A madame Bovary de Claude Chabrol

Baseado no romance homônimo do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880) narra a história trágica de uma mulher que se entedia com a vida e com o casamento sem amor. Na França do século XIX Emma é uma jovem camponesa que vive numa pequena cidade do interior da França. A vida provinciana sufoca a jovem Emma que ao sair do convento se casa com um rico médico, Charles Bovary, que conheceu quando ele foi cuidar de seu pai quando este quebrou a perna, apenas para obter ascensão social. Charles, além de ser mais velho, é bem metódico. À medida que transcorre o infeliz casamento cresce o desapego e a distancia da inquieta Emma do marido, pois as conversas dele eram “planas como o chão” e isto a entediava ainda mais. Sentindo um claro desprezo por seu marido, Emma passa a ter relações extraconjugais e fazer grandes gastos com o agiota e vendedor sem escrúpulos senhor Jean-Louis Maury (Lhereaux). Rodolphe recebia ricos presentes da amante Emma. Em um sinete recebido tinha a máxima “Amor nel cor”. Além disso, Rodolphe recebeu uma estola para servir de cachecol e um porta-cigarros idêntico ao do visconde (Madame Bovary, G. Flaubert). Para preencher a monotonia a protagonista ler muitos folhetins e acaba por se envolver com amantes e dívidas advindas da compra de roupas e presentes para os namorados. Emma é uma das grandes personagens trágicas da literatura mundial, e modelo para muitas outras heroínas.

No filme de Claude Chabrol a história trágica de Emma Bovary é protagonizada pela excelente atriz Isabelle Huppert . O médico Charles vem atender o pai de Emma e é seduzido pela beleza da filha que o convida a tomar um licor. Emma lambe lubricamente o fundo do cálice. No colégio – ela comenta-, fingia desmaiar para ser mimada. Ama a música e toda primeira sexta feira do mês costuma colocar flores no túmulo da mãe.

O pai de Emma é um alcoviteiro do casamento da filha com Charles. Acontece o casamento, a festa e o pedido da sogra para cuidar bem do filho. Logo Emma percebe o fosso entre ela e o marido que é tão plano como o chão. O marido médico é um fracassado na profissão. Ao operar um deficiente físico da cidade numa operação desastrosa que acaba agravando a situação e o paciente precisa amputar a perna.
A história oscila conforme o humor da triste Emma que não sabe lidar com a filha Berthe. Para completar o quadro sombrio ela recebe a triste noticia que Léon vai morar
em Paris. Léon vem se despedir e Emma pergunta: – É à inglesa!

Ao procurar ajuda na Igreja, Emma se depara com um padre distraído com os meninos, que acredita que quem tem pão e casa é abençoado por Deus. Emma diz que não é remédio terreno que procura; tenho pão, mas não tenho o fogo do inverno.

Numa outra cena Emma marca um encontro com o amante na Igreja e sem interesse em visitar as belezas do templo sagrado, sai num longo passeio sem destino com o amante dentro de um fiacre com cortinas fechadas. Ao sair tem o vestido todo amarrotado, num escândalo para a época em que o livro foi escrito.

Emma tenta o suicídio após ler a carta do amante desistindo da fuga e é salva pela criada. Bela a cena do filme onde projeta a sombra da mão de Emma segurando o crucifixo. Emma havia se envenenado com arsênico. A câmera assume o olhar transfigurado e distante da heroína que num único lampejo de vida ainda vê a imagem do cego que a persegue em várias ocasiões. As cenas são teatrais e pouco convincentes, embora belas as fotografias em preto e branco.

O filme Madame Bovary de Chabrol tem belos figurinos e cenários numa direção sóbria que privilegia o roteiro baseado no grande romance. Esteve melhor no papel de Emma a bela atriz Isabelle Huppert e os outros personagens dessa trágica história. Muito bom Jean-François Balmer no papel do marido corno Charles Bovary e o Christophe Malavoy (Rodolphe Boulanger) no papel do amante sedutor.

O casal é convidado para um baile na casa do Visconde e esnoba o marido que observa ela dançando. Emma ouve as conversas sobre um outro mundo glamouroso e ao sair do baile comenta: “ é o dia mais lindo da minha vida”. Ficaria lembrando desse dia durante muito tempo.

Ao sentir o abatimento da mulher que não sente mais prazer em nada; abandonou a música e já leu tudo. O atencioso Charles sugere deixar Tostes e ir para Yonville. Leu Walter Scott. Encantou-se com as grandes heroínas da história: Joana D´Arc, Heloísa – a amante de Abelardo, Agnès Sorel e muitas outras. Fez assinaturas dos jornais femininos Corbeille e do Sylphe des salons. No filme, Léon pergunta se ela não vai renovar a assinatura do Farol de Rouen (cidade da França onde Flaubert nasceu).

Tomam a hirondelle e na nova cidade eles são recepcionados pelo farmacêutico Homais, grande personagem. Ele é contra as crenças religiosas e preconceitos, em que as pessoas deixam de freqüentar o médico para se entregar à religião.
Emma conhece o jovem o jovem Léon e logo se apaixona pelo belo rapaz que ler para ela e adora música alemã. Entra em cena o inescrupuloso negociante de roupas e jóias Lhereux que oferece a Emma belos vestidos que ao comprá-los o leva à bancarrota após assinar inúmeras promissórias e não poder saldá-las. Depois, quando Emma pensa em fugir encomenda ao escroque uma capa, uma mala e um saco de dormir. A dívida aumenta.

Na nova cidade Emma se deixa levar na lábia de um galanteador que a seduz e abandona depois que ela completamente apaixonada propõe uma fuga em conjunto. Acertada a fuga, Emma recebe uma carta do amante pedindo que esta o esqueça. No livro, o amante não aparece na noite da fuga. A interpretação de Huppert é bastante convincente num rico papel de uma personagem muito bem construída e complexa.

Flaubert sabia das contradições da vida. “Havia em Flaubert um romântico que achava a realidade rasa demais, um realista que achava o romantismo vazio, um artista que achava os burgueses grotescos, e um burguês que achava os artistas pretensiosos”. Madame Bovary é o Dom Quixote de saias e a sua derrota é a derrota da vida.

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