enfim, é bom constatar como tinha razão o escritor francês Marcel Proust quando disse que se “a humanidade soubesse o que ela deve aos nervosos….”. Sim, os chamados doentes dos nervos ou doidos são justo a qualidade de gente que originou os santos, os profetas, os hereges, os poetas, os cientistas, os artistas, ou seja, todos os que foram de encontro ao que se chama “normalidade”, imprimindo rupturas e fazendo de qualquer sorte o avanço lento da dinâmica social. A família burguesa se inscreve como contraponto a tudo isso.

(*) Professor de Literatura da UFRN
7marciodantas7@gmail.com

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