A maldição do sucesso

O sucesso é um anjo perigoso. Os espíritos fortes que já o encararam de muito perto e sobreviveram às suas armadilhas, ensinaram que ele é ágil, cruel e ardiloso. Ah, mundo véi hijeputa!: quantos reis, celebridades e impérios desapareceram em pleno espetáculo!

Alguns sábios antigos diziam que os deuses frequentemente ofertavam o sucesso como um castigo reservado aos piores homens e mulheres, dignos dos maiores karmas. A vida me sussurrou que eles têm enviado o mensageiro e verdugo Anjo do Sucesso para nos empobrecer de riquezas, enfeiar com belezas, idiotizar com conhecimento, secar com recheios, cegar de visões, apequenar de grandezas, destronar com tronos! Assim os deuses puniam com paciência e requinte, meus amigos: com o sucesso! Pois os antigos deuses não eram bons: eram justos! Sabiam sangrar, cevar e cozinhar bem suas vítimas, antes de devorá-las.

E como essa antiga verdade se “modernizou”!, como dizem. Quem hoje não se prostitui, reza e mendiga pelo sucesso? Ah, a velha cilada se democratizou!… Há templos desse ídolo sorridente por toda parte, de todas as cores, formas e preços. As redes de pesca social permitiram que os cultos e sacrifícios públicos ao sucesso enfim possam durar 24 horas, e ser ministrados em qualquer lugar, por qualquer um! Os cardumes de cretinos nunca chegaram tão longe, e tão depressa!

O sucesso se tornou um deus cada vez mais popular apenas para servir melhor à justiça. Num piscar de likes ou notícias, os deuses vão higienizando os mares de criaturas excessivamente doentes, agitadas, barulhentas. A onipresença do Anjo Vingador é um dos avisos mais claros de que nossa civilização entrou em fase terminal. O planeta virou um campo de concentração cibernético com poucos adversários à altura. Um dia os grandes ídolos e líderes da humanidade serão seus piores exemplares: as previsões dos séculos passados já se consumaram. Maldições como Bolsonero, Felipe Neto, Trump, “Senta concentrada”, Dória e Moro são o auge de uma degeneração coletiva reversível e pontual, ou o preâmbulo de um longo e irreversível pandemônio global?

Quase sempre há mais vitória na “derrota” do que no “sucesso”, e, por mais que pareça estranho e maldoso, mais vale torcer pelo fracasso da maioria das pessoas, do que por seu sucesso. Pois o fracasso é professor e insistente, e treina o bom aprendiz; mas o sucesso é impiedoso, jogador, especulador: aposta alto em qualquer merda! Boa parte das pessoas que se tornam ricas, famosas e/ou “influentes” são lançadas ao topo da montanha cedo demais, sem musculatura espiritual adequada, e necessariamente despencam cada vez mais fundo à medida que sobem. Caem para cima. É menos doloroso tombar ao nível do mar, na base da montanha, do que se perder no meio da névoa montanhesa, cair do top-o, ou ser soterrado nas alturas.

Poucos podem “vencer na vida” sem ser derrotados. Poucos podem se levantar e ficar em pé. Poucos conseguem derrotar seu próprio sucesso. Meu sangue mortal é quente, e às vezes arde de piedade: eu só desejo a fama, a riqueza e a glória para os melhores! Mas os deuses não; os deuses têm outros planos… Os deuses são mil vezes mais frios do que as montanhas mais geladas onde castigam, há milênios, os fracassados de sucesso. Seus jogos e algoritmos são misteriosos e distantes. Os deuses só poupam os inocentes. E os apóstolos, súditos e vítimas do sucesso são sempre ingênuos; jamais inocentes.

Meu sangue mortal é quente, e às vezes arde de alegria e revolta: quando o terrível Anjo do Sucesso espreita mais um artista comum, musa lerda, intelectual menor, atleta palerma ou político rasteiro, me preparo para assistir novamente os leões cercarem a manada e aniquilarem seus alvos mais fracos.

O sucesso é dádiva ou castigo reservado aos piores e melhores. Quando nos alcança, é teste e punição; quando o alcançamos, é teste e recompensa. Ele é o direito (ainda que póstumo) dos grandes, e a perdição dos pequenos. Cavalo de Troia, e cavalo alado; vulgarmente democrático, e profundamente aristocrático.

Ai, quantos pequenos ainda serão caçados, seduzidos, inchados, golpeados, derrotados e varridos pelo sucesso! Se ele jamais teve pena de enlouquecer e destruir centenas e centenas de mestres e gênios vaidosos, por que hesitaria em condenar milhares de ínferos e medianos? E que assim seja! Pois a Terra se torna mais limpa cada vez que um medíocre é erguido e carregado pelas multidões!

Ilustração: Casey Chin

Site pessoal: www.wagneruarpeik.com [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo