A miséria do noticiário e da política

Próspero Fortunato – jornalista, eleitor sem partido e leitor com muitas horas ociosas

É por razões orgânicas de servilismo – estabelecidas por dependências financeiras – e desvios de conduta – por falta de seriedade profissional e/ou desejo de proximidade com o poder ou da perspectiva deste – que a imprensa potiguar tem destacado as indefinições no quadro político-partidário para as eleições deste ano ao governo e ao Senado. Os prazos legais para a desincompatibilização de cargos públicos (abril), oficialização dos candidatos (junho) e início das campanhas (julho) ainda correm e oferecem tempo hábil para todas as providências. Conversas e acordos neste período deveriam ser previsíveis, acompanhados e noticiados, mas a relevância, para justificar manchetes, estaria nos acertos finais e nas datas do calendário eleitoral.

Contaminado no vício das razões citadas, o noticiário sobre as eleições – o mesmo ocorre na cobertura do dia-a-dia dos governos e parlamentos – acaba por não contribuir para a formação de uma consciência política na sociedade e a autonomia do cidadão/eleitor frente as estruturas arcaicas de poder e representação existentes. Também não alerta, denuncia ou influi para mudar, antes alimenta e mantêm, as características mais deploráveis do sistema: a personalização dos partidos, a ausência de identificações político-ideológicas e a falta de debate sobre programas e propostas partidárias, seja em cargos executivos, seja para funções legislativas.

É nesta relação de causas e efeitos que também residem a falta de objetividade e a fatuidade das análises e reportagens apresentadas ao leitor/eleitor/cidadão. Perde-se espaço em páginas impressas, no rádio e na tv discutindo-se se o líder A vai deixar o Congresso para tentar o Executivo e se B vai disputar o Governo ou o Senado e, a partir das múltiplas possibilidades dessas escolhas, constroem-se cenários. São textos que só atendem a vaidade de quem os escreve, uma vez que inexistem fatos e decisões face aos prazos eleitorais em aberto; subjetivos, já que não levam em conta nem dissecam para entendimento do público as bases do poder que definem os resultados do jogo político-eleitoral.

Essas bases, válidas para todo o sistema eleitoral brasileiro, a meu ver são três: a “persona pública” dos líderes, a extensão/eficiência das estruturas partidárias, o acesso às fontes externas de financiamento de campanha. A construção e até mesmo a existência de cada uma delas independe das outras, mas isoladamente nenhuma tem como se mostrar plenamente construtiva e só adquirem eficiência eleitoral se acionadas em conjunto e administradas segundo um modelo de interdependência que se auto alimenta.

A “persona pública” dos líderes é construída, inicialmente, pelo desempenho pessoal, mas depois garantida pela densidade eleitoral que adquire e mantida por ações do marketing. Ela determina o nível de controle que esse ou aquele líder exerce sobre as máquinas partidárias, por sua vez originadas em parte da história do partido e dos níveis de organização interna, mas, sobretudo, do uso combinado das diversas estruturas de poder político, social e econômico a nível local, regional e nacional. A persona do líder e a máquina partidária pouco tem a ver com a existência das fontes externas de financiamento, mas são determinantes no grau de acesso aos recursos.

O líder A pode ter, portanto, tanto o controle de um partido amplo e poderoso quanto facilidade de acesso ao dinheiro necessário para uma campanha milionária, e ser prejudicado por problemas com sua imagem pública. Um outro, com a imagem positiva calcada em um histórico de eficiência passada, pode se ver às voltas com uma estrutura partidária deficiente e limitações incontornáveis para obter o dinheiro que precisa. E é a combinação dos diversos conjuntos de bases do poder representadas pelos partidos – o que cada um pode dar/adquirir – que definirá as alianças eleitorais. O resto… é abobrinha!

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 22 de Fevereiro de 2014 15:17

    É só bla,bla,bla mesmo!

  2. Anchieta Rolim 22 de Fevereiro de 2014 21:19

    Quero deixar claro, que o comentário é dirigido unicamente ao noticiário e a política. O texto de Fortunato está muito bom.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP