A poesia e o poder no jogo de Xadrez

NA TRIBUNA DO NORTE

O jogo de Xadrez sempre foi pra mim um desses mistérios insondáveis, uma invenção de um ou de alguns gênios que teve como destinatários outros gênios, talentos predispostos às maquinações cerebrais em busca do momento mais excitante e mesmo apoteótico de uma partida: o xeque-mate

Aprendi a jogar, a mexer as peças sobre o tabuleiro, ainda criança, no convívio com amigos do Barro Vermelho, mais especificamente com um menino chamado Victor (nunca mais o vi desde aquela época saudosa), que morava na rua Meira e Sá, paralela à minha, a Segundo Wanderley. Em sua casa havia praticamente um clube de Xadrez. Seu pai era o grande orientador de todos e vivia entre os tabuleiros e relógios específicos que marcavam o tempo das partidas. Usados de forma peculiar nos jogos ditos “relâmpagos”, esses relógios duplos possuem pinos que são percutidos pelos jogadores após cada lance dado. E era cada pancada nos reloginhos! A partir dali passei a entender melhor o sentido do tempo.

Confesso que nunca passei de um jogador mediano, mas conseguia vencer a maioria dos outros jogadores medianos. Alguns primos meus jogavam bem melhor, até mesmo em face de uma frequência muito maior ao nosso “clube”. Mas, não dá pra usar isso como desculpa pelas partidas que perdi e ignorar que possuíam e possuem um talento matemático nato, coisa que a gente não explica assim com facilidade.

Parece que o jogo requer alguns requisitos pessoais e psicológicos inarredáveis. Um deles é a paciência. Outro é a memória. Outro, a capacidade de concentração. Outro é a criatividade. Quando um jogador reúne todas essas características, aí é correr para o abraço e gritar gol! Ou melhor: xeque-mate!

Eu não era e talvez nem seja ainda um jogador vocacionado, um daqueles que reúnem todos os caracteres indispensáveis para se tornar um ótimo jogador de Xadrez, essa denominada Arte de Caissa. Possivelmente, uma certa impaciência e alguns momentos de devaneio (sou um poeta, perdoem) no meio do jogo não me permitem ter a mais perfeita consciência e concentração de minhas jogadas, de meus lances. Mas vivo participando ativamente do jogo, expondo minhas forças e fragilidades, correndo riscos, sofrendo algumas derrotas, mas muitas vezes terminando a partida com o doce sabor da vitória. É que a perseverança, a condição criativa e a previsão da próxima jogada a fazer também as utilizo nesse cenário em que as 32 peças são distribuídas pelo tabuleiro em que a guerra e a paixão se desenrolam. E sempre fui, sim, um apaixonado. Por isso, os meus lances são fidedignos e confiáveis.

O Xadrez pode ser uma boa metáfora para o jogo da vida, a luta pela sobrevivência e a aquisição da felicidade e de uma certa conquista “poder”. Mas, é essencial que respeitemos as regras estabelecidas e joguemos atentos, para que não aconteça de ficarmos encurralados em encrencas labirínticas.

Talvez fosse interessante que todos os nossos políticos também aprendessem a arte poética e estratégica desse maravilhoso, vetusto e sedutor jogo, para que não se vissem, de repente, com uma articulação das peças adversárias bradando diante das suas torres cercadas, bispos, reis e rainhas derrubados por distração, peões montando cavalos e transpondo pontes outrora indevassáveis em face da inconsequência dos lances e da falta de cumprimento das regras do jogo, por pura prepotência de alguns maus jogadores.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 7 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 25 de Junho de 2013 18:31

    Goste, Lívio. Apertemos as mãos. Um forte abraço!

  2. Lívio Oliveira 25 de Junho de 2013 21:05

    Todo processo de mudança dá um certo frio na barriga. Vai dar certo, Tácito!

  3. Anchieta Rolim 25 de Junho de 2013 22:09

    Gostei, Lívio. Apertemos as mãos. Um forte abraço!

  4. Lívio Oliveira 25 de Junho de 2013 22:56

    Sim, amigo Anchieta!

  5. Alex de Souza 26 de Junho de 2013 12:20

    já rodei que só a porra pra encontrar como se faz pra publicar no site novo, mas não achei. Desisto.

  6. Carmen Vasconcelos 26 de Junho de 2013 18:29

    Também procurei. Tomara que volte logo o sistema antigo de postagem.

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