A ‘partícula de deus’ continua arredia

Por Marcelo Gleiser
FSP

O bóson de Higgs é o elo perdido do modelo que descreve tudo o que sabemos sobre a matéria

A cada dia, aumentam as expectativas de que algo precisa acontecer no LHC (do inglês Large Hadron Collider, Grande Colisor de Hádrons), o gigantesco acelerador de partículas do Cern (Organização Europeia de Pesquisa Nuclear). Desenhado para encontrar, principalmente, uma partícula chamada “Higgs”, em homenagem ao físico inglês Peter Higgs, que propôs sua existência, até o momento os experimentos não têm nada a mostrar.

Pelo contrário, os resultados parecem delimitar a massa da hipotética partícula a valores que contrariam muitos cálculos. Talvez a constituição da matéria seja mais estranha do que suspeitamos.

É conveniente falar da massa de partículas pesadas em unidades da massa do próton, o integrante principal do núcleo de todos os átomos. O limite atual da massa da partícula Higgs, anunciado no dia 18 de novembro passado, é menor do que a de 141 prótons, provavelmente em torno de 120 prótons. Se a Higgs existir, claro. Porque devemos sempre lembrar que físicos não ditam como funciona a natureza.

Uma partícula como Higgs ajudaria a compreensão de como outras partículas (como quarks e elétrons) têm as massas que têm, mas não significa que a Higgs existe.

Mas antes de continuarmos, um pequeno aparte sobre esse estranho apelido, “partícula de deus”. Claro que uma partícula de matéria não tem nada a ver com Deus. “A Partícula de Deus” é o título do livro do prêmio Nobel Leon Lederman, diretor do laboratório americano Fermilab quando fiz meu pós-doutorado lá. O título foi sugerido pelo seu editor, que não gostou do título que ele havia proposto. Lederman queria chamar o livro de “The God Damned Particle” (“maldita partícula”) porque ninguém consegue encontrá-la. Mas o editor achou que “The God Particle” venderia muito mais. Acho que ele tinha razão.

A Higgs é o elo perdido do Modelo Padrão, um conjunto de resultados que descrevem em detalhe tudo o que sabemos sobre as partículas que compõem a matéria e suas interações. Ele é um triunfo da física do século 20, reunindo décadas de grandes descobertas experimentais e teóricas. Sua precisão é tamanha ao descrever como as partículas interagem entre si que ninguém, ou quase ninguém, duvidava de que a Higgs, ou algo como ela, seria encontrada. A realidade, entretanto, é outra: não só a Higgs não apareceu, como, se existir, terá uma massa que não seria a mais “natural”.

A busca por uma partícula tão elusiva é um excelente modelo de como a ciência funciona. Uma hipótese é proposta, prevendo a existência de uma nova entidade natural. Cálculos detalhados são feitos, tentando isolar as propriedades dessa entidade hipotética. Experimentos são montados para testar a hipótese, ou seja, para tentar encontrar a possível nova entidade. Em caso afirmativo, ótimo. Em caso negativo, há duas alternativas: ou a entidade não existe ou a hipótese deve ser refinada. Esse refinamento gera novas hipóteses que também precisam ser testadas.

Esse processo eventualmente leva a novas explicações de como a natureza funciona. Um resultado negativo muitas vezes abre caminhos inesperados, ampliando nosso conhecimento do Universo. Em ciência, crise leva ao novo.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de “Criação Imperfeita”. Facebook: http://goo.gl/93dHI

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Jóis Alberto 4 de Dezembro de 2011 17:58

    Pitaco metido a besta: se Deus é causa imanente, se Deus é a natureza, como propõem filósofos como Spinoza, então é provável que essa tal partícula seja igualmente imanente. Pode simbolizar uma inteligência potencialmente perfeita! Pode, ao contrário, ser transcendente. Pode simbolizar o ‘estado de bagunça transcendente’, que o poeta Murilo Mendes inaugura no poema “Mapa”, conforme minhas leituras da época da adolescência. Pode ser dicótomo, dual, ambas as coisas…

    Pode estar além da dicotomia, da dualidade, da física e da metafísica! É possível que seja uma das mais complexas teorias da Física contemporânea. Não sei se é provável que seja um besteirol científico – coisas como ‘geração espontânea’ em biologia, lobotomia na psiquiatria, Terra quadrada como nas teorias que prevaleceram até a idade Média, o nosso sol como centro do universo, o olhar para o próprio umbigo, o etnocentrismo de brancos europeus, etc, etc…

    Levantando-se aparentemente disparatada hipótese, há possibilidades, ainda que remotas, de o que foi enumerado como besteirol científico não o seja: que, do nada, tenha ocorrido uma primordial e caótica geração espontânea, ligando este a outros universos ainda desconhecidos – que nada? que vácuo? que vazio? – e assim sucessivamente por toda a eternidade – ‘por que existe o ser e o não o nada?’, indaga Heidegger; é provável que a lobotomia tenha trazido alguma contribuição para a neurologia contemporânea; que a Terra seja, de algum modo – virtual, por exemplo – quadrada, como parecem acreditar adeptos dos braços religiosos mais obscuros, das grandes religiões; seria a quadratura do círculo, por exemplo?, quais números são transcendentes?, o que é consistente ou não nessa argumentação e nessa lógica, etc & etc…

    Pode ser que essas experiências citadas por Marcelo Gleiser, talentoso divulgador científico, resultem numa grande descoberta científica, como aquela que fez Arquimedes bradar ‘Eureka’! É de se cogitar também que seja teoria do mais rigoroso cartesianismo, ou pura poesia, como no poema em prosa “Eureka”, de Edgar Allan Poe…

    Por São Leminski, isso não é um comentário, é um Catatau de palavras, frases, orações, etc! Metidas a besta? Ora, ‘besta é tu, não viver esse mundo/por que não viver?/ se não há outro mundo’…!

  2. Alex de Souza 5 de Dezembro de 2011 8:02

    deus é uma viage

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