A opção pelo erotismo

Quando escrevi o livro de poemas eróticos “Dança em seda nua”, 2009, num compromisso íntimo de não ousar ingressar no pornográfico, mas de me manter num campo delicado (e até arriscado) da poesia sensual, carnal, sem componentes humorísticos, picarescos, burlescos ou escatológicos, fiz antes e na verdade uma opção pela alma em contrapartida ao corpo. Alguns não entenderam e não entenderão essa minha afirmação e mesmo a linha eleita de minha poesia. Optei pelo caminho do meio, já usado antes em outros dos meus livros, perpassando um roteiro, um espaço sagrado pra mim e que recebe o nome e a marca amorosa do corpo. E é por isso que enalteço a alma, o espírito dos seres amantes. É pela palavra e pela forma sutil como a trabalho em busca de um erotismo suavemente desvelado.

Tento explicar melhor, apesar de considerar que nem tudo é explicável ou precisa de explicações. Corro, portanto, novos riscos aqui. Sou desses que nada têm contra a poesia dita pornográfica (que alguns praticam muito bem). Porém, opto antes por um lento e suave desvelamento do corpo (o corpo feminino, para ser mais preciso), sem a precisão rude do palavreado chulo, obsceno, pornográfico. E essa não é uma opção ética e nem moralista. É uma opção estética e artística. E até mesmo se opõe a uma certa moral oculta na poesia pornográfica. Os pornográficos buscam, muitas vezes, o riso que quebra o silêncio (ou quase) do ato erótico amoroso. Trazem uma ruptura anti-orgástica na maior parte das situações poetizantes. Eu, nas minhas escolhas, vou por caminho distinto, quase em paralelo, mas com alguns pontos de encontro, de toque.

Então, talvez a minha transgressão pareça ainda maior. Como é que alguém escreve sobre esse tema e parece ter pudores descabidos? Será que é assim? Ou será que o excesso ou a falta de pudor não se encontram antes nas mentes que não aceitam o lado amoroso da sexualidade? De um lado (o pornográfico) e do outro (o pudico moralizante) vemos morais contrapostas. Mas, ambos optam por obliterarem a sexualidade, descabidamente.

Sigo, assim, por um caminho alternativo, duplamente perigoso, mas que opta por uma carnalidade textual sem as vergonhas guardadas nas duas opções que mencionei. Caminho rumo à opção da palavra poética erótica em que o sexo se encontra com o amor, numa conjunção elevada e realizadora, sem quebras ou rupturas artificialmente impostas pela palavra dura ou pela mera proibição da palavra que revela e se revela por si própria.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Jarbas Martins 8 de Janeiro de 2014 16:22

    caminho de sábio

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