A obra completa de Candido Portinari

UM CERTO SENHOR CANDIDO PORTINARI

“Na tela, e gigantescos murais, foi o primeiro a colorir nossos problemas sociais”

Nascido em Brodósqui, Candido Portinari foi o maior pintor do Brasil. O azul de Portinari e suas luvas amarelas são as cores de um Brasil que estava a ser reinventado. É nosso propósito homenagear esse artista fundamental para a cultura brasileira, destacando algumas facetas menos conhecidas desse grande pintor.

Retratista

Portinari foi o maior retratista do Brasil. Entre os mais de 600 retratos pintados por ele, são notáveis os retratos de Mário de Andrade, Manoel Bandeira, Pagu , Graciliano Ramos, Drummond, José Lins do Rego e seu biógrafo Antônio Bento: Grande crítico paraibano de arte e potiguar de coração, escreveu uma das melhores biografias de Candido Portinari.

Portinari Ilustrador

Portinari foi também um grande ilustrador de Livros. São belos os seus 21 desenhos que ilustram cenas do célebre livro Dom Quixote de la Mancha, escrito por Miguel de Cervantes. Esses desenhos, coloridos feitos com lápis de cor, seriam destinados a uma edição brasileira do Dom Quixote. O livro não saiu, mas os desenhos foram lançados num belo álbum acompanhado de 21 poemas e glosas do poeta Carlos Drummond de Andrade. Portinari ilustrou uma bela edição do livro menino de Engenho de José Lins do Rego (1959), Maria Rosa de Vera Kelsey, Metamorfose (1944),de Murilo Mendes, Presença de Santa Teresinha ( 1934), de Ribeiro Couto , Memórias Póstumas de Braz Cubas de Machado de Assis (1943) para a coleção dos 100 Bibliófilos do Brasil e Portinari devora Hans Staden ( 1997).

Toda a obra desse artista genial pode ser apreciada aqui

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Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. João da Mata 22 de novembro de 2010 21:42

    Nina Querida,

    Gostaria muito de conhecer essa capela.
    Conheci a capela da Pampulha e me apaixonei.
    Uma das maiores obras de Portinari, que infelizmente morreu muito novo.

  2. Nina Rizzi 22 de novembro de 2010 21:27

    A avó de Cândido Portinari, muitíssimo católica, sofria, adoentada e senil, não poder ir à Igreja. Então o neto, comovido e devoto à avó, fez uma capela em sua própria casa, hoje o Museu Casa de Portinari (onde trabalhei, maravilha!), na verde e fresca Brodowski (Brodowski, leia-se, Brodovisqui); em seu interior vemos os santos padroeiros e a Sagrada Família com rostos dos familiares de Portinari, o Cândido.
    *

    Por fim, deixo-vos com dois poemas do GRANDE Portinari.

    SEMEAREI ÁGUA
    Cândido Portinari, Poemas (obra póstuma), Ed. José Olympio, 1964

    Cães sarnentos e esqueléticos
    De olhar doce e humano
    Fugiam sempre. Eram enxotados
    A todo instante. Só as crianças
    Tratavam-nos bem. Olhos remelentos e
    Comoventes pobres pobres e sem
    Dono. Não se metiam em brigas
    Farejavam os meninos amigos
    Até na igreja eram escorchados
    Mas a lua iluminava ao rei e
    A eles. A brisa soprando não
    Discriminava. A água matava
    A sede do homem, da ave e do cão
    A terra alimentava a todos
    O eco longínquo era ouvido por eles
    Também. Serão alguns Santos em penitência?
    *

    DEUS DE VIOLÊNCIA
    Cândido Portinari

    Quem seraim aqueles três rasgados
    E sem cara? Vinham a cavalo.
    Mais próximos não davam impressão de gente,
    Mais de três volumes se movendo como bandeiras
    Esfarrapadas. Rentes a mim, estenderam
    algo como uns braços, com vestígios
    de deos, segurando uma caneca de folha.
    Eram restos de três criaturas
    Espaventosas carregando a lepra.
    Vinham das bandas do Triângulo. Os sons
    que emitiam eram como
    Sombras de palavras.
    Meu pai chamou-os
    para o almoço. Sentaram-se à nossa mesa.
    Nós crianças olhávamos intimidados
    Depois confraternizados. Quando se foram,
    perguntamos: – Que santos são aqueles?

    ***

    Os cavalos dos leprosos se parecem com eles.
    Manchas no focinho e no corpo, o mesmo olhar
    Mortiço e desacoroçoado.
    Homem e cavalo
    Vinham vagarosamente
    De porta em porta. teriam
    A mesma doença?
    Arrepiados da cabeça aos pés,
    O sol os acariciava, e se moviam lentamente.
    Nas noites de treva
    O cavalo era o guia, só ele enxergava.
    eram como dois irmãos. O alimento,
    Repartido e o descanso também…
    Seriam dois reis?

    ***

    Os retirantes vêm vindo com trouxas e embrulhos
    Vêm das terras secas e escuras; pedregulhos
    Doloridos como fagulhas de carvão aceso
    Corpos disformes, uns panos sujos,
    Rasgados e sem cor, dependurados
    Homens de enorme ventre bojudo
    Mulheres com trouxas caídas para o lado
    Pançudas, carregando ao colo um garoto
    Choramingando, remelento,
    Mocinhas de peito duro e vestido roto
    Velhas trôpegas marcadas pelo tempo
    Olhos de cataratas e pés informes
    Aos velhos cegos agarradas
    Pés inchados enormes
    Levantando o pó da cor de suas vestes rasgadas
    No rumor monótono das alparcatas
    Há uma pausa, cai no pó
    A mulher que carregava uma lata
    De água! Só umas gotas – Da uma só
    Não vai arribar. É melhor o marido
    E os filhos ficarem. Nós vamos andando
    Temos muito que andar neste chão batido
    As secas vão a morte semenando.
    *

    beijos.

  3. Danclads Lins de Andrade 22 de novembro de 2010 15:17

    Da Mata, nunca entendi a arte pela arte. A arte tem que passar alguma mensagem e ela não está destituída do ambiente social em que se acha inserida.

    Cândido Portinari é um desses artistas que, por meio da arte, dá o seu recado. Mostra a realidade social sem rodeios ou floreios.

    Vale consignar que Portinari tem um mural imenso na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque, o que vem denotar a sua importância no âmbito internacional.

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