A obra prima de Miguel de Cervantes

Dom Quixote, de Orson Welles (aqui)

A obra prima de Miguel de Cervantes “Dom Quixote” não é leitura para neófitos em literatura. Seria essa uma frase esnobe? Não acredito. Harold Bloom que é um crítico de peso coloca Cervantes no mesmo patamar de Shakespeare, o que vindo de Bloom é na verdade o maior dos elogios. A admiração do critico norte-americano pelo teatrólogo inglês parece não ter limites, a ponto de Bloom colocar o próprio Shakespeare ausente de sua teoria da “Angústia da Influência”, defendendo (um paradoxo?) outra tese, qual seja, a de que Shakespeare não teve rival, ou melhor, não teve pais poéticos anteriores que o moldaram.

Mas “Dom Quixote” além de inaugurar o romance moderno, faz escola pelo seu senso de humor, sua desconstrução do real, inaugurando também o que mais tarde viria ganhar “forma” em especial com Gabriel Garcia Marques no livro “Cem anos de solidão” como realismo fantástico. Mas Cervantes não é só um mestre da escrita. Lembro de uma aula que tive com Francisco Ivan onde ele falava da diferença entre o grande artista e o criador. O primeiro, dizia ele, nos levava a mundos desconhecidos, mas o segundo além dessa qualidade também criava novas formas no próprio ato criativo. Perfeito.

Um mestre e criador nós temos também em Edgar Allan Poe. Nunca me esqueci da abertura com que Adriano Schwart deu inicio a sua resenha sobre Poe intitulada “Edgar Allan Poe, o filósofo da composição”, em que diz: “Viveu pouco, sofreu muito e produziu contos, poemas e ensaios que o tornam um dos mais influentes escritores da história da literatura”.

Bastaria apenas a criação do detetive Auguste Dupin para imortalizá-lo, ou seja, a Poe. Quem não leu fascinado a pericia técnica e intelectual com que Dupin nos guia em contos como “Os crimes da Rua Morgue” ou “A carta roubada”? Como diz Schartwrt “de Piratas do Caribe a Lost, de Indiana Jones a House, qualquer narrativa na qual um detetive se dedique a desvendar um caso a partir de seu intelecto” tem a marca da criação de Poe. Isso para ficarmos nos populares, sem contar com Conan Doyle, Agatha Christie e Phillip Marlowe, ou nos mais atuais, Stephen King ou Dean Kootz. Todos beberam na mesma fonte. Alguns assumem, outros não.

Mas voltando a Cervantes. O grande mérito do criador de “Dom Quixote” com essa obra prima, na minha avaliação, tem a ver com sua intuição sobre o mundo que estava por nascer, o mundo de massas. Nenhum grande artista se sente confortável nele. De Cervantes a Flaubert, de Dostoievski a Joyce e Proust, há claramente uma recusa a se tornar mais um parafuso na engrenagem. Flaubert rejeitou o capitalismo mas não via saída no comunismo, tão massificante quanto o rival que se opunha.

Quem elevou a status de grande obra foi George Orwell atacando de frente o totalitarismo stalinista em obras como “1984”, “A revolução dos bichos” ou no menos conhecido “Um pouco de ar, por favor” em que expôs o perigo da massificação. Há, ou é possível enxergar o contra-ponto em um autor como George Bernard Shaw, mas este enfrentou com a única arma possível que foi o humor. Na verdade, Shaw é um caso raro entre os autores modernos e suas relações não pacificas com o mundo de massas. Há o caso de Heiddeger numa outra linha que propôs a volta a um misticismo e a crença numa possível individualidade radical que lhe acenou o nazismo como o combate ao capitalismo.

Cervantes preferiu a criação e usou como saída a sátira. Criou uma obra prima que serve como modelo até os nossos dias, quando encontramos paredes, obstáculos, “moinhos gigantes” que parecem representar o sistema com suas barreiras e limites. É um bom ponto de partida.

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