A mulher na ABL

Fico imensamente feliz com a eleição da escritora Ana Maria Machado (foto) para presidir a ABL. Essa casa já foi presidida por uma outra grande escritora. Uma das melhores do Brasil, Nélida Piñon. No centenário da ABL a escritora de origem galega proferiu um discurso que considero um primor. Um hino à nossa bela língua.

Discurso por Nélida Piñon

“Afinal, a língua é a alegria dos homens. Nela repousa a poesia do desejo, a melancolia dos gritos primevos, o advento das estações, a exaltação do fino mistério soprado, quem sabe, pelo próprio Deus.

Falar, escrever, pensar, alcançar as fendas onde a metáfora pousa solitária, circunscreve-nos ao picadeiro dos homens, ao galeão dos condenados, aos salões galardoados, às terras onde se trava a batalha do verbo e das exegeses.

Como filhos da pátria da língua, de um idioma composto com sobras latinas, gregas, asiáticas, africanas, uma mistura que por onde esteve semeou rastros míticos, pronunciamos suas palavras com unção e ira, captamos-lhe o cintilar de seu sensível timbre.

Esta língua portuguesa, de feição arqueológica, perambula agora pelo coração do Brasil. O corpo sagrado do seu enigma resguarda-se nos descampados e nos grotões, acata os presságios das bruxas, pede emprestado ao vizinho farinha e sentimentos íntimos.

Os inventos verbais desta língua, que peregrina pela península ibérica, pela África, pela Ásia, pela nossa América, trazem a chancela natural da transgressão. Arrasta consigo a luxúria mesmo quando confrontada com experiências radicais, místicas, vizinhas do abismo de Deus.

Feita também de suspiros africanos, chegou ela ao Brasil infiltrada pela nostalgia que nos induz a romper a cada dia o casulo do seu mistério, a perseguir suas contrafacções. É assim que ela converge, acumula, depura-se, exercita-se no gerúndio com a precípua função de ativar a realidade.

É dever desta língua repartir intrigas, predições, narrativas, o prólogo e o epílogo da vida, o vestíbulo das longas despedidas, entre as criaturas do sul, do litoral, do planalto, do sertão, os ribeirinhos. Os habitantes das geografias múltiplas e intransigentes. Todos eles premidos pela emboscada da fantasia e da emoção.

Vinda de tantos recantos do hemisfério, a língua aderiu por inteiro à fábula de uma nação. Esteve na amada Galícia, onde ali conheceu o irrenunciável sentimento oriundo do Finisterre, – a extremidade da Terra – cruzou o Minho, deixou o Tejo para trás, nos idos de março de 1500, estendeu suas ramas à África e Ásia, com o intuito de florescer, até ancorar afinal no outro lado do Atlântico.

No Brasil, soçobrando em meio aos vastos recursos do pensamento, esticou as cordas plangentes das palavras. Roçou enigmas, traduziu uma pátria composta de mel, leite, trigo, da inexcedível história humana.

Esta língua lusa é uma sombra desapiedada. Sob o teto da ilusão, o instinto do verbo arranca das gavetas os sentimentos resguardados entre os lençóis que rescendem a jasmim. Sobre cada vocábulo projetada a luz incisiva do inventário da arte.

Na morada desta língua, nada lhe sofreia o impacto. Seu mundo visionário, saturado pela desmedida paixão, rende-se à metáfora no esforço de revelar-lhe o fulcro onde reside a equação da poesia humana. De ritmo largo, este idioma implanta em nós os dilemas da condição humana, o destino dos homens. Não permite que nos exilemos do mundo.

Esta sensível e afortunada eloqüência auspicia à língua elucidar a emoção através de preciosa linguagem simbólica, que é assunto do berço, do território amoroso, da perdição alada do pensamento.”

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

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