A minha Joana

A minha Joana era feita de melancolia. Asas não tinha. Quando cantava, fazia questão de não ouvir que cantava, porque era dos que guardam a esquisitice de se apavorar com a própria alegria.

A minha Joana era bela, a seu modo gordo de escavar baús, de se espichar na cadeira de palhinha e deixar a criançada se espichar no seu gordo corpo. A minha Joana me dizia que saudade não é substantivo, que saudadear é um verbo anômalo, sem desinências, nem desistências, que só em português se conjuga. O meu medo de ter saudades dela era imenso, eu pensava não saber conjugar. Depois de tanto amedrontar-me com a saudade anunciada, eu soube que saudade não se premedita, não é sofrer sabendo a dor, saudades são repentes, rompantes com gosto de pão-de-ló e cheiro de café no meio da tarde. Saudade é coisa crocante, como pão francês derretendo manteiga.

Numa tarde molhada, ela me deu o arco-íris como quem entrega uma pátria e um caminho. E era. A pátria dos meus olhares encantados e o caminho dos sonhos então inúmeros. A minha Joana era sacerdotisa de Ceres, a deusa grega da semeadura e da colheita, e era também seguidora de Hermes, o deus dos mistérios. Mas se dizia e se pensava cristã. Temente a Deus e a Cristo (eu temente a ela), me ensinou, no entanto, a adorar todos os livros: “nossas estantes são altares”.

“A carne é triste” e nossas estantes são altares. A minha Joana preparou a dádiva de sua ausência longa e vaga, foi delicada sua forma de morrer. Não, que digo? Toda morte é brutal, por mais mansa e vagarosa que venha. Toda morte é lâmina, silício. Mas ela ensinou-me a entender distâncias inesperadas, a perceber a valentia silenciosa que há em partir ou deixar partir. Com ela aprendi que perdão não é coisa de oferecer, mas de entregar sem perguntas e tem de ser ácido o bastante para dissolver o visgo da mágoa. Não sei se consegui perdoá-la por ter morrido. Meu aprendizado é lento, não sei se finda. Mas não é por isso que preservo a memória da amada. Ela ainda vive em mim, porque substância não se acaba: tende a ser onda e duração.

A minha Joana escondia suas dores no silêncio da noite pelada, dos longos corredores, do aposento íntimo. Ela não queria deixar as dores como herança, mas dor não se doma. Os que adiam a verdade estacamos ao seu redor, ela já escurecida. E a minha insônia dela arde tanto que talvez eu nem morra.

Talvez eu não morra. A morte não existe na insônia, a morte não tem lugar. Nossas estantes são altares aos pés dos quais nos ajoelhamos nas horas altas, quando o deus voador, “sonso e ladrão”, nos restitui à rota dos instintos. Quando ele nos mostra palimpsestos, pergaminhos. O deus ou ela? Nessas horas de silêncio, a minha Joana desmembra estrelas, doma agouros, como a mãe fazia nos antes. Na insônia, a minha Joana dita versos, impõe o vício em palavras, esses mistérios sumarentos que escorregam da boca, das mãos, da pele.

Dos versos que escrevi para a minha Joana, escorregou esta prosa vagarosa e, por mais palavras que contenha, calada.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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