A novela da alma

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

A constatação da materialidade infraestrutural da mente não me angustia pessoalmente em nada

Li o curiosíssimo livro de Eduardo Giannetti, “A ilusão da alma — Biografia de uma ideia fixa”. Um obscuro professor de literatura, especialista em Machado de Assis, descobre que tem um tumor cerebral que desgoverna o rumo dos seus pensamentos, produzindo vazios, buracos de esquecimento, lapsos, distorções, delírios. De repente, a mente se descobre refém de um cérebro que, alterado por uma aberração interna, funciona independente das vontades do sujeito. Extirpado cirurgicamente o tumor cerebral, no entanto, é como se a neurociência implantasse no cérebro do personagem, no mesmo ato, um “tumor metafísico” irreversível, dado pela descoberta alarmante de que a mente não passa do efeito ilusório de um órgão cerebral que funciona por conta própria, dando-nos a falsa impressão de que decidimos alguma coisa.

A narrativa de ficção se mistura, no livro de Giannetti, com considerações ensaísticas sobre os experimentos científicos que vêm demonstrando que, quando a mente pensa decidir fazer alguma coisa, o cérebro já acionou, microssegundos antes, os estímulos que dão à consciência a impressão de que é ela que está decidindo. A conclusão “fisicalista” é de que o organismo cerebral, um objeto vivo e destituído de alma, é que produz, segundo uma lógica inteiramente própria, os fenômenos mentais que nós acreditamos, por uma revivescência arcaica, que estão sob o domínio da mente. A mente não passa de uma nebulosa que vai de carona num veículo em altíssima velocidade que ela imagina, numa ilusão quase incurável, pilotar.

O professor machadiano da novela teórica de Giannetti não sabe mais como viver sob o impacto dessa revelação nadificante. O autor da novela não nos revela, por sua vez, entre a ficção e a teoria, até que ponto subscreve a versão científica em linha reta que assombra o seu personagem, ou até que ponto a deixa ironicamente suspensa nas mãos do leitor, desafiando-o a refutá-la, “se for capaz”.

Como se sabe, estamos diante, hoje, da promessa de um mapeamento exaustivo de dispositivos genéticos e neurológicos, dados pela aceleração tecnocientífica, que fornecerão chaves para o entendimento mais preciso da base material de fenômenos humanos como a mente e a linguagem. Acredito que não há nenhum acontecimento psíquico que não esteja em correspondência com interações eletroquímicas codificáveis, e que esses fatos estão se devassando de maneira implacável. Freud e Lévi-Strauss não previam outra coisa.

A constatação da materialidade infraestrutural da mente não me angustia pessoalmente em nada, ao contrário do professor de “A ilusão da alma”. Mas vejo que ela pode provocar efeitos paradoxais de tipo eufórico e de tipo depressivo. No primeiro caso está a sinfonia eletroacústica dos ruídos cerebrais, tal como nos é mostrada por Miguel Nicolelis, cuja decodificação permitirá, segundo o cientista, que um paraplégico dê o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2014, pilotando a prótese de um esqueleto externo através do comando de seus impulsos cerebrais.

O paradoxo está em que o mesmo ser que se descobre pilotando o corpo para além de seus limites, graças a essa — por enquanto — ficção científica, descobre também que não pilota o próprio cérebro, como na ficção teórica de Eduardo Giannetti. Porque, segundo a tecla obsessivamente batida por esse, a pianola do nosso processo mental é um realejo vertiginoso que toca sozinho, e que a nós só toca assistir pensando que a música é nossa. Em resumo, nessa nova fábula contemporânea, esse animal sem alma, o humano, que comparece euforicamente como piloto de prova da fórmula tecnocientífica, é o mesmo que se apresenta angustiadamente consciente de que não pilota a si mesmo, já que todo acontecimento mental vem depois e como resultante do automatismo cerebral.

Curiosamente, relendo “A inconstância da alma selvagem”, de Eduardo Viveiros de Castro, encontrei uma passagem em que o antropólogo carioca diz que, enquanto para o animismo indígena tudo tem alma, e todo ser vivo é um humano que olha de um certo lugar (todo olhar é humano, sob variada espécie), o naturalismo científico do Ocidente quer reduzir tudo o que existe à condição de um objeto observável, radicalmente destituído de intencionalidade, que seja olhado sem olhar. Aplicando esse crivo à teoria da alma, o Ocidente radicaliza a ideia moderna de que o “eu é um Outro”, que não coincide consigo mesmo, levando-a, afinal, para além da psicanálise e de toda subjetividade, à ideia de um organismo cerebral automático e sem sujeito que produz, como epifenômeno, a ilusão da alma. É o que aparece, sintomaticamente, na ideia fixa do personagem de Giannetti, onde a possibilidade de uma autonomia da mente é vista explicitamente como um resquício animista a ser eliminado. No perspectivismo indígena, ao contrário, o “Outro é um eu”, sem o qual não sou. Esse simples contraponto cultural nos levaria a repensar as vicissitudes da ideia de alma no estado atual da Humanidade, e a consultar novamente os oráculos ocultos no texto de Giannetti, que afinal gira em torno do tema do espelho: Machado de Assis e Guimarães Rosa.

Mas isso fica para o próximo capítulo da novela da alma.

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