A parte elástica da alma

RESILIÊNCIA OU A PARTE ELÁSTICA DA ALMA

Há pessoas que têm a capacidade de suportar traumas violentos e, mesmo assim, refazer-se de modo a continuar suas vidas normalmente, passados tais choques. Diz-se que têm resiliência, palavra cuja definição migrou da física para a psicologia, e da psicologia para a vida, dando conta dessa elasticidade presente em alguns espíritos, que os faz voltar ao estado natural após o sofrimento, e seguir.

Eu acho resiliência uma palavra linda. Aquilo que evoca também é admirável. Afinal, as pessoas mais preparadas para viver bem são justamente aquelas que lançam mão de sua maleabilidade para absorver os choques, e colhem das dores lições para encaminhar melhor suas vidas.

Claro que a elasticidade não é absoluta e também na física há um ponto máximo após o qual ocorre a ruptura. Há situações na vida de algumas pessoas em que o limite do suportável é rompido, e não há recuperação possível. Há outras situações nas quais, embora a vida continue, uma parte dela terminou por causa do sofrimento experimentado. Falo de situações muitíssimo violentas, como a perda de um filho, por exemplo.

A resiliência, porém, está presente nas pessoas, em maior ou menor grau. Há pessoas que não conseguem enfrentar choques, os quais, no entanto, outras pessoas superam facilmente. Somos diferentes, os humanos. E tudo que nos compõe é distribuído entre nós em porções desiguais. Uns choram à toa, com cena de novela. Outros nunca derramam lágrimas. Nossas suscetibilidades são ímpares, como nós mesmos.

Quem possui resiliência parte com vantagem pelas veredas do mundo. Suportar e, principalmente, superar os traumas com que a vida nos chicoteia nos faz mais fortes para as próximas adversidades. Conheço pessoas cuja vida é difícil, cheia de acontecimentos desagradáveis, e, no entanto, vão bordando seu aprendizado no tecido das próprias superações. E entre esses, há uns que colorem o mundo com seu otimismo.

Conheço também pessoas que têm depressão por causa de um pneu furado. Se a TV tem um problema, sentem-se os mais infelizes do mundo. Nada de pior lhes poderia acontecer. E há outros que chamam para si todas as desgraças das proximidades, como se eles fossem os protagonistas. Outros podem até agonizar, mas eles é que precisam de cuidados. Nada suportam, tudo lhes parece pesado demais. Eles próprios são a imagem da rigidez. Se sofrem, quebram-se.
Navegadores antigos diziam frases gloriosas: “vão-se os anéis, ficam os dedos”, “deus dá o frio conforme o cobertor”. Essa última é até engraçada: parece que o seu destino depende de sua resiliência, que só lhe acontecerá o que você possa suportar.

Não é assim: as coisas acontecem e, dependendo da nossa resiliência, vamos suportando, aprendendo e superando, ou não. Às vezes rompemos, nos desfazemos de vez; às vezes os próprios traumas nos ensinam a superá-los. Nesse aprendizado, um ser feliz é a ostra, cuja superação tem o nome de pérola. Taí: pérola é uma palavra mais bonita que resiliência. Há mesmo, creio eu, uma evolução entre resiliência e pérola, uma evolução entre espécies diferentes.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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