A mitopoética de Bispo

Profeta, louco, iluminado, pugilista, marinheiro e artista. Arthur Bispo do Rosário foi muito além, navegou mares distantes, avançando ao ilimitado. Transformou seus delírios em arte, e a arte em vida

Ao ser questionado sobre suas raízes, família e cultura, Arthur Bispo do Rosário tinha por hábito responder: “Um dia eu simplesmente apareci no mundo”. Ele acreditava ser o filho de Deus, adotado pela Virgem Maria e “aparecido” no mundo em seus braços.

Muitas controvérsias giram em torno de suas origens, mas pouco importa isso. Entre uma massa de anônimos, Bispo foi o “escolhido”. “Um dia, designado ´rei dos reis´ por seres luminosos, ele teceria o próprio manto, vermelho, salpicado de bordados, se faria coroar e protagonizaria a própria via sacra”.

Inspirada pelo drama existencial desse homem ligado ao devaneio, ao sonho e ao numinoso, a professora doutora em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) Marta Dantas desenvolveu a tese de doutorado “Arthur Bispo do Rosário – A poética do delírio”. Recentemente transformada em livro e publicada pela editora Unesp.

A autora lança um olhar minucioso e sensível sobre a relação da arte com a loucura na produção de Bispo do Rosário. O que conduz à questão ainda mais complexa e inevitável da relação entre arte e vida.

Do mundo mítico e sagrado do artista, Dantas analisou os elementos que compõem a sua “poética do delírio”. E, assim, articulando conhecimentos das Ciências Humanas, Estética e História da Arte, a obra transcende convencionalismos, deixando de ser um simples registro biográfico.

Em busca das interpretações do imaginário coletivo, a pesquisadora trabalha justamente com o desvio da racionalidade artística e o entrelaçamento da obra com a vida. De acordo com ela, “muitas vezes, a experiência artística nasce da interrogação da vida pela perspectiva da morte. Para recuperar a história desse artista é preciso falar da morte, ou melhor, analisar a sua atitude perante a finitude da vida nos dará a dimensão da relação que sua obra tem com a vida, pois ela nada mais é do que a finitude desta se abrindo para a infinitude da arte”.

O profeta

Sergipano descendente de negros católicos, Arthur Bispo do Rosário cresceu num ambiente cercado por beatas, rituais, rosários, pecados e, sobretudo, pelo sentimento de culpa.

“Muitos anos mais tarde, ele se faria adotar por Maria, emagreceria em repetidos jejuns para virar santo, juraria que uma cruz lhe marcava as costas, confeccionaria um novo mundo para apresentar ao Todo-Poderoso na audiência final. Era essa a sua missão. A missão de Arthur. Arthur Jesus, assinaria ele em certas obras. O filho de Maria e de Blandina Francisca de Jesus”, explica a historiadora.

Aos 29 anos, Bispo do Rosário caiu nos braços tortuosos da “esquizofrenia-paranóide”. Nesse momento, “sete anjos lhe anunciaram que havia sido escolhido por Deus para julgar os bons e os maus e para recriar o mundo para o Dia do Juízo Final”. Sua vida mudou… Desligou-se dessa realidade.

Em meio a alucinações e internamentos em instituições psiquiátricas, como a Colônia Juliano Moreira, no bairro carioca de Jacarepaguá, o artista, que se dizia guiado por “vozes sagradas”, mergulhou num trabalho de criação que só teve fim com a sua morte, em 1989.

Num conjunto de mais 800 peças, composto por objetos como miniaturas, escritos, vestimentas, bordados e seu principal trabalho, o “Manto da apresentação”, Bispo jorrava criatividade em estado puro, sem nenhuma sistematização ou disciplina. Como registra o crítico de arte Ivo Mesquita: “Ele, no interior de sua cela, desfiava seus uniformes de interno para obter fios azuis desbotados com os quais bordava sua cartografia, mumificava os objetos do seu cotidiano. O artista desnuda-se, despoja-se para dar existência à obra, assinalando a transitoriedade do corpo em oposição à permanência do trabalho”.

Bispo chamava a atenção dos “homens de capa branca” (apelido referido aos médicos), não só pela singularidade de sua poética, mas também pela profundidade e sabedoria de algumas de suas reflexões. Das mais emblemáticas, destaca-se o pensamento do artista sobre o que é ser louco: “Os loucos são como beija-flores: nunca pousam, ficam a dois metros do chão”.

Segundo Marta Dantas, Bispo não desenhou, não pintou e nem esculpiu. Ou seja, não se debruçou sobre nenhuma das atividades expressivas das artes plásticas, mas bordou, costurou, pregou, colou, talhou ou simplesmente compôs através de objetos já prontos. Descobria beleza naquilo onde, aparentemente, não existia.

“Transfigurar a dor em arte, criar o mundo conforme seu desejo, significou, para Bispo, a criação de uma nova interpretação da ´realidade´, a transformação de si mesmo em ´homus religiosus´ e trágico e, ainda, a fundação de uma moradia sagrada, porque não é possível criar um novo universo senão partindo de um ponto fixo, do mundo profano. Por isso, ele fez dos lugares onde morou (quartos, sótão, celas) templos nos quais, longe dos olhares curiosos e profanos, se escondiam os mistérios de um outro mundo em formação”, finaliza.

ARTE
Arthur Bispo do Rosário – A poética do delírio Marta Dantas
Editora Unesp
2009
224 pág.
R$48

ANA CECÍLIA SOARES
REPÓRTER, Diário do Nordeste

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Jarbas Martins 17 de Junho de 2010 16:29

    Oportuna, Nina, tua incursão pelo universo do artista Arthur Bispo do Rosário, e também, de muíssima utilidade, a referência ao livro de Marta Dantas, “A poética do delírio”. Venho, há algum tempo, pesquisando a poesia do Rio Grande do Norte e, não raramente , tenho me deparado com alusões a poetas “doidos”, “portadores de patologias” ou catalogados com classificações outras.Não há um estudo mais aprofundado sobre o assunto.As referências, feitas pelos nossos pesquisadores, não vão além do pitoresco e da mera curiosidade.A propósito, tive conhecimento, através de uma velha crônica de Jaime Hipólito Dantas, de um poeta que se autodenominava O Rei de Tibau. Vestia-se exoticamente e usava colares e anéis que ele próprio fabricava. Escrevia versos, marcados pelo delírio e pelo arrevesamento da linguagem. Jaime Hipólito era escritor e jornalista, nasceu no seridó mas se considerava mossoroense.Conversávamos muito sobre literatura, quando vez ou outra passava no antigo Café São Luiz. Nunca falei com ele sobre O Rei de Tibau, porque desconhecia o artigo, ou crônica, a que me referi.Mas tenho intenção de pesquisar, a fundo, esse riquíssimo veio que é a poética delirante dos nossos artistas e vates seretanejos. Beijos.

  2. Thomas 15 de Fevereiro de 2011 16:42

    Quanta bobagem, meu Deus, pra que que existe crítico de arte. Qualquer um que já viu a obra do Bispo sabe que ela está trilhões de quilómetros acima do que capacidade destas criaturas em explicá-la, classificá-la nas suas “categorias” ou ainda pior em interpretá-la “poeticamente”. Veja por exemplo “O artista desnuda-se, despoja-se para dar existência à obra, assinalando a transitoriedade do corpo em oposição à permanência do trabalho”. Tá confundindo burocracia com arte.

  3. Paulo Nouah 14 de Abril de 2011 14:22

    Comcordo com você, Thomas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP