A morte de vovó no shopping (d’aprés Jairo)

Fui levar doces para minha avó diabética. Ela marcou encontro num shopping qualquer (todos são tão iguais). Escolhi bombons com recheio de licor – aceleram o metabolismo rumo ao ponto zero. Vesti vermelho e a roupa incluía um surpreendente capuz – no calor, esquenta mais. O decote generoso fazia um belo contraste entre castidade infanto-juvenil e desafio da maturidade muito experiente. Vovó era liberada em relação a esses assuntos, falou-me que nos anos 60 já se transava com qualquer namorado que valesse a pena e sugerisse futuro casamento classe média. O tema era mantido em segredo na família, todavia. Vovó lia Wittgenstein em alemão sem conhecer essa língua. Mostrou-me a língua, fiquei fascinada com as ressonâncias poéticas de Heine mas ela me indicou como leitura mais profunda Schlegel. Declamei Othoniel Menezes e ela nada comentou. Citou a canção “Menina fricote”: “e diz que despreza / quem só fala o português”. Lembrei de Álvaro de Campos, ela fez cara de tédio. Comentei o último livro de Chico Buarque. Ela falou que não mais tinha paciência para impressos e que aquele autor lhe lembrava vagamente um passado de há muito apagado – lembrava o nada. Mencionei a recente homenagem a Oswald de Andrade na FLIP. Vovó respondeu que o melhor desse autor era o suicídio triunfal – diabético comendo uma lata inteira de marmelada. Associou o doce ao sistema literário brasileiro mas fingi não entender a ironia. Também senti um calafrio pelo sentido premonitório desse comentário sobre Oswald – a marmelada de vovó estava em minha cesta de piquenique. Sentamos numa casa de chá (contraste intencional com o calor ambiente que o ar condicionado amainava), bebemos licores e comemos os bombons. Vovó se despediu carinhosamente e não morreu. Ou morreu e continuou andando e falando.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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