A poesia para a qual nem morrer é remédio

Seu conterrâneo Ascendino Leite já havia deparado com o dilema fatal: poesia ou morte. Foi com este dístico que ele nomeou a reunião de sua poesia, velha já de uma dúzia de anos, no entanto, tão atual! Talvez que alguns poemas padeçam da natureza mais íntima do vinho: à medida que avançam no tempo, incorporam certos elementos rejuvenescentes, e se tornam melhores.

Ao reunir sua poesia, a exemplo de Ascendino – seu antecessor na Academia Paraibana de Letras –, o poeta-crítico Hildeberto Barbosa Filho (foto) se impôs dilema semelhante ao que levou o autor do mais famoso jornal literário de sua época a proferir o brado radical, cuja essência se impunha de imediato: antes perecer a viver sem poesia. Mais cético, Hildeberto evitou as armadilhas do impasse ascendiniano e decretou, como um novo Cioran: “Nem morrer é remédio”.

É sob o ônus existencial desse presságio que HBF rematou vinte e quatro anos de poesia pública, mas cuja gênese deve emplacar no mínimo outros tantos anos, pois nenhum poema nasce de pronto habitualmente. Antes, precisa ser desbastado de excessos e lacunas até se tornar apresentável.

Mas é inútil buscar nas 433 páginas de “Nem morrer é remédio” (Ideia, 2012) um poema que porte tal título. A expressão é muito mais a síntese do longo labor poético empreendido por HBF, durante horas incontáveis de dias inumeráveis como as tentações da musa versejadora.

Tudo começou com “A geometria da paixão”, desencadeando um fluxo intermitente de outros poemas, outros livros, outros presságios do poema que iria finalmente saciar a sua sede de poesia. Em HBF, porém, essa sede parece não ter limites. Mesmo admitindo que seus interesses se resumam essencialmente a três coisas, como reza o poema “Declaração” (“À sombra do soneto e outros poemas”): “Poucas coisas me interessam: / um amigo que sofre / uma mulher ferida / um livro raro […]”.

Em “Desolado lobo”, páginas atrás, em colóquio com seu alter ego, HBF adota outras dicções. Em “Hábito” condena os céticos – “tudo está sempre a nascer”; em “Morte”, descreve-a como “breve, vasta e vã”; em “Verso” recolhe um adjetivo para a angústia: “apátrida”: “pobre de teu verso que por ti / fazer nada pode”.

O passo seguinte foi a reunião dessa vasta obra poética. E mais que de pronto, ela se descola do registro dos bens naturais do poeta para buscar suas infinitas possibilidades de leitura, destino irrevogável dos livros. Pensemos no veraz Catulo, o latino, que, no entanto, augurou profeticamente ao seu “Livro de Catulo” (que ele designou de libelli = livrinho): “que viva, ó deusa virgem, mais de um século!”.

Se aos olhos de algum conterrâneo pareceu por demais pretensioso o autor do “Livro de Catulo”, hoje consideramos modesto seu vaticínio, quando comparado ao requinte de sua poesia, que não cessa de seduzir e encantar. No que toca a Catulo, portanto, morrer não foi remédio. Sua poesia estaria aí, para desmenti-lo, caso a tivesse formulado nesses termos, o que não o fez, como já vimos.

Dois séculos passados, os poetas continuam a viver e a escrever, alternadamente, sem que cheguem a um acordo sobre o tanto que lhes cabe viver e o outro tanto, escrever. Viver para escrever? Sabe-se que chegar a esse extremo equivale a renunciar à vida. Ora, quem porventura assim agisse, ainda disporia da matéria própria à escrita? Seria o caso de reverter a equação, antepondo o escrever ao viver? Mas sobre o que escreveria quem se furtasse a viver? De que matéria consistiria tal escrita? Insistir nesse círculo vicioso não leva, portanto, a qualquer porto seguro. Impõe-se, então, o bordão hildebertiano: nem morrer é remédio!

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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