A Lua Cheia de Março (19 de Março)

A benção didinha Lua. É hoje … é hoje o dia de sua plenitude. Ninguém pode dormir: A Lua mais brilhante dos últimos dezoito anos,

A Lua – satélite natural da Terra – é a rainha absoluta da noite. Para os amantes da noite a Lua é um verdadeiro banquete dos deuses. Na etnografia, existem muitas lendas e crendices com a Lua: Diana, Afrodite, Isis. Quando acontecia o eclipse da Lua, era sinal que alguma coisa ruim está para acontecer e é necessário afugentar o dragão que esta devorando a Lua. A Lua também é inspiradora de muitas canções e letras da Musica Popular Brasileira. Nesse mês de março de 2011, mês da quaresma, teremos oportunidade de presenciar um raro fenômeno. Uma lua cheia com maior luminosidade devido a sua maior aproximação com a Terra. A lua mais brilhante dos últimos dezoito anos. Isso acontece porque a órbita da lua não é exatamente circular. A órbita do satélite natural da Terra é uma elipse de pequena excentricidade e = 0,0549. No dia 19 de março a lua passa pelo ponto de maior aproximação na sua órbita em torno da Terra (perigeu) situado a uma distancia de 356.410 km. O ponto mais distante na órbita da Lua chama-se afélio situado a uma distancia de 406.740 km.

A lua na história, etnografia e poesia.

A Lua tem tido ao longo das várias civilizações uma relação muito próxima com o homem e a terra. Desde tempos remotos os homens acreditavam que a Lua influencia diretamente as plantas, animais e o próprio homem. A Lua, também, é responsável pelas marés terrestres e vem sendo ao longo dos tempos uma eterna musa inspiradora para poetas, artistas e contempladores do cosmos em geral. Muitas vezes o homem fica fascinado com a beleza da Lua, e, outras vezes, são possuídos de superstições e crendices que afetam seu dia-a-dia e o seu modo de se relacionar com a terra, a vida, os deuses e o cosmos. O objetivo desse trabalho pioneiro é analisar a Lua na mitologia, etnografia e cultura popular. Para isso, analisamos a Lua nas várias mitologias, crendices e superstições e fazemos uma antologia das principais letras de canções e poemas inspirados na Lua. Fazemos também um comentário bibliográfico do livro Lunário Perpétuo, um manual para se saber as fases da Lua, remédios caseiros, etc. Livro que teve uma importância muito grande na cultura do homem do sertão, poetas e fazendeiros, como comenta Câmara Cascudo (1939) e Gustavo Barroso (1956). Compilamos as letras de musicas consultando dezenas de livros relacionados com a musica popular e a poesia romântica brasileira – desde o romantismo brasileiro-, para saber como o poeta popular se relaciona com a Lua ao longo das várias gerações. Estudamos também as principais crendices e superstições relacionadas com a Lua. Observa-se que a Lua continua fascinando o homem e atemorizando-o em épocas especiais, como os plenilúnios e eclipses A Lua é quase sempre associada com o feminino e se mantém como musa e cúmplice do poeta enamorado, mesmo que às vezes ela cause ciúme e distraia a mulher amada. Iniciamos este trabalho com uma breve visão da Lua no plano mitológico e fantástico. Em seguida, observamos as crendices e superstições luso-brasileiras relacionadas com a Lua, e organizamos um Cancioneiro da Música Popular Brasileira Enluarada, desde o romantismo brasileiro até os dias atuais. Como florilégio da poesia inspirada na Lua, selecionamos três poemas representativos do relacionamento do homem-poeta com a Lua e suas fases. Comentamos também o livro Lunário Perpétuo pela sua importância cultural e relação com a Lua. Por último, discutimos os resultados e apontamos algumas perspectivas de continuidade deste trabalho que é bastante abrangente e envolve diversas áreas do saber humano e universal.

Lendas Brasileiras com a Lua

A lenda brasileira do nascimento do rio amazonas diz que de um beijo do sol e das lágrimas da Lua nasceu o Amazonas. E a Lua nasceu de um beijo de Tupã em um dos raios dispersos da aurora.

Em uma outra lenda, Iací-Uaruá (Espelho da Lua): Iaci sai do recanto sombrio da floresta e sobe vagarosa a estrada iluminada das constelações, deixando a face pálida e imprecisa refletir-se no espelho polido das águas. Neste instante supremo, as virgens guerreiras mais puras e belas, mergulham no abismo estático do lago e voltam trazendo Muiraquitâ (a pedra verde da sorte) para ofertar ao noivo escolhido (Milward 1985).

As Marés da Terra

Isaac Newton foi o primeiro cientista a explicar a causa das marés da Terra como sendo devidas à força de atração gravitacional da Lua sobre a Terra. A lei da gravitação Universal, uma das quatro interações básicas da natureza, é proporcional ao produto das massas que interagem e inversamente proporcional ao quadrado da distância que as separam. Como a Lua está muito mais próxima da Terra que o Sol, a força da Lua sobre a Terra é muito maior que a do Sol sobre a Terra. Portanto, a Lua é a principal responsável pelas marés terrestres. O sol também participa das marés, mas com uma força gravitacional, aproximadamente, um terço da força da Lua. A máxima altura das marés no porto de Natal, nesse mês de agosto de 2007 foi de 2,6m

A Lua na Etnografia

“Lunático”

Lunático segundo a linguagem popular, é sinônimo de maluco, maníaco, doido ou sujeito que vive no mundo da Lua. Mas a acepção primitiva é a de epiléptico, pois se acreditava que as crises de epilepsia tinham relação com as fases da Lua. No evangelho São de Mateus (Capítulo 5, versículo 17), Jesus comenta sobre a pouca fé dos discípulos: Um homem, dobrando os joelhos suplicava: “Senhor, tem piedade do meu filho! Ele é lunático (“epiléptico” ) e tem ataques tão forte que chega a cair no fogo ou na água. Apresentei- o a teus discípulos mas eles não puderam curá-lo. E Jesus respondeu : Ó gente incrédula e perversa! E Jesus o intimou e o demônio saiu, ficando o menino curado”

O Povo do Minho e Douro, em Portugal, crê muito que certas doenças, principalmente das crianças, são produzidas por “ar mau”, isto é, ar em que havia algum malefício ou tinha estado algum espírito maléfico. Para livrar a criança do “ar mau” há muitas práticas e fórmulas, segundo observa Adolfo Coelho (1993) em Obra Etnográfica vol. 1. Duas delas são:

a- Faz-se bolo de pão e dá-se à criança que tem o ar mau e o que a criança não comer deita-se a. um cão e numa noite de Luar a criança deve dizer:

Lua, Luar

dá-me a minha cor,

Dou-te o teu ar.

b- Leva-se simplesmente à criança à rua numa noite de Luar e a mãe dela diz:

Lua, Luar

Toma o teu andar;

Deixa o meu filho

Que o quero criar.

No Brasil, Pereira da Costa (1974); registrou que os recém-nascidos são apresentados à primeira Lua que desponta após seu nascimento – para os deixar criar e serem felizes-. Qualquer pessoa pode fazer a apresentação, mas, geralmente, incube-se as próprias mães o comprimento desse preceito, recitando essa fórmula traduzida em verso:

Luar, Luar / Tomai o meu mal, / Me daí vosso bem, / E deixai meu filhinho / Feliz se criar

A Lua, senhora do tempo, reina sobre o vir a ser, reina também sobre as águas germinativas. A Lua é a principal responsável pelas marés terrestres. Para certas tribos do Brasil, a Lua é a mãe das ervas. Em diversas regiões do Brasil e em outras partes do mundo, ainda se planta e colhe com base nas estações da Lua. Ouvi depoimentos de fabricadores de instrumentos musicais que dizem só colher a madeira na Lua minguante, para que os instrumentos fabricados não sofram a ação de bichos. A crendice popular, também, responsabiliza a Lua pelo crescimento dos cabelos.Parlenda infantil:

Abenção, dindinha Lua, / Deus vos dê boa ventura, / E fazei que mês cabelos / Cresçam até a cintura.

Adelmar Tavares (1888-1963), modinheiro compositor de Estela (“Que noite / O plenilúnio é como um sonho assim risonho”), compôs também a famosa “A bençâo Dindinha”, inspirado nessa parlenda.

A benção, Dindinha Lua! / A benção, Dindinha Lua.

E a Lua vinha por traz da serra, / redonda e branca como a roda / de andor de carro de profissão /

A benção, Dindinha Lua! / A benção, Dindinha Lua.

E a Lua, branca num grande véu / velhinha boa, subiu ao céu.

Em muitas dessas composições desconhece-se o autor, como lembra Aires da Mata no Curso de folclore (1947). A quadrinha abaixo é muito conhecida, porém poucos sabem que o autor é o poeta Djalma Andrade.

A saudade é a luz da Lua, / Luz que a tristeza gelou, / A iluminar os caminhos / Por onde o Sol já passou.

Para muitos povos a influência da Lua depende da sua fase. Nesses belos prolóquios, colhidos por Pereira da Costa (1974), a Lua é apresentada conforme a sua fase:

Lua nova trovejada, / Oito dias é molhada; /Se ainda continua, / É molhada toda Lua

Lua nova de agosto carregou / Lua nova de outubro trovejou.

Lua crescente, pontas para o oriente; /Lua minguante, pontas adiante.

Lua fora, Lua posta, / Quarto de maré na costa;

Lua nova, Lua cheia, / Preamar às quatro e meia.

A relação da forma da Lua com a Maré,

Lua empinada, / Maré repontada.

Alguns provérbios sobre a Lua,

Lua de janeiro / Amor primeiro.

Quando mingua a Lua, / Não comeces coisa alguma…

Das mil quadras populares brasileiras colhidas e organizadas por Carlos Góes (1916), selecionamos algumas relacionas com a Lua, para ilustrar a popularidade da Lua como musa inspiradora.

As estrelas do céu correm, / eu também quero correr; / Elas correm atrás / da Lua / Eu atrás do bem querer. (Sergipe e Minas)

A Lua tem quatros cantos, / todos quatros contra mim / a fartura terá culpa / de não nascer para mim? (Minas)

As quadrinhas organizadas por Théo Brandão, em Trovas Populares de Alagoas (1951), são muito apreciadas no nordeste brasileiro.

Lá vem a Lua saindo / por detrás de uma vidraça, / Quando eu vejo meu benzinho / meu coração despedaça.

Ouvi muito na minha infância em Natal(RN), uma quadrinha que começava assim: Lá vem a Lua saindo / por detrás da bananeira / …

Cancioneiro da Música Popular Brasileira Enluarada.

A música popular brasileira é uma das mais ricas expressões artísticas da cultura oral do Brasil. São muitas as musas inspiradoras do poeta: A mulher, o ciúme, o amor e a Lua que o acompanha nas noites solitárias e boêmias. Sempre pensando na amada e na Lua prateada que tudo ver. Às vezes, essa Lua traz presságios ruins e é tomada de um simbolismo que reflete o sentimento do poeta. A Lua, em geral, rima com nua e tua. No séc. XIX e início do século XX, as modinhas e serenatas faziam muito sucesso. Os livros de modinhas e trovadores eram impressos aos milhares. Muitas vezes essas modinhas tinham letras de poetas consagrados e outras vezes, anônimos. Jayme Ovalle, Manuel Bandeira e Hermes Fontes são alguns dos poetas que emprestaram seus versos para modinhas que fazem parte de qualquer sarau erudito ou popular. A preocupação com a autoria da música é uma conseqüência da conquista dos direitos autorais no séc. XX. Nessa breve antologia registramos algumas das canções e modinhas mais representativas do rico cancioneiro luso – brasileiro, com ênfase, nos poetas românticos e compositores populares brasileiros. Desde as primeiras manifestações de ranchos e sociedades carnavalescas, no séc. XIX, até os dias atuais, a Lua foi uma inspiradora permanente dos poetas e músicos.

Não te esqueças de mim (Fagundes Varella)

Não te esqueças de mim, quando erradia / perde-se a Lua no sidéreo manto; / Quando a brisa estival roçar-te a fonte, / Não te esqueças de mim, que te amo tanto! […]

Uma das mais belas canções inspiradas na Lua é a barcarola escrita por Castro Alves em Espumas Flutuantes (1867), e musicada por Salvador Fábregas. Os olho negros da mulher são como noites sem Luar, e os seios são como a Lua nua.

O Gondoleiro do Amor –(Versos de Castro Alves e Música de Salvador Fábregas) – Nas obras completas de Castro Alves esse poema aparece com o subtítulo Barcarola de 1867. No livro de modinhas tem o subtítulo Dama Negra

Teus olhos são negros, negros/ como as noites sem Luar… / são ardentes são profundos, / como negrume do mar.

Teu seio é vaga dourada / ao tíbio clarão da Lua, / que ao murmúrio das volúpias, / arqueja, palpita nua.

Modinha (Música de Jayme Ovalle, versos de Manuel Bandeira)

Por sobre a solidão do mar, / a Lua / flutua…

Luar de Paquetá (Música de F. J. Freire Junior, versos de Hermes Fontes) 1922

Nessas noites olorosas, / quando o Mar, desfeito em rosas, / se desfolha à Lua-Cheia

Do ultra – romantismo é o poeta português Soares de Passos (1826 – 1860), nascido no Porto em 1826, e morto precocemente de tuberculose aos 33 anos. Estudou em Coimbra, onde fundou O Novo Trovador. Sua poesia ressente-se de uma tristeza que a morte espreita. Duas de suas composições mais famosas foram publicadas no Trovador Brasileiro (1904). A Lua, às vezes, traz presságios sinistros e pode vagar na mansão da morte…

Noivado do Sepulcro – Balada (A. A. Soares de Passos)

Vai alta Lua! na mansão da morte /já meia – noite com vagar soou; / Que paz tranqüila! Dos vai -vens da sorte / Só tem descanso quem ali baixou.

Ergueu-se, ergueu-se… na amplidão celeste / campeia a Lua com sinistra luz. […]

Que noite de encanto (A. A. Soares de Passos)

Que noite d´encanto / que lúcido manto […]

A Lua, qual chama/ que os seios inflama / Fanal de quem ama, / Desponta no céu: / E a nítida fronte / retrata na fonte, / E estende no monte / seu cândido véu.

Nestas praias de límpidas areias (A. A. Soares de Passos) Modinha

Nestas praias de límpidas areias / Prateadas à noite pela Lua, / Passo as horas cismando nos amores / que perdido bebi na imagem tua. […]

Ciúmes

Eu tenho ciúmes da Lua que à noite / Em manto azulada tu buscas fitar, / A Lua me rouba a luz de teus olhos, / Que mais do que ela (bis) / Me sabem brilhar.

Letra do Ameno Resedá; o rancho carnavalesco que foi Escola , fundado em 1907.

Quando o Luar prateado /nos convida a passear /fresca brisa traiçoeira /rouba um beijo ao manacá / …

É a ti, Flor do Céu. (Modinha tradicional de Minas Gerais -Autor Anônimo). Essa música foi cantada e gravada pelo ex-presidente do Brasil e modinheiro Juscelino Kubistchek.

Ó dias de risonha primavera /Ó noites de Luar que tanto amei /Ó tardes de verão, ditosa era /Em que junto a ti amor gozei. …

Lua Branca (Música de Chiquinha Gonzaga e versos de autor anônimo). Composta para um dos quadros da burleta de costumes “Forrobodó”, de Luiz Peixoto e Carlos Bettencourt, estreada em 1912.

Ó, Lua branca de fulgor e desencanto /Se é verdade que ao amor tu dás abrigo /Vem tirar dos olhos meus o pranto /Ai, vem matar essa paixão que anda comigo

Ah! Por quem és, desce do céu, ó, Lua branca/ Essa amargura do meu peito, ó, vem, arranca /

Dá-me o Luar de tua compaixão/ Ó, vem, por Deus, iluminar meu coração.

Muitas letras de canções foram musicadas e, outras vezes, a modinha cantada inspirou o poeta a compor um poema.

Luar do Sertão (Catullo da Paixão Cearense e João Pernambuco, 1913), do poema de Catullo in Matta Iluminada 1924)

Não há, ó gente, oh não, / Luar como esse do sertão/ não há, ó gente, oh não, / Luar como esse do sertão.

Oh, que saudade do Luar da minha terra, lá na serra, /branquejando folhas secas pelo chão!

Este Luar cá da cidade, tão escuro, /não tem aquela saudade do Luar lá do sertão.

Se a Lua nasce/ por detrás da verde mata, /mas parece um sol de prata/ prateando a solidão!

E a gente pega na viola, /que ponteia/ e a canção /é a Lua cheia, /a nos nascer/ do coração.

Nas primeiras décadas do séc. XX eram impressos aos milhares os livros de Modinhas e Canções do autor de “Talento e Formosura” – conhecido como o “Caruso das Modinhas”-, para fazer uma comparação com o célebre tenor lírico. A primeira modinha famosa do poeta Catullo da Paixão já tinha a Lua como musa inspiradora. Cascudo (1924), referindo-se ao belo livro “Ao Som da Viola” (1ª ed. 1921) de Gustavo Barroso, sintetiza bem esse momento de idílio ao luar: “Então, a noite de luar, o luar sertanejo dos versos de Catullo, estala no pateo a fogueira aquecedora e amiga, sôam num murmúrio de lôas, endeixas as formas rústicas de solaus e rimances toscos. E toda a alma do sertão se evola e ascende para o céu, entre o sussurro dos bordões e o perfume embriagador dos juremaes floridos”. No Livro de Catulo, Trovas e Canções (1910), existem muitas outras composições enluaradas. No Fado “Se queres ser poetisa”, Catullo, aconselha à poetisa entregar os segredos à Lua:

…A Lua é muito piedosa! / Faz muito bem ao poeta! / Os teus segredos, queixosa /confia à Lua discreta, / e deixa o pranto gemer! / A dor / ao luar/ suavisa!…/ Poetisa / tu as de ser! (mantemos a grafia original)

Ao Luar (1880)

O Poeta Castro Alves em Aves de Arribação (IV, est. 5), do livro Espumas Flutuantes, escreve: Luar de Amor! Acorda -te Adalgisa! …, Reminiscência de modinha cantada em Pernambuco (apud. Gilberto Freire in Ordem e Progresso, v.3; p. 759 da Coleção Intérpretes do Brasil Ed. Nova Aguilar):

Acorda – te Adalgisa/ Que a noite desliza / Vem ver o Luar / Vem ouvir os cantos / Ungidos de prantos / Que vêm lá do mar…

Linda Morena (Marcha de Lamartine Babo, 1933)

Linda morena/ morena /Morena que me faz penar/ a Lua cheia /Que tanto brilha/ não brilha tanto/ Quanto teu olhar

O teu cabelo não nega (Lamartine Babo e Irmãos Valença, 1932)

E a Lua invejando fez careta /Porque mulata tão és desse planeta.

Essa marchinha foi cantada inicialmente por Castro Barbosa. Lamartine foi um dos reis do carnaval carioca, e escreveu muitas outras músicas para o carnaval. Luar de Prata (1931) é uma outra música inspirada na Lua.

Os quindins de Iaiá (Ary Barroso, 1941)

Os quindins de Iaiá / Cumé, cumé, cumé? /…

Tem tanta coisa de valor/ Neste mundo de nosso Senhor /Tem a flor da meia noite, /escondida nos canteiros / tem música e beleza / na voz do boiadeiro / a prata da Lua cheia / no leque dos coqueiros /….

Uma das mais inspiradas letras e músicas falando da Lua é a composição dos nordestinos Alfredo Ricardo do Nascimento, Zé do Norte e Zé Martins de 1954. Zé do Norte também é o compositor da célebre Mulher Rendeira, sobre motivo atribuído a Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Lua Bonita (Zé do Norte e Zé Martins, 1954)

Lua bonita / Se tu não fosses casada /eu pegava uma escada / lá no céu no céu pra te beijar /e se juntasse /teu frio com meu calor /que dirá nosso senhor se tu comigo te casar.

Lua Bonita me faz aborrecimento/ ver São Jorge num jumento /pisando teu quilarão./Pra que casastes com um homem tão sisudo /que come, dorme, faz tudo dentro do seu coração.

Lua Bonita, meu São Jorge é teu senhor /e é por isso que ele vive, /pisando teu esplendor./Lua Bonita se tu ouvistes meus conselhos… /Vai ouvir pois sou alheio, / quem te fala é o meu amor.

Deixa São Jorge no seu Jubaio amontado /e vem cá para o meu lado /pra gente viver sem dor, / …

A letra dessa música encontra-se no opúsculo Luzes do Cananá, de José Martins, conforme Nery Camello no livro Alma do Nordeste (1941). A letra original da música está escrita conforme falava o matuto do nordeste brasileiro, um “nordestines” maravilhoso onde o acento é que dar a flexão da palavra cantada.

“Lua bunita, / si tu num fosse casada, / eu perparava uma iscada mode hi no céo te beijá! /E, se imbeiçasse / teu frio com teu calo, / pedia nosso Sinhô / mode cumtigo casá.

Lua bunita / me faz aborrecimento / vê São Joge num jumento / Assim no teu coração / pra que casasse / cum home tão carrancudo, / qui come, dróme, faz tudo / pisando em teu quilarão?

Lua bunita, / tu qué uvi um conseio? / (vai uvindo – eu to alheio- quem te fala é meu amô) / – Deixa São Jôge / no seu jubaia amuntado / e vem cá pra meu lado / pra gente vivê sem dó.

Lua nova (Francisco Alves e Luís Iglésias, 1928)

Quando surgiste, que encantamento/ Na minha alcova toda taful! / Pensei que a Lua nesse momento / Tinha caído do céu azul! Vinhas de branco, teu véu ao vento / Mas parecia sonho ou visão!

As Pastorinhas (Noel Rosa e João de Barro, 1934)

(sucesso no carnaval de 1938)

A estrela d’alva* / No céu desponta /E a Lua anda tonta / Com tamanho esplendor /E as pastorinhas / Pra consolo da Lua / Vão cantando na rua / Lindos versos de amor

Essa música foi batizada inicialmente de “Linda Pequena” e interpretada por João Petra de Barros. Depois foi gravada por Silvio Calda com o nome de “ Pastorinhas” e foi um dos maiores sucessos em muitos carnavais.

* a estrela d’alva = planeta Vênus. Depois da Lua, é o planeta Vênus (divina guarda angélica e sensual de Camões) o astro mais louvado pelos poetas. Estrela vésper porque aparece à tardinha coincidindo com a ceia. Nossos índios a chamavam papa-ceia, por essa coincidência, e de Tainá-Cã (estrela grande), por aparece muito luminosa.

No livro Serenata (1914), Alice é a Estrela D´alva do poeta Múcio Teixeira.

Alice

Tu és morena divinal singela / a estrela d ´alva a illuminar- me as scismas! /

Luz cambiante, de fulgentes prismas, / chispas dos astros que afugentas as brumas.

Saudade de Pádua – Valsa (Letra e Música de Edmundo Guimarães)

Ah! Quantas saudades tenho /das noites de luar / com que sonhando venho / sempre a te querer, sempre a te recordar…

Em noites de luar, lindas canções de amor /teu rio cristalino /como cantor divino…

A Lua é Camarada (Armando Cavalcanti e Klecius Caldas, 1963).

… Vem / que a Lua é camarada / Em teus braços quero ver / o sol nascer.

A Lua é dos namorados (Armando Cavalcanti, Klecius Caldas e Brasinha, 1961)

Todos eles estão errados / A Lua é dos namorados / Lua, ó Lua / Querem te passar pra trás/ Lua, ó Lua / Querem te roubar a paz.

Lua que no céu flutua / Lua que nos dar o Luar / Lua, ó Lua / Não deixa ninguém te pisar.

Na década de 60 do século passado, as marchinhas que haviam feito tanto sucesso nos carnavais passados estavam em declínio com o aparecimento dos sambas enredos. Klecius Caldas e o seu parceiro mais constante, Armando Cavalcanti eram apaixonados pela Lua e ainda fizeram juntos: A Lua e Colombina (1962), A Lua é Camarada (1963), Sempre o Luar (LP de Carnaval da RCA) e Lua Cheia (1964).Observe, também, que a data constando em algumas músicas, é a data em que ela foi lançada no carnaval. Nem sempre temos a data da composição. Muitas dessas músicas foram feitas visando exclusivamente o carnaval. Algumas se eternizaram e ainda hoje são cantadas durante o carnaval.

Lua e Estrela (Vinícius Cantuária) Música gravada por Caetano Veloso em 1981

Menina do Anel, de Lua e estrela / Raios de Sol no céu da cidade / Brilho da Lua/

Noite é bem tarde / Penso em você / Fico com saudade

Luíza (Tom Jobim, 1981)

Lua / Espada nua / Bóia no céu imensa e amarela /Tão redonda a Lua /Como flutua

Vem navegando o azul do firmamento /E no silêncio lento/ Um trovador cheio de estrelas

E a Lua tudo assiste…

Quando o samba acabou (Noel Rosa, 1933)

Lá no morro/ Uma luz somente havia /Era a Lua que tudo assistia /Mas quando acabava o samba / Se escondia

Se a Lua contasse (Custódio Mesquita, 1934)

Se a Lua contasse / tudo que vê / De mim e de você/ muito teria que contar

Contaria que nos viu brigando/ E viu você chorando/ Me pedindo pra voltar

Somente a Lua foi testemunha/ Daquele beijo sensacional/ Neste momento foi tal enlevo /Que a própria Lua sentiu-se mal.

Serenatas

Meu sogro aos 93 anos, contava em notes sãocaetanenses que nas primeiras décadas do séc. XX – quando ainda não havia luz elétrica – as serenatas eram muito comuns nas portas e janelas fechadas das casas de amigos ou da amada desejada.

Ao som de violões plangentes, o poeta-cantor convidava a abrir a janela e ver a Lua. Uma prova de amor era não dormir em noites de Luar, vaticina o poeta pernambucano Silveira Carvalho.

Quem ama para dar provas /Deve três cousas cumprir: /Tocar violão, fazer trovas, Havendo Luar não dormir!

Do livro Serenata, novíssima coleção (1914), Miscellanea de um Capadócio

Nestas praias de límpidas areias, / prateadas à noite de Lua / passo as horas…

Uma das mais belas modinhas brasileira, Melodia Sentimental, tem letra da poetiza Dora Vasconcelos e música de Villa Lobos. Essa música faz parte do disco Floresta do Amazonas:

Acorda, vem ver a Lua /que dorme na noite escura / que surge tão bela e branca / derramando doçura / clara chama silente / ardendo meu sonhar.

As asas da noite que surgem / e correm o espaço profundo / oh, doce amada, desperta / vem dar teu calor ao Luar.

Quisera saber-te minha / na hora serena e calma / a sombra confia ao vento

o limite da espera / quando dentro da noite / reclama o teu amor

Acorda, vem olhar a Lua / que dorme na noite escura / querida, és linda e meiga / sentir meu amor e sonhar.

Compositores contemporâneos:

A Lua que Eu Te Dei (Herbert Vianna) Canta Ivete Sangalo

Posso falar da tarde que cai / E aos poucos deixa ver no céu a Lua /

Que um dia eu te dei…

Luar (Gilberto Gil)

O Luar /Do Luar não há mais nada a dizer / A não ser /

Que a gente precisa ver o Luar.

O poeta Vinicius de Moraes compôs a Serenata do Adeus, interpretada entre outras cantoras, pela “enluarada” Elizeth Cardoso.

Serenata do Adeus (Vinicius de Morais)

Ai, a Lua que no céu surgiu / não é a mesma que te viu / nascer dos braços meus / cai a noite sobre nosso amor / e agora só restou do amor / uma palavra: Adeus…

Moon da Lua (Lulu Santos )

Videograma irradiando os céus

Desta cidade

Com ondas de amor

Com voltagem superior a

1000 megatons

Girando em órbita lunar

Sputnikes de gozo e de paixão

Já computaram minha programação

Com voltagem superior

A 1000 megatons

Girando em

”rbita lunar,

”rbita lunar,

”rbita lunar

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Comments

There are 5 comments for this article
  1. Tatiara 17 de Março de 2011 15:39

    Legal, professor! A Lua e seus mistérios…
    Tomara que a Lua desse sábado possa ser bem apreciada com um céu livre de nuvens!

  2. João da Mata
    João da Mata 17 de Março de 2011 16:15

    Isso mesmo Tatiara, vamos torcer para que o céu esteja limpo.
    Sábado, também, é um dia mágico para os nordestinos: O Dia de São
    José, indicador ou não de um ano bom de chuvas.
    Brindemos à Lua ! Abraços

  3. João da Mata
    João da Mata 22 de Junho de 2011 17:09

    Caro Tácito,

    Não sei se os leitores do Splural conhecem o fotografo Hugo Macedo, um dos mais talentosos de Natal. No blog do Hugo tem umas fotos lindas do Seridó e da Lua ( junto com o meu texto ). A escrita ficou muito enriquecida com essas belíssimas fotos que eu divulgo para os nossos leitores.

    http://fotohugo.blogspot.com/2008_12_01_archive.html

  4. Turuna da Mauricéia 11 de Março de 2017 18:19

    ”A lua vem saindo por detrás bananeira, já estou de boca cansada de beijar moça solteira!”
    Ouvi esses versos em um disco de um tradicional pastoril de 150 anos de PE.

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