A posse de Prudente

A cerimônia foi simples e rápida. Prudente de Morais e Manuel Vitorino tomaram posse sem a presença do Presidente Floriano Peixoto. Em nome do Governo que findava compareceu o Ministro Cassiano do Nascimento, que exercia quase todas as pastas. Fez um rápido discurso, justificando a ausência de Floriano, e desapareceu.

Do Congresso para o Itamaraty, sede do poder Executivo, os empossados viajaram nobremente, na carruagem luxuosa do Embaixador da Inglaterra. Embaixada que preveniu Prudente de Morais sobre as suspeitas do golpe. Nenhuma escolta oficial. André Cavalcanti conseguiu organizar um piquete de alunos da Escola Militar. Só. E conta que Prudente comentou: “Escolta melhor do que essa, só se for de anjos”.

Hélio Silva registra a descrição que Rodrigo Otávio, ex-secretário da Presidência, faz do salão principal do Itamaraty, onde o chefe do Executivo exercia as funções de chefia do Governo e Estado.

“Na sala de despacho do Presidente, havia uma mesa grande, com oito poltronas e um armário, no qual havia apenas um livro que servia para registro de visitas nos dias de festa nacional. Floriano não recebia ninguém. Nos grandes dias, punha-se esse livro à disposição dos visitantes, indicando-se a data no alto da folha. Examinei esse livro e pude ver a persistência significativa com que certas assinaturas figuravam em todas as páginas”.

Essa descrição não retrata apenas o salão do governo. Descreve, com método, o caráter dos frequentadores do poder. A bajulação é antiga, tem a idade do Diabo.

No meio de rumores, na ausência de festas e pompa, na solidão dos indesejados, sob a vigilância do mar e o sossego suspeito das ruas, Prudente de Morais acabara de tomar posse na Presidência da República. O tempo movia mais um dente na catraca da História.

Os confrontos no sul continuavam. A trégua se dava apenas nos embates políticos mais imediatos.

Bernardino de Campos, que governou São Paulo duas vezes, republicano histórico, passou a ser uma espécie de guru do novo Presidente. Ouvido sobre tudo e influente em todas as decisões. Esse papel foi exercido depois por Francisco Glicério, a partir governo de Campos Sales, e por Pinheiro Machado a partir de Afonso Pena.

Foi dele que Prudente de Morais se valeu para a formação do governo novo.

Os florianistas sempre negaram a intenção do golpe. E justificaram a ausência de Floriano Peixoto nas sessões da posse com a argumentação de que o Marechal não aceitara a candidatura de Prudente. Que fizera gestões junto a Francisco Glicério, chefe natural do Partido Republicano, para a indicação de outro nome. Mas Glicério manteve-se fiel ao grupo prudentista. E garantiu a candidatura civil.

O segundo golpe, contra Prudente, foi tentado pelo seu Vice, Manoel Vitorino, que assumiu a presidência durante doença do titular. Mas isso é outro retalho. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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