A morte desconhecida

Por Janio de Freitas
FSP

O pudor das autoridades americanas e europeias exige investigações para saber como Gaddafi morreu

O PUDOR dos caçadores está ferido. Não foi para Gaddafi morrer sem julgamento que se fizeram 10 mil voos de bombardeio à Líbia, número proveniente dos próprios caçadores. O pudor das autoridades americanas e europeias exige investigações para saber-se “em que condições Muanmar Gaddafi morreu”. E a ONU, sempre obediente, já está pronta para a tarefa. É verdade que há solução mais simples: perguntar a um de nós, talvez bilhões, espectadores dos vídeos de Gaddafi nos minutos finais de vida, ereto e andando, e logo sob o massacre comum a cães de rua danados, aos quais de fato tanto se assemelhou.

Mas, se resolvida a questão com tamanha simplicidade, fere-se, mais do que ao pudor dos grandes americanos e europeus, a hipocrisia que é elemento essencial do seu poder. E, portanto, de quem o exerce.

A propósito das condições da morte, aliás, a hipótese com que a esperteza americana embaraçou os franceses recorre a um comprovante completo da hipocrisia. Diz, sem cerimônia: “é preciso saber se Gaddafi morreu dos ferimentos causados pelo bombardeio de um caça francês ou se foi assassinado”.

Era um numeroso comboio de automóveis civis. A presença de Gaddafi ali foi mero acaso. O que se vê atestado no vídeo, feito pelo caça francês e distribuído pelas autoridades francesas, é o ataque a carros que poderiam estar, como se tornou comum, levando famílias em fuga da zona de combates. Em 10 mil voos de ataque, por certo não foi a primeira indiferença. Sob a resolução da ONU para voos de estrita defesa de população civil em perigo.

Pois então, aguardemos as investigações para saber, como já sabemos e vimos, se foi ataque aéreo ou assassinato. Não fosse o domínio da hipocrisia, mais útil seria outra questão: se quem atira com uma pistola e mata alguém comete assassinato e é assassino, quem atira de um avião e mata alguém, não comete assassinato e é assassino?

ERA HORA

Ao acolher a denúncia contra o ministro Orlando Silva, a Procuradoria-Geral da República estendeu a investigação ao ex-ministro dos Esportes e governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz. Era uma providência necessária, mas sob pressão contrária do PT.

Já em sua primeira referência à investigação, o procurador-geral, Roberto Rangel, informou que os artifícios para desvio de verba distribuíram-se pelo país afora, não se limitaram ao denunciado em Brasília. Valeu por uma advertência: as ONGs sérias que se cuidem, porque o conceito desse gênero de organizações logo estará em risco muito agudo. Apesar de lamentável, já era tempo.

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