A política no Brasil

Belchior:

Obrigado pela mensagem. Discordar não é ser grosseiro – acho que não temos sido grosseiros um com o outro. Gosto de estar conversando com vc.

Não sei sua idade. Tenho 59 anos (60 no começo de novembro), o que não me dá nenhuma autoridade especial em relação a nada – talvez, apenas no que se refere a ter mais idade, engordar, perder cabelos, sofrer enfarte e artrose e só.

Acompanhei a formação e os caminhos de personagens e grupos políticos que vc indica. Um dia Sarney e ACM foram ala avançada da UDN (eu era criança, conheço o tema atraves de leituras), deu no que deu.

Tenho a impressão de que Sarney e Collor se aliaram com qualquer grupo poderoso que encontraram pelo caminho até hoje: não se detém uma afiliada à Rede Globo à toa. Como vc sabe, Collor convidou FHC para ministro e esse prócer do PSDB não aceitou apenas por interferência do falecido Covas… Não lembro de oposição exacerbada – nem mesmo light – de Sarney e Collor a FHC.

Considero o governo Lula muito limitado mas menos desastroso que o governo FHC (política universitária, salários). Não penso que Lula acabou com as esquerdas que um dia existiram, Houve direita esperta que fez isso antes e muito eficazmente, com o auxílio luxuoso do PSDB. As esquerdas que quiserem continuar a existir precisam se reiventar num mundo sem URSS e com a China investindo pesado em títulos da dívida pública dos EEUU – certamente, Socialismo nunca foi, é nem será isso, como não foi, é nem será partido único e monopólio da opinião pública.

Sinceramente e sem querer ofender vc, Delfim Netto jamais fez minha cabeça em relação a coisa alguma, embora saiba que é um homem muito inteligente e culto – dizem que é até afável no trato pessoal, nada tenho a comentar sobre isso.

Acho legal não termos ilusões em relação a quem a TFP apóia. Trata-se de entidade poderosa, mexe com muito dinheiro, é muito organizada, mantém uma tropa particular em vigília permanente no túmulo do fundador e líder Plínio Correia de Oliveira (sempre coberto por flores frescas e caras), comenta-se que possui campos de treinamento militar para suas tropas, já vi pequenas demonstrações de seus batalhões em espaços públicos – fardamentos caros e espalhafatosos, reminiscências de uma Idade Média de fogueiras misturada com botas negras de tropas de choque mais recentes. Duvido muito que ela seja gentil com qualquer candidato se não tiver imensos interesses em jogo.

Encaro com naturalidade uns votarem em Dilma, outros em Serra, outros votarem nulo: sociedade é isso aí, discutimos critérios porque nenhum homem é uma ilha. Considero deploráveis os argumentos usados contra Dilma nos últimos momentos da campanha eleitoral – particularmente, insinuações de lesbianismo, o drama do aborto. Li num desses blogs que a esposa de Serra falou em público que Dilma defendia matarem criancinhas – não ouvia isso desde os tempos da Guerra Fria.

Não tenho ilusões messiânicas em relação a presidentes nem candidatos. Prefiro que haja eleições, apesar das candidaturas tão fracas. Essas candidaturas são o que somos, não vieram de outro planeta. Só melhorarão com nossa presença ativa na cena pública.

Sobre aloprados e mensalões, detesto profundamente essas práticas, ainda mais porque sei que os denunciados são micro-ponta de vários icebergs multipartidários. As denúncias escandalosas sobre Dirceu e companhia silenciam os mensaleiros e aloprados sutis e bem administrados de vários partidos – o que não diminui a gravidade de sua ação a partir de dinheiro público. E enquanto gritamos apenas sobre odiosas roubalheiras do dinheiro público, ficamos cegos em relação ao cotidiano do Capitalismo, dá a impressão de que vivemos num mundo em que o cotidiano da acumulação de Capital não é roubo atrás de roubo – continuo considerando o conceito de mais-valia (O Capital, de Karl Marx) básico para se entender a acumulação de riqueza por uns e a expropriação da riqueza produzida por muitos.

Grande abraço e votos de que continuemos a dialogar sobre esses e outros assuntos. Aprendo muito com vc e com todas as pessoas que me dão a honra de conversarem comigo.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 + 3 =

ao topo