A neo-chanchada e o besteirol ululante

Cena de Cilada.com , com Bruno Mazzeo: Bom humorista, talentoso, mas que não se deu bem como diretor dessa mixórdia

Por André Setaro
NO TERRA MAGAZINE

1.) O cinema brasileiro, para tristeza de seus admiradores, fez surgir, nos últimos anos, a neo-chanchada ou, como assim chamo, a globochanchada, isto é: filmes com estética televisiva que se fazem passar por cinema, mas que de estética cinematográfica nada têm a ver. O crítico Inácio Araújo, em boa hora, e na sua pontualidade sintética, chamou tais filmes de portadores da poética da insignificância (copyright dele). É irritante ver tais filmes, atentados que são à inteligência dos cinéfilos (aqueles que a possuem). De pernas pro ar, de Roberto Santucci, com Ingrid Guimarães, é o exemplar mais notório da neo-chanchada que tanto agride o cinema nacional. Mas De pernas pro ar é apenas a ponta do iceberg como premonição de uma tragédia, de um filão que está a agir como uma maldita metástase no cinema brasileiro contemporâneo. Ponho logo na lixeira: O homem do futuro, de Cláudio Torres, Cilada.com, de Bruno Mazzeo (bom humorista, talentoso, mas que não se deu bem como diretor dessa mixórdia – não há outro termo), Qualquer gato vira-lata, de Tomás Portella, com Cléo Pires, Muito gelo e dois dedos d’água, de Daniel Filho, entre muitas outras.

2.) Se ficar, aqui, nesta coluna, a citar as mixórdias que estão sendo produzidas pelo cinema brasileiro, o espaço, ainda que virtual, se estenderia ad infinitum. Triste cinema brasileiro que tem em seu seio um filme como Muito gelo e dois dedos d’água. Daniel Filho dirigiu um filme até que razoável, Tempos de paz, mas quer que chegue aos cinemas sua estética de televisão. E o pior é que faz sucesso, pois conta com os atores globais do momento. Pior ainda: os bons filmes brasileiros não encontram guarida no mercado exibidor porque 99,9% dele se encontram em mãos das multinacionais. Há uma lei que estabelece que 11% dos lucros auferidos por estas empresas sejam aplicados no Brasil e elas investem em filmes, mas filmes que tenham previsibilidade e exequibilidade cinematográficas, isto é, que contem com elenco global, e tenham um argumento com ingredientes sexuais latentes. A Globo Filmes tem relações de poder com as multi e seus filmes são bem lançados nos grandes complexos. Cineastas sérios e bem articulados também conseguem a parceria com as multinacionais para que seus filmes sejam vistos. Vejam o caso de Carlos Diegues, Walter Salles, entre outros.

3.) O cinema baiano, já que moro em Salvador, por exemplo, é produzido, mas não exibido. Quando muito em sessões especiais para amigos do peito e nos eventos cinematográficos espalhados pelo país. A plateia do bom cinema brasileiro está nos festivais, uma corriola fixa, sempre as mesmas caras, sempre as mesmas conversas, as pessoas que os frequentam são, por assim dizer, mobílias de eventos. Pau Brasil, um filme baiano de Fernando Beléns, que conseguiu fazer seu primeiro longa depois de dobrar o cabo da boa esperança (50 anos), apesar de já concluído há dois anos, não tem esperança de ser lançado – nem sequer no circuito soteropolitano. O homem que não dormia, derradeiro longa do Cult Edgard Navarro, concorreu na mostra competitiva no Festival de Brasília na semana passada, mas como a coluna é escrita com antecedência, não sei ainda do resultado. Torço, claro, pela sua premiação. Um curta de Henrique Dantas, Ser tão cinzento, sobre Olney e seu trágico Manhã cinzenta, filme que ocasionou sua prisão e tortura durante a ditadura, foi bem elogiado em Brasília. Dantas é o diretor do aclamado Os filhos de João, que, ao contrário dos demais filmes baianos, está na décima semana em cartaz em Salvador, mas jogado, propositadamente, em sessões perdidas e sem um público mais intenso.

4.) Mas tiro da lixeira (e na lixeira, quando se a esvazia, tudo desaparece, como parece ser o destino dos filmes citados no primeiro ponto da coluna), Não se preocupe, nada vai dar certo, de Hugo Carvana, filme anacrônico, é verdade, não é bom, diga-se de passagem, mas tem bons momentos. Carvana já dirigiu bons filmes, a exemplo de Vai trabalhar, vagabundo, Apolônio Brasil, Bar Esperança, mas começou o declínio com A casa da mãe Joana. Acontece que Carvana tem um humor passadista que destoa do desumor contemporâneo e se sente uma certa simpatia pelo filme, assim como por Malu de bicicleta, de Flávio Tambellini. Não dá para colocá-los em meus favoritos, mas no arquivo, para, quem sabe? vê-los numa revisão mais oportuna.

5.) Que saudades das antigas chanchadas da Atlântida! Na época, as chanchadas eram simplesmente execradas pelos críticos. Ninguém dava valor a elas, mas o público as adorava. Lembro-me que para ver as chanchadas (sou desse tempo) tinha que chegar uma hora antes do horário marcado para entrar na fila de comprar o ingresso e depois ir para a fila de entregá-lo. Quando do lançamento de Marido de mulher boa, acho que de J. B. Tanko, com Zé Trindade (que era baiano), a fila de comprar se estendia do cinema Guarany, na Praça Castro Alves, até a Praça da Sé. Mas o melhor crítico é o tempo, pois se execradas em sua época, hoje as chanchadas são objetos de dissertações de mestrados e teses de doutoramento. Há um livro fundamental e referência principal sobre as chamadas chanchadas: Este mundo é um pandeiro, de Sérgio Augusto. Revendo muitas delas no Canal Brasil, constatei que tenho imenso prazer de assisti-las. Há algumas preciosidades como De vento em popa e O homem do sputnick, ambas de Carlos Manga, e comédias menos chanchadísticas mais curiosamente simpáticas e envolventes como Absolutamente certo, primeiro longa do consagrado Anselmo Duarte. Comparadas às atuais neo-chanchadas, a diferença é de água para o vinho. As neo-chanchadas refletem a demência cultural do homem contemporâneo e de uma sociedade em crise – direto ao solo!

6.) Há, no espaço virtual, boas revisas eletrônicas de cinema (Contracampo, Cinética, Polvo…), mas uma me chamou, pela excelência de seus ensaios, especial atenção. Trata-se de Orson – sim, uma referência a Orson Welles, que é editada pela Cearte (UFPEL) e patrocinada pelos seus cursos de cinema de Porto Alegre. A editora é a Professora Doutora Ivonete Pinto e colaboram na publicação nomes como Ana Paula Penkala, Augusto Vieira, Bruna Thais de Paula Caio Mazzilli, Camila Mitiko Inagaki, Carla Schneider. Carolina Gaessler, Chico Machado, Cíntia Langie, Eduardo Resing, Eduardo Rodrigues de Souza, Enéas de Souza, Gerson Rios Leme, Guilherme Carvalho da Rosa, Guilherme da Luz, Isadora Ebersol, Ivonete Pinto, Jordana Coutinho, Josias Pereira, Kamila Moraes, Liângela Xavier, Luis Rubira, Marcus Mello, Paula Di Palma Back, Renato Cabral, Thiago Rodrigues. Se você, que está lendo minha coluna, gosta de cinema, eis o link: http://orson.ufpel.edu.br/content/index.html

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