A paz impaciente

Para Márcio

A paz que conheço e sei que a um só tempo me espreita e está dentro de mim é uma paz masculina e espaçosa. Não tem timidez, nem limites, ela avança entre sombras e desvãos, subverte esconderijos. É de uma alegria indecente a paz que chamo de minha. Tem uma língua afiada, me diz verdades, as verdades dela. As minhas, ela as ouve e entende. É uma paz compreensiva e acolhedora e do muito que me dá, só uma coisa me pede: quer ser vivida. Tento contentar a minha paz contente. Tento fazê-lo assim, com palavras que se vão despindo, feito a mesma paz que lhes despe.

A minha paz tem um tanto de placidez, mas não é tanto assim. Tem algo de chuvosa, a minha paz é chuva, são pingos, gotas que me revolvem. Quer o seu lugar ao sol e o seu lugar no escuro, quer ser luz de candeeiro. É candeia. É o seu próprio combustível. Pois, pois, a paz queima também, quem o diria?

Quando menos espero, vem a paz e amacia o meu ser ambíguo, o meu ser movido a esperas e outras faltas. Ela tem gosto de desamparo, de descampado, de intempérie. É que, desta paz, a gente não se apazigua sem antes sentir o gosto das coisas aflitas. Mas eu me apaziguo toda, eu me aninho nesta paz matreira. Eu me amplio, me alargo, me extremo nos infinitos, “não peço delícia melhor. Mergulho nisso como num mar”.

E porque existe esse tipo de paz, a gente às vezes aceita o risco e até a dor. Não tem de haver dor, mas a gente aceita a possibilidade dela, só para ganhar essa paz aguda, que nos tira do sério e nos faz gargalhar. Invade-nos o coração, o destino, “ como se o vento de um tufão/Arrancasse meus pés do chão”. É essa paz invasiva o alimento dos teimosos, dos que pelejam pelo deus escorregadio chamado felicidade. Por isso, a paz só podia ser peleja, mesmo sendo a peleja o oposto da paz.

Buscar a serenidade e fazer-se recipiente dela, agarrar a serenidade e deixar-se tomar por ela, é essa a arte de serenar-se. Uma arte tão fina quanto as outras, para a qual também são precisos talento, apetite e vontade. Serenada eu só fico quando muito me apuro, e é bom apurar-se, sentir as próprias destilações.

A paz me amacia, mas também me aguça. A minha suavidade, bem o sei, é pontiaguda. Meus sentidos, todos os muitos, atentos na calma, tornam verdadeiro o meu estar no mundo. Ser-me e estar-me aqui, em mim, sentindo, isso me guia por veredas e escolhas. Disto me faço: sentidos. Para ser feita, preciso de serenidade.

Para ser feita, preciso do homem que é a minha paz. Eu o chamo namorado, marido, amor. A paz dele vira a noite comigo e me prefere, entre as coisas. Escolho e sou escolhida, feito quem aceita destinos, feito uma noiva. “Enfrentei furacões com meus vestidos claros”, com meus vestidos cor de rosa e carvão. Mas, como noiva imperfeita da calma, não visto o branco, antes me dispo para a paz, pois a cor da serenidade é a cor da nudez.

Este texto contém citações de Walt Whitman, Gilberto Gil e Iracema Macedo. Contém também o título de um disco de Marisa Monte.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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