A Natal de Joyce

para um louco amigo xico

Uma Natal épica. Natal da palestra daqui a cinquenta anos. Natal do poema- processo. Nostalgica. Saudades. Nosso Potengi é o Liffey. Nostros em qquer lugarmediterranicos. Também tem suas graças …. um certo charme na sua decadência. Decadente. Eternamente. Natal sofre com as atuais administrações e com as oligarquias. E são dos restos com que se faz a sopa de osso ou de pedra ( mon ami ). Outros disseram de uma terra desolada. O que Joyce escreveu sobre a Irlanda eu poderia transportar para Natal. Mas, eu não sou Leopold Bloom e mesmo assim comemoro o bloomsday. A Irlanda também é bebum e ruidosa. “Terra de uma raça esquecida por Deus e oprimida pelos padres … a raça mais atrasada da Europa”. Eu também poderia dizer isso de Natal, mas eu não sou Joyce. Prefiro andar por suas vielas e bares. Freqüentar o bar de Zé Reeira e tomar uma cerveja com Zizinho, Ronnie Von e Celina. Adentrar na garçonieri de Abimael e conversar sobre o próximo lançamento. Tomar cerveja em Maria Boa e lembrar de todos os porcos boêmios.

Aquela amiga que nunca gozou senão em Mary Good. Sim, eu digo sim. No restaurante tenho pavor daquela mulher que fala comendo. Com os amigos tenho uma grande discussão sobre Flaubert. Um grande escritor admirado por Joyce. Alguém que buscou a impessoalidade da literatura. Em Joyce, impossível separar a vida do opus. No cemitério do Alecrim entro no reino de lete e rezo um cantochão na igreja do Galo. Lanço as cartas do tarot e leio Blake e “ A Canção dos Loureiros” do Édouard Duajardin. Sigo o fluxo de consciência. Caminho por suas ruas e vielas esburacadas três bian aussi. Lembro da escola de pé no chão nas Rocas e da fábrica de pregos das Quintas onde fui menino.
Depois olhar o Potengi e namorar na pedra do Rosário. Em Ponta Negra bato uma brahma. Da boulevard Pe Pinto olho o rio que parece o Liffey. Molly Bllom nessa hora deve estar me traindo. Capitu also e Otelo coitado. São quatro horas e nessa hora alguém está sendo chifrado. Tudo que é proibido é bom. Clô telefona para falar de Shakespeare e de Hamlet, a Monalisa da literatura : Words, words, words….cama camisola ave Maria cheia de graxa. Levoz muito alta o Finnegans Wake. Literatura de notívagos e bruxos. Fim again Fim . Nunquam satis discitur. O eterno ciclo viquiano do movimento circular divino. Só com compaixão, humor e lirismo vamos conseguir sangrar os mares desse Potengi desmamado e poluído numa das esquinas do mundo onde meu amigo “foi feliz e se deu bem”. Parafraseando Stephen Dedalus no Retrato do Artista quando Jovem, de James Joyce, referindo-se á Irlanda, eu diria de Natal ( eu que já sou meã ): “ Natal é uma porca velha que devora suas crias”.

Elas são tudo isso e mais alguma coisa e nós, mais safados ainda, a amamos. Ab imo corde.

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Comentários

Há 6 comentários para esta postagem
  1. João da Mata 9 de junho de 2011 11:32

    Alice, Querida

    Voce chegou para ficar. Em pouco tempo ja conhece uma Natal que poucos conhecem, mesmo morando durante toda a vida. Voce tem a sede e a ganancia do pesquisador insaciável. Bjs minha amada AliceMollyBloom

  2. Alice N. 9 de junho de 2011 10:45

    Ótimo texto! Provinciana ou cosmopolita, Natal é mesmo de se amar!

  3. augusto lula 8 de junho de 2011 18:00

    Provinjoyceana Natal

  4. João da Mata 8 de junho de 2011 15:23

    Nota de roda pé:

    Édouard Dujardin ( 1861- 1949) , escritor frances simbolista autor de “Os Loureiros estão Cortados” ( Les Lauriers Sont Coupés )
    que influenciou James Joyce na técnica narrativa de introspecção conhecida como “fluxo de consciência”.

  5. Jota Mombaça 8 de junho de 2011 11:11

    Não a amo.

    Gosto deste texto.

  6. carlos de souza 8 de junho de 2011 8:44

    valeu, joão!!!!!

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