A matemática da poesia

NOVO JORNAL

Nestes tempos da ilógica política, onde até poetas e intelectuais se voltam
para a lógica das urnas, vou remando contra a corrente e buscando na abstração
a racionalidade da poesia no seu confronto com a matemática. Ou mais
propriamente com a parte aritmética da linguagem.

Quando não expuser o nome do autor da citação, que esteja entre aspas,
sobre linguagem, o crédito é de Rosenstock-Huessy. Dele, logo de início, o aviso:
“A linguagem não é criada pelos pensadores ou poetas, mas pelas tragédias.
Políticas ou religiosas”. Até porque “a vida prefere o sofrimento à indiferença”.

Dele ainda a afi rmação corajosa de que a poesia é mais racional do que a
matemática. Olhe que ele não falou em exatidão, mas em racionalidade. E explica.
“Dois mais dois são quatro” é uma abstração, que se concretiza ao se imaginar
a materialidade das coisas somadas. Mas apenas o enunciado numérico
é tão somente um exercício de linguagem, que dá sentido à aritmética. No verso
“Canta, musa, a cólera de Aquiles, fi lho de Peleu”, há mais razão do que no
simples enunciado aritmético. Mesmo que não haja exatidão.

Para o silvícola, a aritmética resumia-se a “um”, “dois” e “muitos”. Falta de
matemática? Não. Falta de linguagem. Nos versos de Joaquim Cardozo, “Na
várzea extensa do Capibaribe, em pleno mês de Agosto/ Reuniam-se, em Congresso/
Todos os ventos do Mundo” / há poesia e matemática de sobra. Não sobra
de excesso, mas de abundância.

“A biologia só será a ciência da vida no dia em que a morte for completamente
compreendida. Nesse sentido, só teremos uma ciência da linguagem
quando penetrarmos no inferno da não-linguagem”.

Em meados de 1948, houve uma grande movimentação populista em Bogotá.
Numa noite de agitação, foi assassinado Jorge Eliecer Gaitán, líder da “revolução
colombiana”. Os revoltosos perseguidos se homiziaram na embaixada
da Guatemala, cujo embaixador era o poeta Luis Cardoza y Aragón.

Segundo Gabriel Garcia Marques, a Colômbia entrou no Século Vinte naquela
noite. E aproveita para divulgar uma máxima de Aragón, que dizia: “A poesia
é a única prova concreta da existência do homem”.

Pus esse verso numa placa que ainda deve estar na Praça da Poesia, por
trás do Palácio da Cultura, que inventei por sugestão de Dunga, pintor e poeta
do Beco da Lama.

Um poema mal feito é igual a uma conta errada, na aritmética. Nos dois casos
a culpa não é da poesia nem da matemática. Mas de quem fez a conta ou
compôs o poema ruim. Para ambos, Einstein estirou a língua.

O resultado de que a existência do homem não se prova pela guerra ou política;
não se prova pela exploração, vaidade ou soberba; nem pela inteligência
ou descoberta científi ca; é o norte da citação aragoniana.

“A palavra Deus não signifi ca aquele que cria, mas aquele que fala”. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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