A poesia de Carlos Gurgel é uma voz incessante

Poesia é coragem.

A cosmogonia de Carlos Gurgel, magnificamente registrada na coletânea “Labaredesconderijo” – capa, cd e o belíssimo encarte – está pichada, grafitada, escrita, rabiscada, enfim mapeada nos objetos, círculos e pensamentos; no caos em movimento que ele cotidianamente per si, engendra.

Fotografia: Rudá de Melo

Então, com generosa paciência, ele reler silabicamente, nesse mundo coisificado, o caminho secreto da sua mítica. O timbre vocal e a sonoplastia reforçam o sentido catártico presente em toda amostra.

Poesia é ato extremo de afirmação no espaço onde as palavras são como o vento e as ideias são monumentos de alvenaria e cal. Nessa dimensão só os mitos permanecem e apenas por eles a verdade, imanente, se revela.

Aqui, a matéria dessa gênese é o corpo e a alma do poeta que se permite ao vazio e “vê” em múltiplos sentidos a própria fala que atravessa as paredes, os objetos, as palavras e as verdades.

Vem de longe essa palavra viva, esse abrigo de fogo, esse conhecimento geratriz. Demócrito e Leucipo também contemplaram os abismos das palavras no caminho solitário da poesia quando invocaram o trágico, o aleatório, o imprevisível dos elementos fundamentais no engenho fecundo da natureza. 

A poesia de Carlos é uma voz incessante que ressona e reflete o que se sabe. É uma profusão de palavras com tal força poética que se poesificam mesmo se misturadas arbitrariamente. Uma sequência aleatória dos títulos dessa coletânea confirma:

“Tempo ao longo do tempo, partida, assunto, psique, intimação.

Muitas madrugadas quase nunca manhã.

Trôpego prólogo, mastro bárbaro. Bestiário. Vertigem.

Reminiscências, negrume, escopo marginalmente verbal.

Eu identidade, museu, heráldica.

Vento sobre a foz de um rio que nos encanta.”

A fala de Carlos Gurgel é poesia viva que devora tudo o que vê e se estende como labaredas a conduzir a atenção de quem a lê a um caminho sem volta, que se desdobra continuamente em várias direções, para dentro do leitor, a revelar a natureza sígnica da existência e do saber.

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