A outra História do Brasil

Por Hermano Vianna
O GLOBO

O Brasil deixou de ser o mesmo país em que eu vivia antes da leitura do livro (de Jorge Caldeira)

Jorge Amado, escrevendo sobre o lançamento de “Casa-grande e senzala”, não economizou o tom bombástico: “Foi uma explosão […] Quem não viveu aquele tempo não pode imaginar a sua beleza […] O livro de Gilberto deslumbrava o país, falavase dele como nunca se falara antes de outros livros.” Monteiro Lobato foi até mais apoteótico: “Qual o Cometa Halley, irrompera nos céus da nossa literatura…” Diante desses comentários, fiquei com inveja. Não me lembro, desde que me tornei devorador de livros, de um lançamento sobre o Brasil que tivesse gerado tal deslumbramento.

Ou mesmo que tivesse provocado apenas em mim surpresa capaz de desnortear minha visão de país, propondo uma maneira realmente nova de pensar nosso lugar no mundo.

Talvez os livros, não apenas quando falam do Brasil, tenham perdido esse poder.

Games e softwares ganharam corações e mentes de forma contundente, apesar de pouco analisada, e sem produção nacional de peso. Por exemplo: “Halo:Reach”, game recémlançado, vendeu 200 milhões de exemplares no primeiro dia, em todo o planeta.

Isso é que é um Cometa de Halley mercadológico, que irrompe nos céus da consciência contemporânea fora do radar da crítica artística, sem deslumbrar figurões da literatura de país algum. Porém, mesmo com essa competição “desleal” de outros estímulos culturais, provavelmente o verdadeiro problema não seja somente mídia (game ou livro), mas também o tal “conteúdo” (o “Brasil”, o “nacional”), e assim — abruptamente — a ausência desses livros em nossa vida atual fica bem explicada, ou eternamente sem explicação.

Então — quando eu já estava conformado, jogando “Little big planet” — surge o “História do Brasil com empreendedores”, de Jorge Caldeira. Terminei a leitura há meses. Tentei fazer pouco caso, ou abafar meu espanto.

Claro que ouvia elogios, mas todos meio “blasés”, ou distanciados, como se proferidos por personagens do “La dolce vita” de Fellini, naquela festa final, quando — diante do oferecimento de um strip-tease — alguém diz: “Não novamente, todo mundo já viu você nua.” Prudente, fiquei esperando a contestação de algum historiador, metralhando dados para provar que o que Caldeira diz está errado. Nada, até agora. Isso quer dizer que todo mundo aceitou a nova interpretação do Brasil? Ou ninguém leu direito, ou deu importância ao que leu? Estranhíssima situação. No meu pensamento, as teses de Caldeira foram — como naquela música do Peninha — “crescendo, crescendo, me absorvendo e de repente eu me vi completamente” delas, tomado pelo livro. E tenho que confessar: o Brasil deixou de ser o mesmo país em que eu vivia antes da leitura. Não é exagero: se vamos, a partir de agora, levar a sério o que está escrito em suas páginas, mesmo os livros didáticos precisam ser reescritos. Nas escolas, aprendemos que a economia colonial brasileira não se desenvolveu pois tudo que era produzido aqui ia para Portugal. Caldeira revela um outro início de país, com mercado interno mais dinâmico que o da metrópole, com vida rica fora da casa-grande e da senzala. Somos ensinados desde criancinhas, nas primeiras aulas de História, a pensar uma colônia apenas com senhores e escravos.

“História do Brasil com empreendedores” fala de uma terra que tinha, na pior das hipóteses, mais de dois terços da população composta por homens livres. Meu espanto: como os outros livros nos “esconderam” essa gente toda, esse tempo todo? E o que fazer, a partir de agora, com o aparecimento dessa “nova” e decisiva população? Como se isso não bastasse, Caldeira ainda lança várias outras ideias que para mim são alegremente pertubadoras, e exigem revisão cuidadosa de várias de crenças anteriores.

Com Gilberto Freyre, eu imaginava que a mestiçagem brasileira tivesse origem ibérica, talvez árabe. Vários bons momentos de “História do Brasil com empreendedores” viram essa ideia pelo seu avesso “perspectivista”: nossos índios se tornam os “miscigenadores” mais radicais e obstinados.

Certa vez, em entrevista, Aílton Krenak me disse que os índios não tinham lugar em “Casa-grande e senzala” — eram os que ficavam fora, à espreita, prontos para o ataque. Para Caldeira, o ataque já aconteceu, na surdina, mudando os corpos de senhores e escravos, sem que eles percebessem ou escrevessem sobre isso em seus livros de História, ou contra-História.

Fui procurar outros livros de Caldeira. Dei sorte de encontrar um exemplar da edição esgotada de “A construção do samba”, que reúne ensaios dos anos 80. Incrível não ter conhecido esses textos antes de ter escrito o meu “O mistério do samba”, com tantas preocupações em comum.

Foi interessante reencontrar Donga, que agora pode ser “lido” como um empreendedor, inventor de um “negócio”, o da música popular no Brasil, entre o “mercado” e a autenticidade, entre a “roda” e o consumo de massa.

Na perspectiva de Caldeira, o sambista — como o trabalhador livre da colônia — deixa de ser apenas o excluído, para se tornar também — ao mesmo tempo — agente de sua própria história, mesmo de forma informal.

A informalidade, “o fio do bigode” e o favor acabam se tornando os maiores inimigos dos empreendedores. O crescimento da periferia — ainda que exuberante — fica contido, à margem. Com metade da economia na informalidade, o Brasil precisa enfrentar esse problema mais que central. Pense nisso, antes de votar no domingo.

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