A marvada pinga II: Dalva

Amigos:

Acompanhei alguns episódios do seriado “Dalva e Herivelto”. A cantora-tema é muito boa, sim (consta que Villa-Lobos considerava seus agudos perfeitos, usava suas gravações em aulas). O compositor coadjuvante fez alguns canções bonitas – não chega a ser um Wilson Batista.

Reprisando as soluções narrativas de “Maysa”, o seriado mais recente se concentra em bebedeiras e amores fracassados. Melodramão – o que, em si, não significa narração ruim. Mas esse seriado deixou muito a desejar.
O elenco contribuía para isso – embora a dupla central costume ser ainda pior em novelas. O roteiro chegava a boas situações e as abandonava imediatamente: os filhos do casal (Peri e Ubiratan), crianças, recusando-se a cumprimentar David Nasser (jornalista que coadjuvou Herivelto em artigos violentos contra a ex-mulher), poderiam render muito e não rendem porque a cena se encerra às pressas. As colegas de rádio de Dalva, dando-lhe apoio nas dores de amores, também são figuras muito interessantes mas extremamente superficializadas – sugiro a leitura do livro “Cantores do rádio – A trajetória de Nora Ney e Jorge Goulart”, de Alcir Lenharo, que, através de História Oral, evidencia como aquelas mulheres e seus colegas homens falavam de experiências pessoais em canções e atingiam um público com experiências similares.

A decisão de manter a voz de Dalva cantando foi excelente – como substituir uma bela voz conhecida? Em compensação, alguns atores e atrizes razoáveis interpretaram Ataulfo Alves, Emilinha Borba, Linda Batista e Grande Otelo com sucesso no plano físico (gestual, postura, roupas) mas sem nenhum nível vocal sequer próximo.
Vantagem da ópera: o público mais novo ouve esse povo, talvez pela primeira vez na vida. Desvantagem da ópera: a memória reativada é de uma superficialidade embaraçosa. E o álcool aparece como vilão absoluto: como eu bebo muito pouco, sinto-me no direito de entender o alcoolismo daqueles artistas como parte integrante do processo criativo que viveram. Acontece nas melhores artes: Pollock, Faulkner…

Abraços:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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