A Nudez do Feio

http://1.bp.blogspot.com/-VY5XDqdrBzg/T7agwqJGfXI/AAAAAAAAAMw/aSxK7a_v_Bw/s1600/cartaz-apresenta%25C3%25A7%25C3%25A3onoBode.jpg

O facebook, decerto que mediante denúncia, retirou do ar o cartaz de divulgação da minha apresentação no Circuito Bode Arte (gordo pass. 94036546, às 19h no dia 22/05/2012, no banheiro do IFRN-Centro). Parece que a nudez de um gordo fere os preceitos demasiado higiênicos da vida em comunidade virtual.

***

Passa pela compreensão do corpo como célula política uma pragmática da exposição como rasgo da paisagem normativa que nos quer servir de céu absoluto, como não conformação aos limites que nos são oferecidos pelas normatizações dominantes, da transposição das fronteiras que, apesar de delimitadas à revelia de nós, produzem interditos experimentados cotidianamente em nosso próprio corpo. Se há um tipo de poder movido no sentido de fazer público o que “é de ser público” e relegar ao privado aquilo com que a sociedade “não pode/deve/consegue” conviver, há, em contraponto, posturas que miram a superação desses (micro)fascismos que ensejam conceder visibilidade a práticas dominantes e buscam, por meio de teias invisíveis, negar existência às práticas ditas desviantes.

Nos tempos da hiperrealidade, onde corpos esculpidos em computador figuram como tipo ideal de beleza – hipérboles inalcançáveis – e objetivo que norteia a vida paranóica de gente desesperada que se violenta para conseguir ter (comprar) esse corpo (hiperreal) construído em photoshop ou em clínicas de cirurgia plástica, há cada vez mais corpos “imperfeitos” para os quais a beleza é negada. A esses corpos restaria o confinamento, a não exposição. Pergunte a qualquer entendido de moda e ele lhe dirá: um gordo bem vestido é aquele que dissimula, ao máximo, o fato de ser gordo.

Tenho 21 anos, quase 1.80 e mais de 120kg. Eu já nasci grande e pesado, e desde sempre adoro comer e por isso me mantive pesado, apesar da coerção insistente de minha família para que eu adequasse meu corpo ao paradigma estético e saudável vigente. Meu corpo é um corpo doente (obeso), estranho e feio. Lembro de quando, aqui em casa mesmo, não sei se em tom de briga ou de chacota, minha irmã mais velha sugeriu que eu, sendo como sou (ou para ser mais exato, como aparento ser), me trancasse em meu quarto e não saísse mais. Absolutamente não odeio minha irmã por isso, e hoje em dia até convivo muito bem com minha família, mas não posso deixar de observar a ressonância de um discurso normativo impregnado à forma como fui, ao longo da adolescência, constrangido a adotar para mim uma dieta para efeito de controle de peso – e, nas sublinhas, para efeito de controle da minha própria vida.

Não expor esse corpo (doente, estranho e feio), mantê-lo trancafiado no quarto (armário), seria uma escolha, ao mesmo tempo que mais confortável para mim (todo armário como que nos oferece certa segurança), mais confortável para o padrão, que permaneceria intacto. Mas eu tenho um corpo que vibra, que sente, que pulsa, um corpo cujas vísceras gritam, um corpo que não se conforma, que não aguenta mais as coerções às quais tem sido submetido, um corpo que quer expor sua nudez, sua sinceridade e seu desvio, um corpo que quer desmantelar, em sua própria experiência, aquilo que a sociedade tem querido fazer dele.

A nudez do feio é, sobretudo, uma forma de posicionamento político, onde o que está em jogo é a liberdade de não ter de esconder-se, de não ter de dissimular o próprio corpo em favor de uma hiperrealidade inalcançável. O corpo informe que se apresenta a uma platéia insensível, que se expõe em sua fragilidade, que opera rasgos no horizonte e que desenha na cena sua irregularidade, sua imperfeição, sua inadequação. É o corpo que sai do armário para, nesse processo, inscrever sua beleza insuspeitada na hiperrealidade feia da paisagem photoshopada, lipoaspirada, siliconada, maquiada e paranóica.

Comentários

Há 15 comentários para esta postagem
  1. Alice N. 18 de maio de 2012 18:47

    A beleza é um conceito, já dizia Manuel Bandeira…

  2. Alice N. 18 de maio de 2012 18:54

    Jota, uma pequena provocação: se é para desnudar o par feio/belo e os pequenos fascismos que essa dicotomia, da maneira como é apropriada e reproduzida, sugere nos nossos cotidianos, por que no banheiro?

  3. Jota Mombaça 18 de maio de 2012 19:16

    Alice, o trabalho que apresentarei, embora tenha em seu entorno questões como a levantada neste texto, não se reduz à exposição do meu corpo socialmente dado como feio. Publiquei este texto hoje em reação à censura do facebook ao meu cartaz. O meu trabalho, “gordo pass. 94036546”, pretende, antes, discutir o sexo público, com ênfase na prática do banheirão – uso de banheiros públicos como local de pegação entre homossexuais. Ele decorre de minhas pesquisas no campo queer, e é o primeiro recorte de um projeto que pretende ainda investigar a caça urbana e, posteriormente, a representação do tarado na nossa sociedade. Performei este mesmo trabalho, em versão mais precária, no último BODEARTE e, nos meses que vêm, irei performá-lo no Rio e, com alguma sorte, em Salvador e São Paulo também.

  4. Alice N. 18 de maio de 2012 20:04

    Toda a sorte para você, lobo querido! Estarei lá!

  5. Marcos Silva
    Marcos Silva 19 de maio de 2012 8:09

    E Daí? (Proibição Inútil e Ilegal)

    Miguel Gustavo

    Proibiram que eu te amasse
    Poribiram que eu te visse
    Proibiram que eu saísse
    E perguntasse a alguém por ti

    Proibam muito mais
    Preguem avisos
    Fechem portas
    Ponham guisos
    Nosso amor perguntará
    E daí, e daí

    Daí por mais cruel perseguição
    Eu continuo a te adorar
    Ninguém pode parar meu coração
    Que é teu
    Todinho teu

  6. Elizabeth Maria A Costa 19 de maio de 2012 11:53

    Oi Jota Mombaça,não te conheço pessoalmente,mas combatilho ate hoj do sofrimento de ter um filho obesso,Ele abandonou faculdade,trabalho,e desde de criança,foi motivo de chacota.Para minha surpresa,seu sobrenome e igual ao dele,so q o dele se escreve Jotha.Ele e muito inteligente,mas tem esquizofrenia,toma remedios comtrolados,pesa 150 quilos.E muito triste ve um garoto com 28 anos de idades,ter s vida trancafiada pelo preconceito de uma sociedade,q so visa um corpo perfeito…Sofro a cada dia q passa,pois ele so pede pra morrer…Não sei mais o q fazer,pra ele se aceitar.Ele tem ajuda psicolodica,e psiquiatra,não tem amigos,so tem a mim.E muito triste vc ver um filho sofrendo deste jeito e não poder fazer nada..Um abraço

  7. Marcos Silva
    Marcos Silva 19 de maio de 2012 12:06

    Elizabeth:

    Nenhum corpo é perfeito. Todo mundo vive submetido a esse mito. Os corpos são pessoas. Paulo Zulu e Jota Mombaça (Gizele Bundchen e Dilma Roussef) são portadore/a/s de diferentes belezas. “Belezas são coisas acesas por dentro / Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento” (Jorge Mautner, “Lágrimas negras”).

  8. Jota Mombaça 19 de maio de 2012 15:09

    E assim nos suicida a sociedade, cravando primeiro suas unhas, derramando-se depois como uma bebida amarga e virulenta. Se nosso organismo a assimila, o corpo ruína, mas somente quando rejeitada torna-se veneno e nos derruba em suicídio. Se a mão que executa a eutanásia ou o comprimido que garante a sobrevivência, tudo o que a tal sociedade já não produz é vida, em nenhum grau. Estamos reduzidos (os que ainda não sucumbiram) à biomáquina: a manutenção miserável dos corpos e dos sistemas que o sustentam: as bioasceses (dietas, rotinas de academia, baterias de exames), o espelho hiperreal (o sanduíche do mcdonalds é mais bonito na fotografia; onde está o umbigo da Fernanda Vasconcelos na capa da revista?; debaixo de que tepete esconder as rugas da madonna?), o autofascista synóptico (não mais a torre central de observação, o que há é uma “casa mais vigiada do brasil” instalada no corpo, the big brother into you). A saúde dominante e bombada é a doença venérea na genitália hiperestimulada da modernidade líquida, escorrendo para os corpos – arquitetura, ortopedia, gatilho biológico, procedimento audiovisual. A vida é já uma hiroshima, terra infértil, caatinga existencial. A sociedade está cada vez mais ocupada em produzir existência-trapo, lumpencorpus: e somos nós os craqueiros, as prostitutas, os feios e gordos, aberrações, esquizofrênicos, anormais. Gramacho é o nosso retrato – mas não o lixão perfurmado do filme de Vik Muniz e da propaganda da Coca-Cola.

    Mas Estamira contém uma saúde. A força do artista da fome é o fato de que nada que está disponível o apetece. O lumpencorpo é, ao mesmo tempo em que o resíduo miserável da sobrevida contemporânea, a potência mesma para a desagregação desta, à medida que, em sua incompatibilidade, produz posturas extraviadas, formas desniveladas de vida, vozes dissonantes. O inumano é pós-humanidade em potencial. É o incompatível que suscita a pressão capaz de demover as bordas do instituído. Quando a sociedade nos reduz, eis que resta uma potência inaudita prestes a explodir: o feio que se desnuda ataca a vida nua, o lumpencorpo que se rebela contraria a lumpenvida à qual estamos todos (De Caprios e Bündchens também) subjugados. A sociedade do nosso tempo produziu tecnologias narcóticas as mais avançadas para impermeabilizar a existência, destitui-la da vida, mas fracassou – e fracassa: a pulsação errática das baratas remanescentes da hiroshima simbólica, a potência contida em cada aleijo, em cada corpo fora da rota, é a sensibilidade – o poder de afecção – contradita à saúde excludente dos dentes brancos, barrigas saradas e mentes míopes. Trata-se então de converter abjeção em enfrentamento, fazer da consternação revolta. Minha fraqueza é minha força; meu cu, minha bandeira.

    Avante, manco!

  9. Jóis Alberto 19 de maio de 2012 21:30

    Elizabeth Maria Costa, eu fiquei sinceramente comovido com o depoimento acerca da saúde do seu filho. Não sou médico para lhe dar orientações a respeito da melhor terapia, porém, como jornalista, acho que você e seu filho não devem se angustiar com a solidão. Tantas pessoas vivem sós no mundo e vivem bem – e vivem bem não porque estejam sós, mas porque procuram ficar bem com a autoestima, aprendem a enfrentar os problemas da vida, a não temer a solidão, o passar dos anos, a juventude que passa, a maturidade que chega uma dia, a velhice inevitável – porque tudo isso é da condição humana, e é preciso aprender a não se preocupar tanto, por mais motivos que existam… Claro, não podemos conseguir isso sozinhos, mas com ajuda material de empregadores, parentes, amigos…, e, para os que tem fé, a ajuda espiritual nas mais diversas manifestações religiosas…

    Se está só, em silêncio, procure tirar vantagem disso, com por exemplo se concentrar na leitura de um bom livro, sem ninguém pra atrapalhar a leitura. Se o futuro é a velhice um dia chegar, procure, desde já, retardar o envelhecimento da pele, do corpo, mantendo a forma com alimentação saudável – à base de muitos cereais, frutas, legumes, com pouco consumo de carne e açúcar, doces, bolos ou pizzas, por exemplo – além de caminhadas, exercícios físicos.

    No caso do seu filho, como ele depende de remédios, que esses nunca faltem e sejam da melhor qualidade. Uma boa linha psiquiátrica é a da psiquiatria comportamental-cognitiva. Converse com o/a psiquiatra do rapaz e veja a necessidade de você tentar uma terapia interdisciplinar, levando-o, além de psicólogos, a endocrinologista – este para ver questões da obesidade, etc -, a cardiologista, dentre outros. Nem você nem seu filho, nem ninguém, devem se envergonhar do corpo – magro ou muito magro, gordo ou muito gordo, etc.

    Assim, além de tratamento médico e autoestima, sugiro que aos poucos você tente convencer seu filho a sair de casa, a passear – passeios ao ar livre num parque com área verde, por exemplo – a visitar parentes e amigos que são atenciosos… Passeios são terapias tão boas quanto a dos remédios – essa tem um lado negativo, os efeitos colaterais, etc -, mas não fique ansiosa com isso, em passear, porque muitas vezes retornar ao lar ou permanecer nele também é um dos melhores prazeres pra todo mundo. Incomparavelmente difícil é a vida de quem não tem um teto pra morar…

    Leituras de livros, assistir bons filmes, diálogos, o amor, o trabalho – não precisa ser um emprego, pode ser uma atividade artística, como a música e a pintura –, jogos, são outras excelentes terapias. É isso. Espero ter ajudado.

  10. Denise Araujo 21 de maio de 2012 8:53

    Elizabeth, achas que teu filho quer uma amiga? Se sim, ofereço-me para ser uma. Além de todos os conselhos humanos dados por Jóis Alberto (comoveu-me o interesse dele em ajudar, e é muito ditoso percebê-lo assim), penso que seria uma ótima sugestão seu filho ir ver a performance do Jota Mombaça, caso queira e possa. Nestas horas, enquanto cristã que sou, creio que Deus é determinante para a conquista da paz de espírito (através da leitura da bíblia). Mesmo que respondas ou não aqui, penses com carinho nisto.

    Bjs.

  11. Aline 7 de março de 2013 23:47

    Que coisa…sempre adorei os feios, lendo sua descrição sobre teu corpo, imaginei meu marido, um homem fiel, leal, inteligente, bem sucedido e sentimental…

    Sou completamente louca por ele !!!

  12. Marcos Silva
    Marcos Silva 8 de março de 2013 6:44

    Aline:

    Entendi que seu marido é portador das maiores bonitezas (fiel, leal, inteligente). Ele deve ser feliz por ter uma mulher que vê e quer tudo isso.

  13. Márcio 24 de agosto de 2013 16:24

    A sociedade rotula o que é feio ou bonito, acho isso uma grande bobagem. Afinal o que belo pra mim é feio pra outros. Ex: acho homens gordos perfeitos, bonitos atraentes. Os magrinhos, atléticos,sarados sem graça. Conheço muitos como eu.

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