A noiva do tempo

Por Romana Alves Xavier

Chove muito e uma moça de fita vermelha no cabelo passa rápido entre a multidão que se protege da chuva. Sem sombrinha, ela pega carona nas sombras frescas de cada abajur suspenso pelas mãos molhadas e suadas do povo.

Passa pelo bebê de colo, pela criança de vestido rodado, pelo garoto com uniforme do colégio, pelo casal de namorados, pela grávida em final de gestação, pela jovem senhora, por colegas de meia idade, por uma idosa que se divide entre a preocupação de equilibrar o guarda-chuva e não cair na rua escorregadia.

E a moça, enquanto passa, leva com ela o tempo suave do vento que sopra. Ela passa diariamente, com a pressa de alguém que não volta jamais. Cada passo é tão intenso que, mesmo quando é pequeno, parece alto como um salto de mulher.

Muitos cantam seus encantos, outros preferem dizer que ela guarda surpresas. Há os que se dedicam exclusivamente a lamentar-se dela. Quase todos se preocupam em saber de onde ela veio e para aonde vai. E enquanto pouco se descobre a seu respeito, melhor mesmo é vivê-la.

Comentários

Há 8 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

18 + dezesseis =

ao topo