A Palavra (En) cantada

A Palavra Encantada é um belo documentário sobre a nossa rica e versátil canção popular brasileira universal. Da relação da música com a poesia e a palavra escrita num país de poucos leitores e de uma forte cultura oral. De sua dicção em vogais abertas e fechadas. Para comentar sobre esse manancial alguns de seus maiores fazedores, cantores e teóricos; José Miguel Wisnik e Paulo Tatit comentam sobre as raízes históricas dessa música e evolução.

Muito bem se expressou o compositor Lenine – falando gostosamente das vogais – que essa música tem origem nos trovadores medievais. É forte a influencia dos cantadores e da literatura de Cordel atesta o escritor paulista Ferréz e o Lirinha (sóbrio) do cordel do Fogo Encantado.

Será que a canção chegou ao fim com o rap, hip, hop e pop?.
Uma música que entra pela bunda, mexe com o corpo e faz vibrar todas as cordas de corpos suados e dessacralizados.

O que é o pop pergunta o jornalista a Caetano para receber uma resposta vaga para uma palavra que pode significar tanto. Os quadrinhos são pop!. Tudo que é comunicação de massa podia ser pop. A canção pode acabar hoje, amanhã, responde um Chico pouco prolixo. Aliás, sua aparição no filme com aqueles olhões oceânicos é motivo de fricções e frenesi para alguns. Chico (lendo ? ) um poema que foi musicado e harmonizado – fica meio sem jeito. Mas existem palavras que já são músicas e o português é uma das línguas mais sensuais e sonoras do planeta. E Chico diz que não é poeta (hahahahaha). “Acorda amor!…”

Um dos grandes momentos do filme são as imagens raras do espetáculo “Morte e Vida Severina” com música de Chico e poema João Cabral de Mello Neto, apresentando em Nancy, França 1966.

Se a letra de música é poesia ou se sustenta sozinha (a vida é curta para essa discussão) diz uma sábia Calcanhoto. Existem letras que só têm sentido na canção e, outras, já são verdadeiros poemas. Melhor ouvir algumas melodias que só são letras porque são cantadas.

“Todas as cartas de amor são ridículas e não seriam cartas de amor se não fossem ridículas” diz uma linda Maria Betânia. Bethânia que começa sua rica trajetória de interprete e não atriz (sic) recitando um dos maiores poetas português, Fernando Pessoa.

Martinho da Vila diz que já não existem aqueles morros para os grandes sambistas de antigamente. Muito lacônico o que foi falado da grande época de ouro da música brasileira. Dos maiores sambistas do Brasil. Chico lembrou bem do Cartola e Noel, mas disse pouco. O Grande Francisco Alves não foi só um comprador de música e o cantor Mário Reis foi precursor de cantores como Chico Buarque e João Gilberto

O tropicalismo é antropofágico.
A bossa nova ficou entre o samba ligeiro que é marchinha e o samba lento que é seresta, teoriza Tatit.
Palavras só palavras. Eu quero mais. Muito mais e espero que esse seja o primeiro de uma série de grandes documentários. Muita gente boa ficou de fora.

Faltou Hermínio Bello de Carvalho, Cacaso, Suely Costa e tantos outros maravilhosos poetas da Música Popular Brasileira.
Arnaldo Antunes falando já é a Canção para boi dormir.
Jorge Mautner e Jacobina juntos já é um filme.
A greve conta a guitarra. Em 67, um repórter entrevista Caetano no festival da TV Record e pergunta se os baianos vão aceitar a guitarra? E um Caetano mordaz como só ele sabia ser, diz – não sabem eles que os baianos são mais avançados. “É proibido proibir”.

A grande genialidade e novidade que era o Caymmi, comprova um grande erudito da nossa canção Tom Zé. Espero que as pessoas saibam disso, porque o que aparece dele é um pouco caricato e precisa ser entendido para além das sílabas e grunhidos de um dos compositores mais versáteis da MPB.

É o Zeca Baleiro cada vez melhor visitando a poeta Hilda Hilst em seu sítio solitária (um pouco antes do seu encantamento) com um monte de cachorros. Uma grande poeta pouco conhecida que apelou até para o erótico para ser lida. Zeca põe música nas letras da poeta e Zélia Duncan canta maravilhosamente mostrando que essa canção está cada vez mais rica e poética. A canção pode conviver muito bem com a grande e robusta poesia brasileira.
Quero mais. Eu quero mais…

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