A Nova Chicago

Cena de Os Intocáveis, do diretor Brian de Palma

Reviraram na cova o esqueleto de Eliot Ness. A capitania hereditária de João de Barros, donatário que aqui nunca pôs os pés, parece que adivinhava o sucesso dos sucessores. Túmulo da dignidade humana e altar ostensivo de nulidades.

Quanto mais ostentação de estufar o peito, mais o ridículo se fronteiriça na ingênua pose da adolescência filosófica.

Porém não há Chicago sem Al Capone. Nem intocáveis sem um gangster de razoável prestígio. Poderia me candidatar. Não faço por dois motivos. Primeiro, porque nesse negócio de candidatura eu nunca me dei bem. Duas vezes, duas trombadas. Segundo, porque seria uma desmoralização para a Nova Chicago ter um Al Capone cocô de galinha da minha marca. Mesmo que a proporcionalidade entre o gangster e os intocáveis ficasse preservada.

Intocável, no mundo das leis, são os inimputáveis. Crianças, silvícolas, loucos ou similares. Haverá um pouco de cada disso nos discípulos modernos de Eliot?  São intocáveis aqueles que a lei não alcança. Ou num delírio da mais mórbida megalomania, aquele que se julga fora do alcance da lei.

Que se põe por decisão motivada de um complexo brutal de inferioridade num patamar galáctico de observação superior.

Quero morrer tocável. Em todos os sentidos.  Deve ser terrível não ser tocado. Um abraço, um aperto de mão, um afago. Deve ser sofrido o afago produzido por quem, intocável, faz da vida um exercício permanente de vigiar, espiar, conspirar, perseguir, punir, infernizar e depois lamber nos lábios a peçonha escorrente da ruindade posta.

Na minha vida fui perseguido, vigiado, punido. Nunca vigiei nem persegui ninguém. Nenhum talento para essa atividade. Até porque ela é ineficaz. Taí os números, pois a vida virou número, que não me deixam mentir. Quantos inquéritos produziram punição nos homicídios de pistolagem nos últimos anos, no Estado?  Quantos corruptos foram punidos? Qual a estatística de redução da criminalidade ou corrupção?

Encheram o fórum de ações contra mim; civis públicas, de improbidade presumida, criminais de crimes inexistentes. Ranço e vindita. Vingança com o uso das instituições forenses.

Mas Natal é uma Chicago perfeita na violência das ruas. Infelizmente, nesse aspecto a comparação tem procedência. No resto, fica o ridículo a observar os ocasos do Potengi, substituto possível de Cascudo.

Quando ele diz que Natal não consagra nem desconsagra ninguém, acertou só em parte. Desconsagra sim. Há uma janela provinciana de olho gordo no sucesso de quem ousar.

Isso faz lembrar o japonês, após um rega bofe ministerial, pago com dinheiro público, acometido de uma baita dor de barriga, que pede agoniado a chave do banheiro: “Eu quero ver she cago”. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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