A pauta dos jovens sem pauta comum

Por Contardo Calligaris
FSP

Esbarro em comentários que juntam lugares e fatos como se tivessem relevância comparável

1) A Primavera Árabe começou em dezembro de 2010, quando, na Tunísia, um jovem vendedor ambulante, Mohamed Bouazizi, imolou-se pelo fogo diante dos guardas que o esbofetearam e confiscaram sua charrete.

Essa reação heroica ressoou pela costa oriental do Mediterrâneo. Bouazizi, sacrificando-se, proclamava a autonomia inalienável do indivíduo: os governantes podem me forçar a viver como querem, mas sempre me sobrará a liberdade de me matar -e de envergonhá-los, pela coragem de meu suplício.

O gesto de Bouazizi fez com que houvesse, enfim, na Tunísia, eleições livres. O movimento islâmico Al Nahda ganhou, mas não conseguiu a maioria absoluta e talvez não possa impor um governo fundamentalista. De qualquer forma, não sei mesmo se Bouazizi, caso estivesse vivo, teria votado nos religiosos que nos dizem como viver ou nos laicos.

E os jovens que lutaram contra a ditadura de Gaddafi, o que eles pensam da declaração do líder do Conselho Nacional de Transição da Líbia, segundo o qual a lei islâmica será a base para o novo governo nacional? Concordam ou discordam?

Uma pergunta análoga espreita os jovens egípcios, que sacudiram o trono de Mubarak, e os sírios, que protestam (e morrem) nestes dias.

Se alguns deles respondessem que se livraram de uma ditadura para se sujeitarem aos imames, não haveria por que criticá-los: afinal, o caminho dos ideais modernos de liberdade individual é árduo e incipiente (mesmo no Ocidente).

No século 16, a Reforma protestante se deu o direito de ler a Bíblia sem a tutela da igreja -e inventou assim nossa liberdade de consciência.

Mas, na época, os próprios reformados, que tinham acabado de se revoltar contra Roma, criaram a Genebra de Calvino, tão opressiva quanto a Roma do papa -ou quanto seria, hoje, a Líbia sob a lei muçulmana.

2) O Ministério da Justiça britânico acaba de publicar um relatório segundo o qual mais de dois terços dos saqueadores de Londres (no começo de agosto) eram jovens com sérias dificuldades escolares (nas ruas dos enfrentamentos, as únicas lojas ilesas foram as livrarias).

Conclusão sumária: jovens iletrados roubaram roupa de marca e celulares para tentar ser cidadãos-consumidores como os outros, apesar do déficit educacional que os prende nas margens sociais.

3) Em 16 de outubro, o movimento Ocupe Wall Street pediu manifestações mundo afora. Na Itália, houve protestos violentos de jovens contra a possibilidade de que o plano de austeridade suprima benefícios adquiridos. Na Espanha Falta espaço, mas verifique: as manifestações tiveram sentido e alcance diferente na Espanha, na Grécia, em Portugal e no Brasil.

Será que é preciso também lembrar que o movimento Ocupe Sampa tem pouco a ver com Ocupe Wall Street? E que os jovens chilenos se manifestaram, desde maio, por razões diferentes das dos “indignados” de Oakland (Califórnia)?

A praça Tahir não é Zuccotti Park, que não é o Anhangabaú nem a USP. Parece óbvio, mas o fato é que não paro de esbarrar em comentários que juntam lugares e acontecimentos como se tivessem relevância comparável e inspiração comum.

Ora, esses movimentos e manifestações têm só uma coisa em comum: todos juntos, eles permitem uma espécie de “pauta projetiva”.

Ou seja, eles não têm pauta comum (e, às vezes, não têm pauta alguma), mas, uma vez reunidos, constituem um conjunto suficientemente incerto para que nós, observadores, possamos lhes atribuir uma pauta que é da gente. Explico.

Sofremos com um sentimento de iniquidade, uma vontade de mudança, uma tensão do espírito crítico – em suma, com a insatisfação abstrata que é a quintessência do espírito ocidental moderno e de sua inquietação.

Até aqui, tudo bem -só que, provavelmente, somos envergonhados por nossa incapacidade de pensar alternativas concretas. Receamos que nossa insatisfação apareça como o efeito combinado de uma preguiça intelectual com um vago desejo adolescente de que o mundo seja melhor.

Solução: numa série heterogênea de manifestações de jovens, “encontramos” uma pauta “comum”, com a qual simpatizamos -obviamente, pois ela é apenas uma projeção de nossas próprias queixas mais abstratas.

É uma maravilha: podemos ser condescendentes com a eventual mediocridade de nossas próprias ideias.

Olhe só, eles estão protestando contra o “sistema” injusto; é um pouco genérico, mas é bonito, não é?

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