A obscuridade e as antenas da semiótica

Por Steven Johnson
DO “NEW YORK TIMES” – VIA FSP

Ficar horrorizado com o estilo de prosa que praticou na juventude é um dos riscos ocupacionais da atividade de escritor.

Em geral, as falhas refletem entusiasmo descontrolado, clichês literários remanescentes ou incapacidade para assumir uma voz bem definida. Mas, quando leio meus escritos juvenis dos tempos da faculdade, tenho uma estranha e quase total sensação de desconexão. O seguinte trecho é de um trabalho que escrevi aos 19 anos:

“O dilema de qualquer análise tropológica da narrativa sempre reside em seu próprio recurso, apagado e tortuoso, a um modo metafórico de apreender seu objeto; a rigidez e a insistência de suas taxonomias e a facilidade com que relega cada enunciado errante a um regime rígido de formações enunciativas possíveis é testemunho de uma confiança constitutiva em que sua própria metalinguagem interpretativa vai se aproximar da forma linguística que examina ou obedecê-la.”

Eu estava no segundo ano na faculdade, e a minha voz, na página, soava como a de um professor de 60 anos da Sorbonne mal traduzido do francês.

Mas escrever essas frases –e ainda há milhares delas lançando seus enunciados errantes em meu disco rígido– se mostrou uma parte crucial de minha educação. Isso porque fui estudante de semiótica na Universidade Brown num período notável dos anos 1980; segundo diziam, na área de humanidades daquela universidade, a semiótica seria o terceiro curso mais popular, apesar de ser um campo (e uma palavra) que só atraía olhares de incompreensão em festas familiares e entrevistas para empregos. “Ah, a semiótica”, me disse certa vez um parente distante durante as férias de inverno. “O estudo de como as plantas crescem na luz. Um campo muito importante.”

A grande atração estava justamente, em parte, na obscuridade desse campo. No novo romance de Jeffrey Eugenides, “The Marriage Plot” [Farrar, Straus & Giroux; 496 págs.; R$ 68,40], cuja história é ambientada na Universidade Brown no início dos anos 1980, a heroína topa com o programa de semiótica pela primeira vez quando uma amiga volta para casa com um exemplar de “Gramatologia”, do filósofo francês Jacques Derrida.

“Quando Madeleine perguntou sobre o que era o livro, Whitney deu a entender que a ideia de um livro ser ‘sobre’ alguma coisa era exatamente o que aquele livro era contra, e que se fosse ‘sobre’ alguma coisa seria sobre a necessidade de parar de pensar nos livros como sendo sobre coisas.”

A semiótica (“ciência dos signos”, em grego), como campo de estudos, data de filósofos e linguistas do final do século 19 como Charles Sanders Peirce (1839-1914) e Ferdinand de Saussure (1857-1913); atualmente é mais comumente associada a Umberto Eco.

NIKE E REAGAN

A essência geral da semiótica pura é uma espécie de teoria social baseada na linguística; se a linguagem molda nosso pensamento, e nosso pensamento molda nossa cultura, então, se estivermos procurando uma chave mestra para encontrar o sentido da cultura, faz sentido começar pelas estruturas fundamentais da própria linguagem: signos, símbolos, metáforas, artifícios narrativos, figuras de linguagem. Com essas ferramentas, seria tão fácil interpretar um discurso de Ronald Reagan quanto um anúncio da Nike.

Quando cheguei à Universidade Brown, no entanto, em meados dos anos 1980, havia dezenas de subgrupos reunidos sob a bandeira da semiótica: a desconstrução de Derrida, a psicanálise pós-freudiana, o pós-feminismo, o pós-estruturalismo, os estudos culturais. (Parece que éramos pós-muitas coisas naquela época.) Na realidade, as pessoas bem informadas raramente falavam em “semiótica”. O termo abrangente era apenas “Teoria”, com a letra tê em maiúsculo.

Teóricos como Derrida (foto) e Michel Foucault eram heróis em muitos campi universitários daquela época, mas, de algum modo, ter uma disciplina principal que anunciava sua filiação –em vez de esconder-se atrás de um diploma mais tradicional, de filosofia ou inglês– tornava mais pronunciada a afinidade.

É claro que parte disso era apenas pose. “Estudar na universidade nos anos 80, uma década em que muita gente fez muito dinheiro, demandava certo radicalismo”, escreve Jeffrey Eugenides. “A semiótica foi a primeira coisa a ter cheiro de revolução. Ela traçava uma linha divisória; criava um eleito; era sofisticada e europeia; tratava de temas provocantes, de tortura, sadismo, hermafroditismo, sexo e poder.”

Abraçar a semiótica acarretava custos. No meu caso, passei a maior parte dos meados de meus 20 anos desemaranhando meu estilo de prosa (que foi ficando mais jovem à medida que eu envelhecia). Hoje, passo mais tempo aprendendo com os “insights” da ciência do que desconstruindo suas reivindicações da verdade. Fui pouco a pouco sufocando o desejo de impressionar com obscuridade proposital.

VISITA SURPRESA

Durante a minha pós-graduação, participei de um seminário sobre Jacques Derrida ao qual o próprio Derrida fez uma visita surpresa, respondendo modestamente a nossas perguntas sem nada do drama que eu imaginara ao ler suas palavras escritas na página.

Espantosamente, ele parecia estar dizendo alguma coisa, em vez de apenas dizer alguma coisa sobre a impossibilidade de dizer qualquer coisa. Em um momento constrangedor, um colega meu fez uma pergunta confusa e autorreferencial, que começou por colocar “sob correção” a própria natureza de uma resposta.

Lembro-me de ter dado um largo sorriso quando, após uma longa pausa, Derrida respondeu: “Sinto muito, mas não entendi a sua questão”. Parecia o fim de uma era: o próprio Derrida estava pedindo mais clareza.

Mas a semiótica, naqueles anos, não era apenas o mais novo modismo vindo da França. Como observou certa vez um grande amigo, ela deixava em muitos de nós a sensação inebriante de que o mundo do dia a dia –especialmente o mundo da mídia– tinha uma camada secreta de sentido que poderia ser decifrada, desde que dispuséssemos da chave certa (um pouco dessa sedução foi habilmente embalada na disciplina da “simbologia” dos romances “O Código Da Vinci”).

À medida que fomos ficando mais velhos, muitos de nós começamos a empregar ferramentas conceituais diferentes, mas foi aquele entusiasmo inicial dos nossos anos de estudo da semiótica que nos fez deslanchar: a sensação instigante de ter 20 anos e ter acesso a um mundo de conhecimentos ocultos.

Quando comecei a escrever livros sobre tecnologia e mídia, no final dos meus 20 anos, as frases eram mais curtas e os argumentos tinham menos chance de serem postos sob correção, mas o que animava o meu trabalho era a impressão de que interfaces de computador ou videogames possuíam um significado social sutil, que nem sempre era evidente à primeira vista. Essa perspectiva foi também o legado de meus anos de estudos de semiótica e acabou revelando ser bem mais durável que o estilo de prosa.

GENTE INFLUENTE

Sei de pouquíssimos amigos que continuam a praticar a Teoria tal como ela nos foi ensinada então. Mas um número notável de estudantes de semiótica acabou tendo carreiras influentes na mídia e nas artes. (Talvez antevendo esse fenômeno, durante minha fase na Brown o curso foi rebatizado de Cultura e Mídia Modernas.)

Ira Glass, da National Public Radio, o romancista Rick Moody, o cineasta Todd Haynes, o próprio Eugenides -todos passaram seus anos de formação no programa de semiótica. O anti-herói do hilário romance “The Ask” [St. Matin’s Press; 304 págs.; R$ 36,70], de Sam Lipsyte, publicado em 2010, faz aulas de teoria numa faculdade que é claramente inspirada na Universidade Brown.

(Sam Lipsyte foi, na verdade, meu colega de quarto durante boa parte dos meus anos de faculdade; gosto de pensar que as paródias sarcásticas do jargão semiótico que ele faz no livro foram inspiradas em outros amigos dele.)

Uma extensa lista de candidatos a especialistas em semiótica exerceu papéis importantes nos primórdios da mídia digital. Olhando para trás, desconfio de que a visão de mundo semiótica –com sua ênfase constante sobre o “jogo textual”– nos muniu de antenas conceituais que nos ajudaram a sintonizar o caos hipertextual da web quando ela surgiu.

A despeito de todas as complicações desnecessárias, a semiótica nos ensinou a procurar novas possibilidades no que é ordinário, convertendo signos em novas maravilhas. Apesar de todo o nosso discurso sobre sermos pós-tudo, o mais interessante em nós acabou revelando ser aquilo em que fomos pré.

Comentários

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  1. Jóis Alberto 22 de novembro de 2011 19:38

    O escritor norte-americano Steven Johnson fala, no final do texto em foco, em “complicações desnecessárias” da semiótica. Recentemente, quando cursei a licenciatura em Letras – Língua Portuguesa e Literaturas na UFRN, tive essa mesma sensação quando estudei aulas de sintaxe, pelo enfoque gerativista. Pense em ‘complicações desnecessárias’! Mais do que na semiótica, que cursei também durante um semestre, e, de modo geral, gostei: muito boas as teorias de Peirce, as suas contribuições para a lógica, com o conceito de abdução; as leituras que fizemos de Umberto Eco, Roland Barthes – este está mais para a semiologia do para a semiótica, como se sabe; e até mesmo leituras de Ítalo Calvino. São assuntos e autores que precisam ser lidos sem maiores complicações, mas igualmente sem mais preconceitos!

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