A paixão segundo H. H.

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Volto a navegar, encantado, em “Fico besta quando me entendem” (Bibloteca Azul), belo livro em capa dura que reune as entrevistas dadas por Hilda Hilst, organizado por Cristiano Diniz. Alguns temas se repetem obsessivamente, entre eles o obsessivo tema da paixão. Lembra Hilda, em dada entrevista (p. 64) que as pessoas apaixonadas costumam despertar nos outros certa complacência, certo distanciamento. Recorda, a propósito, uma sentença do amigo e escritor José Luís Mora Fuente, que diz: “Intensidade era apenas isso tudo o que eu sabia fazer”.

É essa intensidade, justamente, que causa espanto, certo e delicado desprezo, que promove a distância dos apaixonados, que parecem sempre um tanto enlouquecidos pela dor de existir, um tanto loucos. Para Hilda, o que acontece é simples: “o apaixonado anula a morbidez da alma”. Prossegue, detalhando melhor o que deseja dizer: “Há uma dilatação, ou contração, ou estagnação do tempo quando você se dá ao outro”. Não importa se o tempo acelera, ou se ele desacelera, ou mesmo se afunda em um eterno presente: algo, de muito radical, se modifica, e é justamente isso o que causa espanto e, mais que espanto, temor. Um medo, quase sempre, devastador.

Na paixão, noções elementares como vida, instante, tempo, espaço, proximidade, presença, ficam desfiguradas. O sujeito se vê diante do perigo abissal do intelecto, que traga todas as palavras e as transforma no que, enfim, são: puro fogo. Sim: a mente é um abismo e a paixão o rasga, o queima, mdeixando entrever o infinito. Falava Hilda em um sentimento duro, mas muito comum, que todos carregamos: “amivissi”, isto é, “a nostalgia profunda de um dia ter amado”. Uma espécie de buraco (abismo) que nos empenhamos, inutilmente, em vedar. Esse empenho é a escrita.

Lendo as idéias de H. H. sobre a paixão, fica mais fácil, parece-me, entender sua relação de vida ou morte com a literatura. A ficção e a poesia eram, para Hilda, espécies fracassadas, mas belas, de substitutos da paixão. A beleza da poesia se origina de um fracasso: a tentativa de atualizar aquilo que está para sempre perdido. A rigor, é esse esforço para tornar presente o ausente que – seguindo os passos de Hilda _ podemos chamar de poesia. A poesia está entre dois tempos, e não está em nenhum deles. Está (é) no abismo que entre eles se abre.

A poesia é, ainda, uma espécie de obsessão pela beleza. Você se rende não propriamente à beleza, mas ao desejo nunca satisfeito de uma beleza que encubra todas as fendas do mundo. Só a paixão (porque é ilusão) consegue contato com essa beleza profunda, com a qual os apaixonados vestem seus seres amados. É da mesma beleza absurda que se trata na literatura, e é por isso que os escritores nunca estão satisfeitos com seus escritos, guardam sempre o sentimento de que o escrito “verdadeiro” (aquele que o destino lhes reservou) lhes foi roubado.

É por isso, porque interferem na realidade e a alteram e a enlouquecem, que as ficções deixam de ser meros produtos da imaginação para interferirem diretamente na crosta do real. Lembra Hilda que físicos e matemáticos postulam a existência de “pontos de ficção lógica”. A ficção, sempre pensei, penetra em todas as esferas do humano e está incluída, até mesmo e sobretudo, na construção da verdade. Na física, lembra-me Hilda, o “ponto de ficção” pode levar a efeitos reais e palpáveis. Só na física? Não será essa uma experiência que temos em nosso banal dia a dia? Não será isso o que, enfim, define a paixão _ um sonho que atravessa e arrebenta e modificia o real?

Para Hilda, só a ficção torna possível ir além do “amavissi”, isto é, ir além do “um dia ter amado” para _ com o longo tapete das narrativas _ encantar o mundo outra vez. Só a ficção reconecta o homem com a paixão _ só ela apaixona o mundo. Daí a relação sempre extrema que temos com os livros que amamos. Há risco? Há sim, e muitos. “Você corre um risco absoluto”, diz Hilda, “o de levar o leitor a um ponto em que ele não retorna”. Ler e escrever é tão perigoso quanto apaixonar-se. Nem por isso deixam de ser experiências fascinantes, que alargam os horizontes do humano.

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