A Maçã de Prata (1453)

Por Márcio de Lima Dantas

Sob um sol nítido, zimbórios resplendiam preces,

incensos ardiam medo e ruína,

malogro do que houvera sido a arquitetura

de um lugar erguido divisa de dois mundos,

cujo orgulho o traçado das ruas e os prédios

mesclavam elementos de ambos os lados:

arcos, portais, cúpulas, colunas e praças.

À cidade sitiada, nada restava senão

elevar agonias, lamentos e ladainhas,

por saber-se derrotada face às trombetas

e rufar de tambores que ecoavam lá fora,

nos muros de pedra. O inimigo,

com suas bandeiras verdes,ao vento,

dizia que dessa vez nada restaria,

pois a cor do sangue galvanizava

cada olhar de soldado pronto

para o acerto das dívidas,

depois do acúmulo de anos,

numa espera na qual a desgraça

era o substrato onde se chantava

o desejo de vingança.

Diante de tudo isso, de tudo o que

é humano, mesmo sendo batalhões

prontos para o final de um período,

na certeza de muito sangue derramado,

que deus daria atenção a tal espetáculo,

que deus se importaria com o digladiar

de dois povos num combate feroz,

que deus se apiedaria de uma capital

de império completado seu ciclo,

cobra mordendo o próprio rabo?

27.10.2011

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. janaina 2 de outubro de 2012 15:08

    Ai é outro nível, Grande Marcio de Lima Dantas.

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