A poética de Arriete Vilela

Arriete Vilela, natural de Marechal Deodoro, é uma escritora já consagrada na literatura alagoana. Seu primeiro livro foi “Eu, em verso e prosa”, publicado  no ano de 1971. Sua obra constitui-se de poemas, crônicas e contos de natureza intimista e, atualmente, vem escrevendo também romances.  Seus escritos têm sido objeto de estudos tanto a nível de graduação como pós-graduação, em monografias, ensaios e dissertações. Um dos livros mais conhecidos da autora, “Fantasia e Avesso” (1986), já foi adotado no vestibular e foi objeto de estudo de várias dissertações de mestrado. Dentre eles destaco “A escritura da paixão”,(2001) de Edilma Acioli Bonfim.

No conjunto de sua obra, os estudiosos são unânimes quando afirmam que Arriete Vilela é uma escritora preocupada com a arte da palavra, com a tecitura do fazer poético. E, se há uma recorrência temática, essa recorrência, segundo a ensaísta e crítica literária Neide Medeiros Santos num estudo sobre o livro Ávidas paixões, áridos amores, (2007) vem revestida de uma nova roupagem. O bordado nunca é o mesmo, a palavra tecida adquire nuances novas, o que não torna a obra repetitiva ou esvaziada.

Ainda em seu ensaio, a estudiosa chama a atenção para o poema 17, que, segundo ela, parece ser o mais representativo do trabalho artesanal de Arriete Vilela com a palavra.  Assim elenca alguns elementos intratextuais  tais como “avesso”, “bordado”, “fiapos”, “tecer”, “afetos”. Todavia a ensaísta ressalta que há  muito o que se dizer, além da necessidade de centrar um estudo nas epígrafes e há poemas que necessitam ser descobertos, “palavras que merecem ser contempladas mais de perto.”

É nesse emaranhado de fios que pretendo destecer e tecer outros significados, buscando desenrolar o novelo e encontrar a ponta do fio.

Nessa busca, nesse intuito de descobrir outros poemas, contemplar mais de perto outras palavras, percebo em Ávidas paixões, áridos amores (2007) uma representação da relação amorosa marcada pela ausência, pela incompletude,  pelo vazio,  por amores dilacerados. No bordado em labirinto, a autora tece, destece e tece num desejo identitário de tradução e reconstrução. E nessa travessia poética, nessa relação amorosa com a palavra poética, percebe-se  o desejo de preenchimento da falta através do simbólico. Ou seja, nesse amor que não se completa, ela busca a completude através do simbólico, não como fuga, mas como forma de reinventar-se, de preencher essa falta, reordenar sua realidade. Isso possibilita uma intertextualidade com o conto “A moça tecelã” (2003), de Marina Colasanti. Mas, antes de adentrar nesse estudo comparado, é interessante ressaltar que o  ato de tecer como metáfora do ato  de criar – seja algo concreto ou abstrato –  é comum  tanto na literatura como na mitologia.

Na foto com Mia Couto, alagoana Arriete Vilela é uma das principais escritoras do país, com mais de 30 prêmios no currículo; ela também é professora de literatura da Universidade Federal de Alagoas e integrante da Academia de Letras Alagoana.

No universo literário, poderíamos citar exemplos como Sylvia Orthof com seu livro de poemas “Pontos de tecer”, no qual a autora tematiza o processo de criação literária.  João Cabral de Melo Neto, em um de seus poemas diz que um “galo sozinho não tece uma manhã…” e no mesmo poema refere-se a fios, teias, tecidos para falar do fazer poético, ou  de outros temas se “o enfoque escolhido for o ideológico.”  Outra obra é o “Penhoar Chinês”, de Rachel Jardim, objeto de estudo do ensaio A imitação de um bordado (1981), de Vera Lúcia dos Reis. Nele, a ensaísta chama a atenção para o fato que a  personagem  protagonista, Elisa, usa o ato de bordar num desejo  identitário:  “Busquei a mim mesma na trilha do  bordado, de repente perdi-me nos meandros. Sou tantas que não me reconheço.”

Na esfera mítica, temos Penélope, (cujo mito é bastante revisitado e que farei uma breve contraposição dele com as obras de Arriete Vilela e de Marina Colasanti) Aracne, da mitologia grega e  as parcas da mitologia romana.  Nesses dois universos – literário e mitológico  –  o que há de comum é que o fiar, o  tecer é um meio de reordenar as  realidades, tecer novos destinos para si e para os outros. Portanto, se formos listar aqui obras que se utilizam da metáfora do tear, veremos que há uma infinidade. Mas vamos, agora, a um dos  objetivos propostos: um estudo comparado entre o universo poético de Arriete Vilela e Marina Colasanti de “A moça tecelã”.

Adentrar no universo poético  de Arriete Vilela, como já foi dito,  é um verdadeiro des_afio:  cheio de linhas e nós, círculos e voltas, emaranhamentos de fiapos… Um labirinto de palavras que  re_velam,  des_cobrem…  Num jogo de esconde-esconde…  Sim, porque  a própria estrutura do livro remete a isso: composto de quarenta poemas,  todos eles, em vez  de possuírem títulos, são numerados. Na abertura do livro tem uma epígrafe de Machado de Assis: “Alguma coisa escapa ao naufrágio das ilusões”,  e, dos quarenta poemas, trinta e seis possuem epígrafes. Entre os poemas  há uma intratextualidade: emaranhamentos de fios que vão compondo um só poema.

A  forma de estruturar os versos é idêntica, já que  na maioria dos poemas  há uma repetição de palavras no início dos versos  de cada estrofe, ou seja, a presença de anáforas. Além disso, há o uso constante da adversativa “mas” e o emprego de paradoxos, de verbos no modo subjuntivo que expressam incertezas, desejos,  conflitos entre o amor real e o amor ideal. E, como já foi citado, a temática que perpassa todos os poemas é  o discurso  marcado pela ausência, pela incompletude,  pelo vazio,  por amores dilacerados e o desejo de preencher essa falta através do simbólico.

À medida que estabeleço essa intertextualidade, trago outras vozes, como suporte teórico,  de estudiosos como Roland Barthes, Otávio Paz e Antônio Cândido que falam da poesia como o dialogo com a falta, a ausência, súplica ao vazio. Seria interessante num futuro ensaio, sobre esse mesmo livro,  estabelecer também um diálogo com os escritos do psicanalista Lacan,  não com o objetivo de psicanalizar a obra literária, mas de aproximar esses dois campos do saber, uma vez que tanto o poeta como o psicanalista buscam vestígios  e dão contornos ao objeto perdido. Lacan diz que “em toda forma de sublimação, o vazio será determinante” e que toda arte se caracteriza por um  certo modo de organização em torno desse vazio. Sublinha a importância da linguagem por lidar com o significante que é “aquilo que, na ordem das artes, confere sua primazia à poesia.” 

“Ávidas paixões, áridos amores”

Na escrita de Arriete Vilela há duas dimensôes: a experiência amorosa marcada pela falta, e a relação amorosa com a poesia como preenchimento dessa falta, da possibilidade de reinventar-se simbolicamente:

O poema 34 é precedido por uma epigrafe de Neide Archanjo:

“ E,

estando,

me

faltas”.

Ainda no ensaio de Vera Lúcia dos Reis sobre o “Penhoar Chinês”, ela nos chama atenção para o emprego da epígrafe, que  serve como um pretexto, ou melhor, um pré-texto.  Ela orienta a nossa leitura,  conduz-nos a um  modo de ler. Portanto, não é gratuita, não é colocada ao acaso…  Ela se incorpora ao poema, que deixa de ser lido isoladamente. Dessa forma, a epígrafe de Neide Archanjo fala de uma presença ausência, ou melhor: “Sem o Outro, mesmo em sua presença”. Vejamos o poema 34:

Não quero lamentar os tantos

Equívocos amorosos da minha vida.

 

Ai como foram tantos!

E tão tormentosos! E tão árduos!

Oh, tão!

 

Ás vezes, penso revesti-los com a simbologia

Da roca do tear.

Para que eu teça novos enredos

E outras cantigas:

Um modo de aveludar a realidade;

Um modo de polir as arestas às paixões

Isso nos leva a estabelecer uma intertextualidade com o conto “A moça tecelã”,  de Marina Colasanti. No conto, a personagem é uma moça que vivia tecendo. Mas, ao sentar-se  ao seu tear,  era mais que tecidos e bordados que ela fazia. Ela criava a sua própria vida:   ao tecer a luz da manhã ou escolher um fio escuro para chegar a noite. Se  sentia calor ou frio, fome ou sede, tecia aquilo que satisfaria os seus desejos e assim se sentia plena, satisfeita:

“Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer”.

Até que… “tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao lado.” No desejo de preencher sua solidão, com avidez, não esperou nem o dia seguinte, começou a entremear no tapete com lãs e cores que lhe dariam companhia. E, pela primeira vez, a moça tecelã se depara com uma frustração. Porque sua felicidade, ao contrário do final feliz dos contos de fadas, durou apenas algum tempo. E o seu ato de tear, em vez de prazeroso,  tornou-se árduo:

“Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.”

Podemos perceber aqui que tanto o eu lírico do poema de Arriete Vilela quanto a personagem do conto de Marina Colasanti, na sua solidão de indivíduo, expressam o desejo de ir ao encontro do outro para preencher a sua falta, para se tornarem plenos, uma só  carne. Mas esse desejo é unilateral porque o outro  não tem a mesma concepção de amor expresso: ideal  de amor platônico: as duas metades do andrógino que procuram se encontrar, se completar. Assim,  o outro, mesmo presente, continua a fazer falta…  Vejamos o que nos diz Roland Barthes:

“A frustração figurar-se-ia na Presença (vejo o outro todos os dias e, no entanto, não me sinto satisfeito: o objeto está lá, realmente, mas, imaginariamente, continua a faltar-me.) 

                                        

Diante do desejo frustrado, elas “destecem” a imagem construída do companheiro:

“Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário e, jogando-a veloz de um lado para o  outro, começou a desfazer seu tecido. (…) A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar (…) Rápido o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o  peito aprumado, o emplumado chapéu. (Colassanti)

Em Ávidas paixões, áridos amores, o poema número 2  vem precedido de uma epígrafe de Clarice Lispector: “E tudo isso… depois que deixei de te amar.”  Aqui  o  eu lírico também “destece”  a figura do amado:

Enfim

Volta à tua dimensão real: um ser

Ordinário a sobrepor ilusões

Em casca vazia.

 

Eu deveria ter-te compreendido.

 

Mas, a princípio , imaginei a tua alma delineada

Por borboletas tropicais

E, então, só desejei apropriar-me

Da tua transcendente beleza

 

Eu deveria ter-me perdoado.

 

Agora, lacerados os meus olhos

Pelas garras da tua natureza

De ave de rapina,

Te faço voltar a uma singularidade

Concreta:

 

               És triste resíduo de uma paixão

               Em desalento consumado

               Fosco detalhe cotidiano

              Tracejado de desimportâncias

 

Como foi colocado no início, a  forma de estruturar os versos é idêntica na maioria dos poemas:  há uma repetição de palavras no início dos versos  de cada estrofe, ou seja, a presença de anáforas. Além disso, há o uso constante da adversativa “mas” e o emprego de paradoxos, de verbos no modo subjuntivo que expressam incertezas, desejos,  conflito entre um amor real e  amor ideal:

Eu deveria ter-te compreendido.

 

Mas, a princípio, imaginei a tua alma delineada

Por borboletas tropicais

É interessante os verbos empregados: delineada e tracejado, que são sinônimos e significam desenhados… Portanto, o campo semântico sempre remetendo ao desenho de  um bordado… Assim é do bordado que elas tecem os seus desejos…  E a metáfora que ela usa a princípio nessa  construção do ser amado  é uma alma delineadaporborboletas tropicais e depois do desejo frustrado se refere como  umaave de rapina. Rapinasignifica “a que rouba”.

A moça tecelã

Em “A moça Tecelã”, poeticamente, a narradora fala da iniciação amorosa. O que vai surgindo do seu bordado é o “seu desejo”, mas ela não se utiliza de metáfora para descrever esse amor. Apenas esse desejo vai sendo materializado no “chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado, que simultaneamente ao último fio de bordado vai entrando na sua vida e não apenas na sua casa”. Na descrição do marido não surgem sentimentos nem qualidades abstratas para adjetivá-lo.. O que é referido são apenas suas características físicas. Mas podemos inferir também a “natureza de ave de rapina”,  estabelecendo assim uma associação entre esses dois, pois o marido vendo o poder que a esposa tinha de tear, começa a explorá-la e, como uma nova Rapunzel, ela é colocada num mais alto quarto da  mais alta torre para assim poder tecer seus desejos e seus caprichos.

 As duas histórias unem-se pela relação entre o ato de tecer e a opção de vida das duas  mulheres, pois ambas sentem o desejo de ir ao encontro do outro, porque ambas concebem uma visão platônica de amor no sentido de completude.  Entretanto, sentem-se frustradas nessa busca e, através do ato de tear, reordenam as suas realidades.

Assim, o  desejo de amar e ser amado é uma necessidade inerente ao ser humano, mesmo que ao longo do tempo se configure de diversas formas e concepções. Se revisitarmos o mito de Penélope, perceberemos a experiência amorosa nos moldes tradicionais da mulher sempre à espera. Na modernidade, esse desejo de amor permanece, no entanto, a configuração é outra. As mulheres contemporâneas demonstram coragem no sentido de tecer seus destinos, seja construindo ou desconstruindo, mesmo que para isso tenham que pagar o preço de transgredir com as normas estabelecidas, de não serem obrigadas a manter uma relação por pura conveniência.

Otávio Paz, em seu livro “O arco e a lira” (1982), no capítulo sobre poesia e poema, diz que a poesia é a súplica ao vazio, ao diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Isso podemos perceber tanto no poema 32 como na epígrafe de Hilda Hilst que o precede,  ratificando o que Otávio Paz diz. Observem:

“Ventura a minha, a de ser

Poeta e podendo dizer

Calar o que me afeta”

(Hilda Hilst)

E, em seguida, o  fragmento do poema de Arriete Vilela:

 

Podes sonegar-me o gozo trivial,

Mas não o que a Palavra,

O silêncio,

E a solidão

Me concedem.

(…)

Podes sonegar-me o gozo trivial

Mas não o que eu mesma me concedo

 

E esse destecer sutil da memória

Que te guardava

É o modo como eu reconheço

Que só a Poesia

Reordena a minha realidade,

                   Seja a maneira de Fernando Pessoa

                    Fingindo a própria dor,

                   Seja à maneira de Hilda Hilst,

                   “Podendo dizer

                    Calo o que mais me afeta”.

A Poesia abre essa fenda à duplicidade:  revelando-se ou velando-se. Tudo isso num jogo de mostrar-se e esconder-se. Através da Poesia há a possibilidade de camuflar, dissimular… Como na epígrafe do poema número 13: Tudo é e não é”, de Guimarães Rosa. Mas o fundamental é esse poder que a poesia tem de superação do caos interior, de reordenar a nossa realidade. E aqui eu falo tanto da realidade do autor como do leitor fundamentada na visão de Antônio de Cândido, no livro “O direito à Literatura” (1988):

“(…) Quando recebemos o impacto de uma produção  literária, oral ou escrita, ele é devido à fusão inextricável da mensagem com a sua organização. Quando digo que um texto me impressiona porque a sua possibilidade de impressionar foi determinada pela ordenação recebida de quem o produziu. Em palavras usuais: o conteúdo só atua por causa da forma, e a forma traz em si virtualmente, uma capacidade de humanizar devido à coerência mental que pressupõe e que sugere. O caos originário, isto é, o material bruto a partir do qual o produtor escolheu uma forma, se torna ordem; por isso, o meu caos interior também se ordena e a mensagem pode atuar. Toda literatura pressupõe esta superação do caos, determinada por um arranjo especial das palavras e fazendo uma proposta de sentido.”

E para ratificar, mais uma vez, essa visão sobre a reordenação da realidade, veja o que nos falam os versos de Arriete no  poema 14:

 

(…)

“ Reescrevo-me para validar a minha vida

Nesse tempo presente, corrosivo:

            Cascalho na alma,

             Lâmina ferruginosa na garganta”

                                    (…)

 

A literatura, portanto, ajuda-nos a celebrar ou a suportar a vida,  redimensiona nosso olhar   em cada situação vivida, e assim vamos tecendo e destecendo os fios da nossa existência, aprendendo a nos reinventar sempre!

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Compensadora Elizabeth Iacomini 1 de fevereiro de 2021 11:47

    Um tesouro literário! Agradeço a lembrança! Parabéns! Abraços.

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