A mulher no teatro grego

Por Christina Ramalho (UFS)

Ésquilo, Sófocles (foto), Eurípedes e Aristófanes, cada qual a seu modo, deram grande destaque a personagens femininas em suas obras dramáticas — trágicas e cômicas —, ora consagrando determinadas imagens míticas culturalmente presentes no mundo grego, ora tomando as mulheres em sua dimensão humana e social. Considerando as conhecidas injunções que negavam às mulheres, com raras exceções, uma cidadania, faz-se interessante observar que, ao menos no plano da criação literária, suas vozes ganhavam espaço e, consciente ou inconscientemente (por parte dos autores), acabavam trazendo à superfície desse mesmo mundo, já tão patriarcal, a condição humano-existencial e os pontos de vista das mulheres acerca de temas tais como, por exemplo, o amor, o ciúme, a família, a castidade, a vingança, a política e a religião.

Fontes históricas de diferentes autores e épocas revelam que as transformações por que passou a cultura grega envolvem, quando a questão gira em torno da inserção das mulheres no universo social, uma paulatina perda de liberdade e participação dessas tanto no chamado espaço cívico quanto no habitado. O primeiro, diretamente ligado a polis já era extremamente restrito em relação às mulheres ainda na chamada fase ou época heróica. No entanto, a observação das obras homéricas, por exemplo, é bastante reveladora nesse aspecto, pois mostra alguns privilégios que possuíam mulheres situadas em um patamar hierárquico mais elevado. Claudio Mello e Souza, no livro Helena de Tróia, discute a questão, assinalando que além de ser a beleza a virtude máxima de uma mulher, também a realeza podia lhe conferir um relativo acesso a discussões de ordem política.

Também Werner Jaeger, em Paidéia, citando os exemplos de Helena, Penélope, Euricléia e Arete, dá destaque à respeitabilidade que se costuma atribuir às mulheres gregas que integravam a aristocracia. Mesmo Helena, pivô de conflitos violentos, manteve-se quase intocada, protegida tanto por sua grande virtude, a beleza extrema, como por suas habilidades como anfitriã, artesã e contadora de histórias.

Considerando que, apesar de escreverem já do alto do período ático da cultura grega, Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e Aristófanes contemplavam, em suas obras, passagens relacionadas ao período heróico, é de se supor que a forma de abordar os eventos sofresse a contaminação do pensamento ou da visão de mundo de cada um deles, dado o grande distanciamento entre os conteúdos enfocados e o lugar da fala. Somado a isso, o fato de a opressão às mulheres ter se ampliado com o encaminhamento do pensamento grego para o campo da política e da filosofia, um confronto entre informações de ordem histórica, mítica e cultural e os textos literários em questão permite observar variações em torno dos temas destacados e, mais ainda, diferentes concepções de imagens míticas femininas tradicionais, principalmente as de Atena, Afrodite, Hera, Ártemis, Medéia, Antígona, Electra, Ifigênia, Clitemnestra, Cassandra, Jocasta e as Erínias, filhas de Nix.

Há, ainda que se relevarem as diferenças entre esses autores, decorrentes não só de uma concepção estética própria como das visões particulares de mundo e dos comprometimentos específicos de cada um com a sociedade grega. Se, por exemplo, em Ésquilo, destacam-se o enfoque religioso e a presença mais atuante dos deuses e das deusas, em Sófocles, um quarto de século mais novo que o primeiro, já aparece um maior desprendimento da tradição simbólica e igualmente maior comprometimento com a consciência da criação, daí o requinte de seus enredos e sua visão mais racional dos percursos equivocados que levavam o ser humano ao desfecho trágico, ocorrido, principalmente, em função da grande diferença entre os desígnios divinos e os desejos humanos. Eurípedes, por sua vez, mais jovem que Sófocles, impregnou suas obras de uma visão crítica sobre a sociedade de sua própria época, dando relevância a aspectos humanos e aplicando, aos acontecimentos em questão, idéias provenientes de seu vínculo com o sofismo e de sua própria (e malfadada) experiência com a sociedade ateniense. Em suas obras, a participação dos deuses no universo humano torna-se alegórica, o que retrata o distanciamento do gregos de seu tempo da visão mítica de mundo em prol da supremacia do logos. Já Aristófanes, contemporâneo de Eurípedes e crítico ferrenho do mesmo, transportará para suas comédias experiências humano-existenciais recheadas de passagens irônicas, eróticas e grotescas, por meio das quais se compõe um painel decadente da sociedade. Todavia, além das variantes que se recolhem das obras desses quatro autores, o que mais surpreende é a força simbólica que até hoje, mais de dois mil e quinhentos anos depois, continuam exercendo no imaginário cultural do Ocidente.

Comecemos, pois, este breve e despretensioso passeio pelo universo da dramaturgia grega pela citação de alguns trechos de obras que um olhar mais desatento sequer perceberia estarem inscritos em um contexto histórico milenarmente distante de nós. A partir deles, sem entrar na questão das diferenças conceituais e estéticas entre os autores, contemplemos o modo como a fala concedida às mulheres permite delinear o quanto as mesmas, na visão dos autores, pareciam conscientes do sistema social opressor ao qual estavam submetidas.

Clitemnestra, amplamente condenada (por todos os trágicos) pelo adultério e pelo espírito vingativo que a levou a tramar a morte do marido Agamêmnon, revela-se, na obra de Ésquilo, uma hipócrita, que fala usando a máscara da mulher obediente aos padrões comportamentais esperados. Ainda que hipócrita, recolhe-se de sua fala as expectativas da sociedade grega em relação à função das mulheres de se manterem submissas e fiéis aos maridos. Clitemnestra compara a mulher ao cão:

Não há para a mulher satisfação maior

que a de mandar abrir as portas ao marido

salvo da morte pelos deuses nas batalhas.

“Retorne sem demora!” Nada mais desejo,

pois a cidade é dele e o quer de volta já.

Que venha ao lar e veja a companheira honesta

como a deixou, zelosa, igual a cão fiel,

maior amiga dele e inimiga máxima

dos que lhe querem mal, a mesma esposa em tudo,

durante tanto tempo guardiã atenta

de quantos bens ficaram sob seu cuidado.

Não conheci prazeres vindos de outros homens

e nada sei de intrigas e maledicência

(tais coisas para mim são totalmente estranhas).

(Clitemnestra dirigindo-se ao arauto, em Agamêmnon, de Ésquilo, p.39)

Já Ismene, irmã de Antígona, revela, em peça de Sófocles, a situação de fragilidade e total dependência em que se encontravam mulheres cujos “destinos” fossem tocados pela perda do referente masculino. Sem o pai e sem os irmãos, Ismene e Antígona estariam fadadas a cumprir os desígnios do poder, sem qualquer possibilidade de enfrentamento:

Agora que restamos eu e tu, sozinhas,

pensa na morte inda pior que nos aguarda

se contra a lei desacatarmos a vontade

do rei e sua força. E não nos esqueçamos

de que somos mulheres e, por conseguinte,

não poderemos enfrentar, só nós, os homens.

Enfim, somos mandadas por mais poderosos

e só nos resta obedecer a essas ordens

e até a outras inda mais desoladoras.

(Ismene, dirigindo-se à irmã Antígona, em Antígona, de Sófocles, p.203)

Também a bastarda Medéia, prestes a ser exilada do espaço urbano por decreto de um Creonte solidário a um Jasão agora interessado em arranjos nupciais mais convenientes à sua atuação na sociedade, compõe um retrato da condição da mulher, já imprimindo em sua fala o sentimento violento que se originava da opressão sofrida:

Vezes sem numero a mulher é temerosa,

covarde para a luta e fraca para as armas;

se, todavia, vê lesados os direitos

do leito conjugal, ela se torna, então,

de todas as criaturas a mais sanguinária!

(Medéia, dirigindo-se a Creonte, em Medéia, de Eurípedes, p.29)

Já em Aristófanes, dada a natureza do texto cômico — que mais se aproximava das experiências do cotidiano da população grega e que, segundo Weber Jaeger, em Padéia, revelava, mais do que qualquer outro gênero, a realidade das práticas sociais — o painel que se traça ganha contornos realistas tais que mal parece estar mais de dois mil e quinhentos anos distanciado de nós:

Mas queridinha, elas virão. Você sabe como é difícil para a mulher sair de casa. Uma deve ter estado muito ocupada com o marido; a outra teve de acordar a empregada; outra deve ter tido de fazer as crianças dormirem; outra teve de lavá-las; outra deve ter tido trabalho com o mingau…

(Cleonice, dirigindo-se a Lisístrata, em A greve de sexo, de Aristófanes, p.13)

Retomando as mesmas peças, consegue-se, entretanto, mais do que simples constatações da submissão das mulheres ao poder masculino e às injunções sociais. Voluntária ou involuntariamente, Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e Aristófanes concederam às mulheres espaço para expressarem seus desejos de reação e de transformação social, além de um conceito diverso de justiça e de moral. Clitemnestra, por exemplo, mostra-se inconformada com o diferente tratamento que ela e Agamêmnon recebem:

Agora condenam-me ao amargo exílio,

ao ódio da cidade, à maldição do povo,

mas contra este homem nada foi falado.

No entanto ele, se escrúpulos, sem dó,

indiferentemente, como se lidasse

com algum irracional (e havia numerosos

em seus velosos, cuidadíssimos rebanhos),

sacrificou a sua própria filha – e minha -,

a mais querida que saiu deste meu ventre,

apenas para bajular os ventos trácios!

Não era esse pai cruel quem merecia

ter sido desterrado, expulso deste solo

em retribuição ao crime inominável?

(Clitemnestra dirigindo-se ao coro, em Agamêmnon, de Ésquilo, p.79)

Medéia, igualmente revoltada com a própria situação, amplia essa insatisfação refletindo sobre a condição das mulheres no seio de uma cultura arraigada em uma visão de mundo distorcida, que privilegia os feitos bélicos masculinos sem considerar heróicos os enfrentamentos das mulheres em relação a realidades tais como a solidão, o aprisionamento e a “obrigação” de parir:

…/ Quando um marido

se cansa da vida do lar, ele se afasta

para esquecer o tédio de seu coração

e busca amigos ou alguém de sua idade;

nós, todavia, é numa criatura só

que temos de fixar os olhos. Inda dizem

que a casa é nossa vida, livre de perigos,

enquanto eles guerreiam. Tola afirmação!

Melhor seria estar três vezes em combates,

com escudo e tudo, que parir de uma só vez!

(Medéia, dirigindo-se ao coro, em Medéia, de Eurípedes, p.28)

Também Antígona realiza sua transgressão, sobrepondo os valores religiosos às injunções sociais. A crença na necessidade de se cumprirem os rituais fúnebres dá-lhe forças para enfrentar o poder real de Creonte, uma vez que ela considera a punição dos homens preferível à punição dos deuses.

Mas Zeus não foi o arauto delas para mim,

nem essas leis são as ditadas entre os homens

pela Justiça, companheira de morada

dos deuses infernais; e não me pareceu

que tuas determinações tivessem força

para impor aos mortais até a obrigação

de transgredir normas divinas, não escritas,

inevitáveis; não é de hoje, não é de ontem,

é desde os tempos mais remotos que elas vigem,

sem que ninguém possa dizer quando surgiram.

E não seria por temer homem algum,

nem o mais arrogante, que me arriscaria

a ser punida pelos deuses por violá-las.

(Antígona, dirigindo-se a Creonte, em Antígona, de Sófocles, p.219)

A fala de Lisístrata, em A greve de sexo, — e aqui relembro a natureza do texto cômico — permitirá uma incursão ainda mais ousada das mulheres na desconstrução do modelo patriarcal de sociedade. O poder sexual da mulher, elevado a um patamar extremo, faz-se o necessário instrumento para a realização do feito transgressor que, segundo a heroína, refletirá na própria pátria. Aristófanes compõe, assim, um painel utópico, no qual as mulheres regem uma sociedade pacifista:

Fique certa de que o destino do país está em nossas mãos. Se falharmos, a pátria estará perdida, será destruída por tantas lutas fratricidas. Mas se nós, as mulheres, nos unirmos, as mulheres de todos os rincões da Grécia, o país estará salvo.

(Lisístrata, dirigindo-se a Cleonice, em A greve de sexo, de Aristófanes, p.15)

Todas as citações acima têm a função meramente ilustrativa de provocar uma reflexão acerca da possibilidade de se extrair de obras milenares a força de depoimentos que justificam o reconhecimento de um ancestral “mal estar” reconhecível nas mulher que estiveram presentes na origem das sociedades patriarcais.

Imaginando as condições de recepção dessas obras no seio da cultura ática, pode-se, sem muita necessidade de abstração, compreender, por exemplo, que Clitemnestra e Medéia constituíram exemplos contundentes do “descalabro” de mulheres movidas pelo sensível e orientadas pelo espaço habitado, ou seja, mulheres que se norteavam pelos sentimentos e pela relevância das questões familiares em detrimento dos valores coletivos, tal como propunha Platão, em sua República. Olga Rinne, em Medéia. O direito à ira e ao ciúme bem retrata o valor simbólico de Medéia como aquela que, representando os últimos resquícios da tradição matriarcal (a imagem mítica de Medéia está vinculada ao universo da cura e da feitiçaria), será execrada pela sociedade não só pelo assassinato dos próprios filhos (versão mais corrente na cultura grega e ocidental, embora também existam outras em que é a comunidade coríntia e não Medéia que mata as crianças) e da carnificina cometida em Corinto, mas por não ter aceitado os argumentos racionais e indiferentes de Jasão quando este justifica a necessidade social de se casar com a filha de Creonte, uma vez que a família formada com Medéia estaria inexoravelmente marcada pela natureza bárbara da esposa e impediria a participação mais efetiva de Jasão e de seus filhos na polis. Clitemnestra, por outro lado, ganha uma adversária politicamente correta, sua filha Electra, uma vez que o que moveu a filha em direção ao assassinato da mãe foi o culto à imagem patriarcal e aos valores sociais e políticos que orientavam o mundo grego. Clitemnestra, nesse ângulo, é a vilã, a mulher destemperada, politicamente incorreta e, portanto, negativa para o equilíbrio das práticas sociais. Já Antígona pode ser recebida como heroína, porque suas ações não violentam o patricarcalismo e a polis propriamente ditas, mas apenas as injunções ditadas pelo mundo humano em detrimento dos valores apregoados pela religiosidade. Logo, a fidelidade ao pai e ao irmão, mais que apego sentimentalóide ao amor, é índice da retidão religiosa da moça que, por isso, poderia ser recebida como uma voz de reafirmação dos fundamentos religiosos que, aos poucos, foram suplantados pelos valores políticos e lógicos. Marta Robles, em Mulheres, mitos e deusas, reflete sobre o conflito criado pela obstinação de Antígona e de Creonte, cada qual movido por interesses de natureza diversa:

É a luta radical das forças ocultas da escuridão contra os poderes visíveis da claridade, e a prova de que, acima de qualquer tentativa de mudar rumo do destino por meio de uma força de vontade superior, irremediavelmente triunfará o poder dos deuses. (2006:132)

Antígona, portanto, não é a mulher que transgride o poder patriarcal da sociedade por uma motivação de ordem pessoal, mas aquela que se faz símbolo de um poder maior que começava a ser ignorado pelos homens. O destino trágico de Creonte e de sua família após o auto sacrifício de Antígona sela essa soberania dos deuses. Ainda, contudo, que as motivações de Antígona estivessem destituídas de caráter feminista, sua ousadia tornou-se igualmente simbólica do poder de resistência das mulheres quando motivadas por uma causa na qual severamente acreditam.

Resta imaginar quão risível terá sido a iniciativa das mulheres comandadas por Lisístrata de interferir na política grega, pregando maior espírito conciliador e fraterno entre os guerreiros que representavam cada uma das cidades gregas. O desfecho da peça, que minimiza a ideologia das mulheres ao recompor os pares (mulheres e maridos voltam “às boas” depois da greve) e ao revalorizar as práticas sexuais tradicionais, remete toda a situação para o plano do inusitado. Todavia, bem de acordo com a visão crítica de Aristófanes, fica o registro de uma ideologia pacifista como encaminhamento possível para os problemas políticos e sociais por que começava a passar a sociedade grega. Cabe ainda, contudo, uma observação importante: atenuando a credibilidade de suas personagens, Aristófanes compõe painéis que ridicularizam a visão de mundo das mulheres, ali estigmatizadas por sua futilidade e apego ao mundo material. Um exemplo disso está na passagem que contempla a presença de Lampito, uma espartana exuberante, no concílio das mulheres:

Entram LAMPITO, de Esparta, e duas moças, uma da Beócia e outra de Corinto

LISÍSTRATA

Aliás, Lampito está chegando! Muito bem, minha querida espartana! Salve! Você está linda, minha doçura! Que carnação bonita! Que corpo vigoroso! Você seria capaz de estrangular um touro!

LAMPITO

É mesmo. Eu faço ginástica e dou meus pulinhos para ficar musculosa!

LISÍSTRATA

Apalpando o busto de LAMPITO.

Como é bom ter um busto assim rijo!

LAMPITO

Você está me apalpando como se quisesse me cortar em pedaços para vender a carne!

(diálogo entre Lisístrata e Lampito, em A greve do sexo, de Aristófanes, p.17)

Essa paradoxal variação entre preocupações pacifistas e outras, de natureza erótica e materialista, relativiza a credibilidade das mulheres, compondo o grotesco de uma situação fantasiosa. Contudo, como negar que a imagem de Lisístrata, apalpando Lampito e valorizando suas formas musculosas e trabalhadas pela ginástica, encontra, ainda hoje, uma correspondência visível com algumas práticas estéticas extremamente presentes em alguns segmentos?

Obviamente, dado o amplo universo de personagens femininas contempladas pelos dramaturgos gregos, Clitemnestra, Ismene, Antígona, Medéia, Lisístrata e Lampito são apenas parcos exemplos de toda uma compleição ideológica que amarra essas mulheres ao universo patriarcal grego e, por conseqüência, a toda a história posterior do patriarcalismo no ocidente. Da situação extremamente infeliz da personagem Cassandra, vítima dos desmandos de Apolo, da sociedade troiana e, em seguida, de Agamêmnon; da igualmente delicada posição de Ifigênia como mártir frente às imposições dos valores políticos sobre os valores afetivos e familiares; da passividade e do acuamento de Jocasta diante da inexorabilidade do destino; da agonia de uma Fedra tomada por um sentimento socialmente condenável que a leva ao suicídio; da angústia de Hécuba e de Andrômaca ante o destino trágico de seus familiares; da abnegação de Alceste para salvar o marido Admeto; do sofrimento agudo das mulheres que representam criadas, sempre diretamente envolvidas com os percalços de suas “senhoras”; ou das ousadias cômicas das mulheres retratadas por Aristófanes, entre outros, poderiam ser recolhidos não só os traços da ideologia patriarcal que o mundo grego nos deixou como herança, mas também indícios expressivos de que a tal “serenidade”, ironicamente cantada por Chico Buarque em “Mulheres de Atenas”

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas

Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas

As jovens viúvas marcadas

E as gestantes abandonadas

Não fazem cenas

Vestem-se de negro, se encolhem

Se conformam e se recolhem

Às suas novenas

Serenas

pode ser considerada muito mais um modo culturalmente condicionado e consagrado de representar o pensamento e o comportamento das mulheres gregas do que propriamente uma atribuição ou característica do feminino. Se a História perpetuou essa imagem de serenidade e submissão, a Literatura nos oferece diversos signos que, lidos nas entrelinhas, a partir de um olhar feminista, podem revelar que também na origem do patriarcalismo estavam o espírito transgressor e o “mal estar” que, embora lentamente, moveriam as mulheres em direção à superação de sua situação de oprimida. Pena que, em meio a todo esse processo lento de desconstrução do patriarcalismo, injunções outras, como a ditadura estética do corpo “sarado”, tenham se infiltrado no imaginário coletivo, minimizando, muitas vezes, as próprias conquistas das mulheres no espaço social.

Referências

ANDRADE, Marta Mega de. A vida comum (Espaço, cotidiano e cidade na Atenas Clássica). Rio de Janeiro: DP & A, 2002.

EURÍPEDES. Medéia, Hipólito, As troianas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

JAEGER, Werner. Paidéia. A formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

LESKY, Albin. A tragédia grega. São Paulo: Perspectiva, 2003.

PLATÃO. A república. São Paulo: Sapienza, 2005.

RINNE, Olga. Medéia. O direito à ira e ao ciúme. São Paulo: Cultrix, 1995.

ROBLES, Martha. Mulheres, mitos e deusas. O feminino através dos tempos. São Paulo: Aleph, 2006.

SOUZA, Cláudio Mello e. Helena de Tróia. O pape da mulher na Grécia de Homero. Rio de Janeiro: Lacerda Ed., 2001.

VERNANT, Jean-Pierre; VIDAL-NAQUET, Pierre. Mito e tragédia na Grécia antiga. São Paulo: Perspectiva, 2005.

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