A mão escreve

Por Marina Colasanti ‏
ESTADO DE MINHAS

Ao meu lado, no auditório de uma conferência, ela fazia anotações. Olhando de esguelha, cobicei fundamente o traço firme, escuro sem ser preto, macio sem ser felpudo, que a lapiseira traçava no papel. Que lapiseira é essa que você está usando?, perguntei, baixinho, para não perturbar o conferencista. Ela disse o nome, exultei, a mesma que eu já tinha. Que grafite?, perguntei ainda. B2, respondeu ela, e acrescentou: 05. Tinha que ser! Deus estava em um dos seus momentos mais felizes quando inventou o B2, que na espessura 05 alcança a perfeição em escrita a lápis.

Quem ainda escreve a mão sabe, é um pleno prazer. Uma forma de desenho, a mais eloquente. E funcional. Como no computador, pode-se regular, apertar um tantinho mais as letras para não passar do fim da linha, ou abrir os espaços para completá-la harmoniosamente. Se for a lápis, permite apagar, acrescentando ao prazer da escrita a mágica da borracha, traço transformado em mínimas minhocas que a gente sopra recuperando o espaço limpo.

Em recente e desastrada viagem de avião, cheia de atrasos e voos cancelados, fiquei retida por quatro horas em um aeroporto intermediário. Não estava só. Outra vítima sofria o mesmo castigo. O jeito era sentar em um bar, tomar café e conversar. Assim, fiquei sabendo que minha companheira de infortúnio era grafóloga. Vinha justamente de uma viagem profissional, oficinas de grafologia, supervisão. E aprendi que para um grafólogo, a maior fonte de trabalho está no Judiciário, análises de manuscritos podem mudar o curso de um processo. Receio tê-la bombardeado de perguntas, mas a visão da caligrafia quase como segunda impressão digital era por demais fascinante. Acabamos combinando que lhe mandaria uma carta manuscrita, e ela faria a análise.

Mas essa impressão digital única e preciosa está sendo paulatinamente jogada fora. Na mesma medida em que teclados de todos os tipos vão tomando o lugar do papel e se aprimora nossa rapidez de digitadores, deixamos para trás a escrita cursiva. Vivesse hoje, o estudante Anselmo, do conto de Hoffmann “O vaso de ouro”, que tanto se orgulhava dos seus lápis, das suas impecáveis penas de corvo a serem mergulhadas no nanquim, dos seus trabalhos caligráficos, teria que pedir esmola em porta de igreja para sobreviver.

Não raro, pessoas me dizem que já não escrevem a mão. Pior, que não sabem mais fazê-lo, que a escrita sai troncha e lenta, a mão enferrujou. Ao dizer isso, invariavelmente, olham para a mão como se a culpa fosse dela ou como se a estranhassem.

Em meus tempos de estudante, quando a faculdade de belas-artes ainda era no Centro do Rio de Janeiro, havia ali perto uma loja onde se consertavam canetas. Velhas e novas, de todos os tipos, acumulavam-se na vitrine estreita, e infinitas vezes parei desejosa para olhar. Muito antes disso, quando menina em colégio de freiras, comprava canetas Esterbuck de ponta cada vez mais fina, que lixava para obter uma letra minúscula, talvez no intuito inconsciente de cegar a professora.

A escrita jogada fora leva consigo parte das lembranças de escrita. Mas nem tudo está perdido. Escrevendo no caderninho para vencer a espera em um consultório, vi o olhar de esguelha da moça ao meu lado, e logo ela se inclinou para me perguntar: “Que lapiseira é essa?”.

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