A polícia e os lugares

Comentando a ação da PM no campus da USP, o colunista da FSP Antonio Prata afirmou: “Sugerir que a PM possa entrar em todos os lugares, menos no campus da universidade, não é um pensamento libertário, é um vício classista: a velha idéia de que, neste país, todos são iguais mas alguns são mais iguais que os outros”.

Precisamos comemorar a retomada do conceito de classe (e seu corolário marxista: luta de classes) pela FSP. O problema é retomá-lo apenas contra determinadas instituições e determinados personagens.

Não sei quem sugere que a PM possa entrar em todos os lugares. A PM pode entrar onde tiver autorização para entrar. Em sua casa, caro leitor, ela só pode entrar se você ou um juiz de direito o autorizar. E o juiz o fará se houver algum motivo real.

Não encaro igualdade como direito à arbitrariedade sobre todos.

Imprensa e PM descrevem o consumo de maconha como fim-de-mundo. Em que ano estamos? Woodstock ocorreu quando? Gosto de lembrar um episódio woodstockiano: Carlos Santana tomou uma dose de LSD antes de entrar em cena para tocar. O que aconteceu? Ele continuou a ser Carlos Santana, tocou magnificamente, não errou sequer um compasso. Por que isso aconteceu? Porque ele estudou guitarra a vida inteira, já era um instrumentista pleno e não perdeu essa condição usando LSD.

Sim, existem atividades que alguém sob o efeito de uma droga como LSD (ou maconha) não deve exercer – direção de veículos, intervenção cirúrgica… O mito do usuário de drogas como ser do outro mundo já merecia estar enterrado há tempo. Caindo na real: pessoas adultas consomem drogas em tudo quanto é lugar, drogas legalizadas (álcool, tabaco) e drogas ilegais. Estive no Egito, república islâmica, onde a venda de álcool é proibida. Isso não impede que ocorram diferentes tipos de violência por pessoas não-alcoolizadas. Isso não impede o mercado ilegal de álcool.

Em sociedades tribais, produtos similares às drogas modernas são consumidos num contexto ritualístico, sob controle de pessoas experientes, vedados a deteterminadas pessoas (critérios de idade e outros).

Sabemos que grandes violências foram cometidas por pessoas sob efeito de drogas ilícitas ou legalizadas. Sabemos que grandes violências foram cometidas por pessoas que não apelaram para drogas ilícitas ou legalizadas. Violências cometidas por qualquer um devem ser punidas.

Por um acaso da vida, não uso drogas ilegais e consumo álcool (não fumo) em baixíssima quantidade. Conheci usuários dessas drogas que eram pessoas absolutamente comuns. Conheci outros que eram seres detestáveis, tanto quanto outros seres detestáveis que não as consumiam. Desconfio que violência e outros comportamentos sociais insuportáveis não derivam automaticamente desse consumo ou de seu avesso.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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