A negação da política em Tropa de Elite 2

Elogiável que o cinema brasileiro tenha alcançado uma qualidade técnica que não fica a dever em nada aos filmes de Hollywood. Notadamente, em filmes de ação, como fica patente em “Tropa de Elite 2, em cartaz na cidade. Bom também que aborde temas atuais e polêmicos, como a violência no Rio de Janeiro.

Como aconteceu em Tropa de Elite 1, nessa sequência também temos a visão de mundo do agora coronel Nascimento e, por extensão da polícia, sobre o mundo, especialmente, o combate à violência. Que, na minha opinião, é uma visão bastante disseminada na sociedade, algo como “bandido bom é bandido morto”. Daí para se chegar a pena de morte é um piscar de olhos.

Duas coisas me chamaram atenção no filme. A forma estigmatizada como os defensores dos direitos humanos, a esquerda e os maconheiros são tratados. São colocados no mesmo balaio pelo coronel, gente desmiolada, irresponsável, por aí.

Embora, no decorrer do filme, o representante dos direitos humanos, Fraga, depois eleito deputado, se torne um aliado do coronel na luta contra a corrupção que domina o aparelho policial, melhor dizendo, o “sistema”.

A outra coisa é a visão caústica da política. A política como fonte dos males que afligem o país. Nesse sentido, é eloquente o final do filme, quando o helicóptero usado para detonar a favela e os bandidos se dirige ameaçadoramente em direção ao Congresso Nacional. A intenção, implícita, não poderia ser mais clara.

Para o filme, os políticos estão na raiz da corrupção policial. É preciso, então, exterminá-los. A questão é: vamos colocar o quê no lugar deles. Um ditador? É provável que muitos saiam do filme achando que o Coronel Nascimento, utilizando-se dos métodos do Bope, resolveria os problemas do país se chegasse a presidente, de preferência, claro, sem Congresso aberto.

Mas a corrupção não está somente no Congresso. O aparelho policial é corrupto também. E o filme mostra isso. O que leva o coronel, já no final, a pedir o fim da polícia. Penso que seria mais sensato pedir também o extermínio de parte da população, de onde saem os políticos, os apresentadores de programas policiais na TV, os policiais etc. Ficariam vivos somente os incorruptíveis, os bons cidadãos. Como se chegaria a essa triagem somente o coronel pode nos responder. O que não faz.

Fiquei com a impressão de que o filme reforça certos estereótipos que vão ao encontro do que espera um público conservador, acrítico, bem capaz de sair do cinema achando que o fim da política e dos políticos vai nos proporcionar o Éden. Esses, devem esperar sentados. (TC)

PS.  Em posts mais antigos tem links para textos de Rodrigo Levino, André Forastieri e Inácio Araújo sobre o filme. Visões diferentes sobre uma mesma obra.

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