A mãe do filósofo

Por David Coimbra
ZERO HORA – VIA CONTEÚDO LIVRE

Arthur Schopenhauer tinha problemas com a mãe, e isso lhe marcou a vida para sempre. Já li alguma coisa dele e a respeito dele, mas talvez o que tenha gostado mais seja um volume que o meu amigo Guilherme, da Beco dos Livros, enviou-me dias atrás. Trata-se de uma alentada biografia escrita pelo alemão Rüdiger Safranski, um professor de Berlim. Nesse livro está reproduzido um extenso trecho de uma carta de Johanna, a mãe de Schopenhauer, para o filho, quando ele ainda era jovem e ainda não havia rompido com ela.

A carta é famosa. Johanna faz uma crítica corrosiva ao filho e, ao mesmo tempo, lhe dá conselhos que poderiam ajudá-lo bastante, se os acatasse. A análise da mãe de Schopenhauer é tão arguta que serve para qualquer pessoa, em qualquer época, inclusive eu e você. Vou reproduzir abaixo um pedaço ácido de sabedoria e de franqueza:

“Tu não és um homem mau, não estás desprovido de inteligência, nem de educação, em suma, dispões de tudo que poderia fazer de ti um modelo e exemplo para a sociedade humana. Conheço muito bem os teus sentimentos e sei que existem poucos melhores do que tu, mas és também aborrecido e insuportável em outros sentidos e acho muito difícil conviver contigo.

Todas as tuas boas qualidades são empanadas porque te julgas ‘esperto demais’ e essa arrogância não te serve para nada nesse mundo, simplesmente porque não podes controlar essa tua mania de querer saber mais do que os outros, de encontrar defeitos em toda parte, menos em ti mesmo, de querer controlar tudo e de te achar capaz de melhorar as pessoas com que te relacionas.

Isso serve apenas para exasperar os que se acham ao redor de ti, ninguém está interessado em ser assim ensinado e melhorado de uma forma tão violenta, menos ainda por um indivíduo tão insignificante como ainda és; ninguém pode suportar uma censura vinda de alguém que ainda demonstra tantas fraquezas em seu caráter pessoal e muito menos pode gostar dessa tua maneira de criticar os outros em um tom oracular, definindo tudo à tua maneira, sem admitir a menor objeção.

Se fosses menos instruído e inteligente do que és, serias simplesmente ridículo; mas, mesmo que reconheçam tuas qualidades, continuas extremamente irritante. Os seres humanos, em geral, não se portam com maldade quando não se sentem atacados”.

Entre tantas verdades ditas por Johanna em sua carta, há duas que chamam mais a atenção:

1. Quando ela observa que o filho tem a tendência de ver e apontar os defeitos das outras pessoas.

2. É a frase que encerra o parágrafo: “Os seres humanos, em geral, não se portam com maldade quando não se sentem atacados”.

As sentenças se completam. Uma decorre de outra. As pessoas se sentem atacadas quando surge alguém que tem o hábito de ver e apontar os seus defeitos e, sentindo-se atacadas, se portam com maldade e, portando-se com maldade, acabam demonstrando com ainda maior clareza os seus defeitos, que são apontados por quem tem o hábito de assim o fazer, e a coisa nunca mais cessa, para todo o sempre.

É muito difícil compreender esse ensinamento de madame Schopenhauer, apesar da sua simplicidade. Você pode ver as pessoas pelo lado bom ou pelo lado ruim. Isso depende de você, não das pessoas. Logo, o que é bom e o que é ruim não está nelas, mas em você, que as vê.

Pegue como exemplo alguns dos profissionais mais bem remunerados e com maior prestígio do Brasil: os técnicos de futebol. Como é que, ganhando 500, 600, 700 mil reais por mês, alguns deles se portam de forma tão ranzinza, agressiva e amarga? É porque eles não ouvem o elogio, ouvem a crítica. Deixam-se abalar pelo que existe de negativo, jamais se elevam pelo que há de positivo em sua atividade. São poucos os que aprendem. Celso Roth aprende.

Vejo Celso Roth evoluindo a cada jogo e a cada entrevista. Prova de inteligência, que é mais importante do que conhecimento. Schopenhauer precisou criar um sistema filosófico para superar o desamor da mãe e, por fim, encontrar a paz. Celso Roth, como qualquer bom técnico de futebol, não precisará de tanto para encontrar a vitória

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. aldo lopes de araujo 14 de setembro de 2011 6:23

    Vocês precisam conhecer as cartas da bisavó de Schopenhauer.

  2. Marcos Silva 13 de setembro de 2011 13:09

    A importância pública da mãe de Schopenhauer é ter sido mãe de Schopenhauer.

  3. Aguinaldo Maciel 13 de setembro de 2011 12:54

    Como tem gente aqui precisando receber umas cartinhas de dona Johanna!

  4. Fernando Monteiro 13 de setembro de 2011 9:56

    Começa no epistolário entre filósofo e mãe de filósofo (essa “Madame Schopenhauer” até parece a mãe de Woody Allen!) e termina no futebol.
    Coisas do Brasil…

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