A política na vida

Ou a vida na política. Impossível nas relações da vida a ausência da política. Posto que sua interferência na convivência humana independe da nossa vontade.

Assim como ocorre na fisiologia orgânica, cujas necessidades estimuladas, manifestadas na vontade, fogem do nosso controle; tanto na intensidade quanto no momento escolhido pelo organismo.

É bem verdade que aqui não se fala de política estritamente eleitoral, partidária ou participativa. Essa sim, pode ser descartada pela vontade ou enfado. Porém, a política, no sentido amplo do conviver familiar ou social, está presente de forma tão indispensável que nem notamos. Da mesma forma que não percebemos o ar ao respirarmos. Só sentimos sua falta no afogamento ou na asma.

Politizar-se é uma forma de aprimoramento da dignidade. Seja pela participação ostensiva ou pelo simples observar conscientemente. E essa observação consciente se dá pela crítica.

A crítica é o mecanismo mental e instrutivo que liberta. Inclusive das amarras ideológicas. Da lição de Karl Marx: “A crítica não pretende enfeitar as grades, com flores, para atenuar o cárcere. Mas quebrá-las, para a colheita da flor viva”.

O que tem produzido certo enfado, ou até mesmo asco, com a prática política é a deformação do seu exercício e da sua aplicação na administração estatal. De tal forma desmoralizante, que leva suas consequências ao embate primitivo das campanhas. Nesse teatro onde viramos ancestrais dos símios.

Torcidas organizadas de times de pernas-de-pau. O que garante à demagogia a dominação do mando. E asseguram aos inquilinos dos palácios um atestado de quase usucapião.

Mesmo estando presente em tudo, na vida, a política não é ciência. Tal qual o Direito, está no campo das artes. Para que um conjunto cognitivo se configure ciência, é imprescindível a presença de Leis. O que há na matemática, física, química, biologia.

No Direito e na política não há Leis. Há normas. A política produz normas e o Direito as aplica. É uma impropriedade semântica a expressão “cientista político”. É comentarista de política. E a sociologia é uma pseudociência, pois não há Leis nas relações sociais e humanas.

Política e literatura se confundem. Já houve um tempo em que os analistas literários dividiam os romances em “ficção histórica”, “ficção de costumes” e “ficção política”. Veja que ficção histórica e de costumes não estão distantes da política.

Em homenagem a esse vínculo, termino com o diálogo final de Próspero e Calibã, na obra genial de Shakespeare. Ao responder uma reclamação do dominado, o dominador argumenta: “Tu eras uma figura ignóbil e eu te dei compleição humana”.

Calibã responde: “Mas a ilha era minha e tu ma tomaste”. Próspero argui: “Falas bem a minha língua, que eu te ensinei”. Calibã encerra: “No que a mim só serve para nela poder amaldiçoar-te”.  Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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