A pata da gazela

Por José Miguel Wisnik

O GLOBO

No pé perfeito, os dedos se distribuem, pode-se dizer, como as notas pitagóricas da série harmônica

Curiosa síndrome que eu compartilho, ao que eu saiba, com pouquíssimas pessoas: quando eu vejo os pés de alguém, é como se ali se revelasse algo do sexo e da alma. Os pés estão longe de ser neutros, como se fossem mera parte funcional do corpo. Para mim, e para esses poucos de que tenho notícia, eles emitem mensagens não verbais lancinantes sobre o ser da pessoa. É como se eu não conhecesse ninguém antes de ver-lhe os pés. Especialmente as mulheres. Há pés clássicos, pés românticos, pés barrocos, pés punks. Há pés pagãos, pés cristãos. Pés refinados, pés toscos. E não pensem que esse elenco pretende ser exaustivo. Isso é apenas uma amostra do quanto eles são falantes para esses alterados que, como eu, não conseguem deixar de prestar atenção neles — e de desejar vê-los.

É o caso também do ótimo colunista Antonio Prata, que escreve na “Folha de S. Paulo”, e que numa crônica chamada “Leitura de pés” (cujo link minha filha, que é fã dele, me mandou) desnuda suas obsessões dizendo que “os pés são uma espécie de maquete metafórica da anatomia”. Sou a favor de todas as definições que tentem exprimir o fato de que nos pés temos uma visão reduzida do todo, uma fisionomia muda, às vezes pungente, que completa e altera a imagem que temos de alguém. Segundo Prata, se as sandálias de uma mulher, mesmo linda, “revelam dedos feios, com juntas angulosas — desses que parecem cordas, cheias de nós — debruçando-se sobre a sola, de um instante pro outro toda ela se transforma em pé: o nariz é uma junta, o antebraço é uma falange, a maçã do rosto saliente é apenas mais um defeito daquela nodosa figura”.

A pegada de Antonio Prata conduz à metafísica pela via estética, numa espécie de perpétua demanda do pé perfeito, platônico, descido do mundo das Ideias para a terra, para o chão. No pé perfeito, os dedos se distribuem, pode-se dizer, como as notas pitagóricas da série harmônica, como a música das esferas, “diminuindo gradativamente até chegar ao dedinho”. Que, num detalhe bem terreno, “precisa ter unha de verdade, não apenas aquele fiozinho”.

Mas esses são os pés clássicos, renascentistas, que Michelangelo monumentalizou e levou ao excesso. Os pés nodosos, ou esguios, esquálidos, são da ordem existencial cristã, cuja iconografia é mais que conhecida. Li uma vez em algum lugar, num desses poucos rasgos em que alguém se dedica à importância do tema, que os joanetes indicam uma disposição generosa e compassiva da parte da pessoa que os suporta. Faz sentido. Os pés são associados no simbolismo tradicional ao signo astrológico de Peixes, que é o símbolo da era cristã. Estou longe de desprezar esses códigos analógicos prémodernos. É que os pés carregam o peso do corpo como Cristo carrega a sua cruz, e arcam com a sujeira do mundo, sua impureza e seu preço. Na Gestalt cristã, eles são a marca da nossa incompletude, e pedem para si a compaixão que eles mesmo irradiam.

O fetichismo perverso é o contrário: na interpretação freudiana, o fetichista projeta no pé o falo imaginário que a mãe não tem, como se tapasse o buraco da falta. Teorias à parte, gosto das taras fetichistas escancaradas na animada poesia de Glauco Matoso. Mas não é entre esses, certamente, que eu e o Antonio Prata nos alinhamos. Leio num texto de Georges Bataille chamado “O dedão do pé” que os antigos chineses não só atrofiavam os pés das mulheres, mas cercavam a sua visão de uma série de interdições, assim como os turcos do Volga, turcos da Ásia Central, consideravam “imoral mostrar os pés nus, dormindo até mesmo de meias”. Muito diferentes da verdadeira orgia exibicionista de gregos e romanos: os pés ostensivos são pagãos.

O ocidente cristão cobriu os pés com um manto de pudor que durou até o século XIX. Cobriu de maneira tácita, que é a mais insidiosa — quando não se declara uma proibição mas, em vez disso, joga-se sobre algo um véu invisível que vela sem esconder completamente. É o caso dos braços machadianos, cuja ambivalência provocante o bruxo soube tanto explorar. No romance “A pata da gazela”, de José de Alencar (um dos mais obscenos escritores brasileiros, pela mistura do seu senso erótico com seu moralismo), o rapaz se apaixona por um pé que ele viu apenas de relance. Ele não sabe se esse pé corresponde à moça que ele deseja, ou se é de outra. O final é feliz: sim, o pé e a moça fazem parte da mesma pessoa.

Minha mulher me disse que tudo isso é coisa de homem, essa tentativa de apreensão deslocada do todo numa parte do corpo. Que as mulheres têm a ilusão de captar ou de capturar diretamente o todo, ao preço de não se sabe quantas decepções. Achei que ela disse coisas certas. Os nativos da minha síndrome ficam nessa pesquisa de campo, sem fim, de uma improvável conjunção entre os pés e o ser — em busca da fugidia pata da gazela. Por isso todos os pés são, para nós, cheios de segredos. São tabus e são totens que se ligam por enigmáticas relações de parentesco.

Totem e tabu. Sei que estou muito mergulhado em Oswald de Andrade, por motivos que já expliquei aqui (a exposição que estreia no Museu da Língua no dia 26). Mas pergunto: será por essa ligação entre totem e tabu que o quadro “Abaporu” (foto), de Tarsila do Amaral, o emblema da Antropofagia oswaldiana, é um ser que, invertendo as hierarquias, é só um pé que vai plasticamente definhando conforme sobe em direção ao rosto?

Só sei dizer que, em dias inspirados, como os da primavera que vem chegando, a festa dos pés nus, femininos, me soa como uma sinfonia excitante, um hino à vida.

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